domingo, dezembro 31, 2006

Happy New Year!


Uma antevisão interessante do que será o ano de 2007, com o esquematismo a que a Wikipedia já nos habituou. Feliz Ano Novo!

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Contra a TLEBS marchar, marchar!

Neste link encontra-se um abaixo-assinado contra a polémica TLEBS - Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (acerca da qual escrevi a 17 de Novembro) elaborado por figuras de proa das letras portuguesas. Depois só terá de enviar um e-mail para tlebs.300@gmail.com e juntar a sua voz a este protesto. Participe!

Pontuando

Penso com pontuação. A minha cabeça enche-se de pontos de interrogação, de exclamação, de vírgulas incessantes, que pululam por todo o lado e eu ali no meio de todo aquele caos de pontos e mais pontos, tentando perceber até que ponto isto será normal. Tenho tudo tão meticulosamente estruturado, com a precisão de um relojoeiro suíço (provavelmente os únicos que chegam a tempo quando ainda se vai a tempo de alguma coisa), que fico perplexa quando só vejo reticências à minha frente e também o rosto atónito do meu interlocutor que vê apenas a minha expressão imóvel. Nessa fracção de segundo, nessa troca de perplexidades, lá ando eu, de gatas, à procura de um outro sinal de pontuação que coroe de êxito as minhas palavras reflectidas. Mas em vão, por momentos, só esses três pontinhos que apontam para o infinito parecem adequados. É difícil encontrar um ponto final em termos nos dias de hoje. Os travessões já nem se usam sequer, são verdadeiramente anacrónicos. Os pontos de exclamação e de interrogação actuam com rapidez e vão directamente ao ponto. Tudo redunda em pontos, de preferência, nessas eloquentes reticências que nos abrem o horizonte de todas as coisas que podem ser ditas sem o serem verdadeiramente.

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Merry Christmas!

Parece patético ou indicador da centenária falta de auto-estima portuguesa, mas o Natal sabe melhor em Inglês. Não sei se foi da invenção pela Coca-Cola do senhor das barbas que este ano está completamente na moda ( por usar vermelho), ou da própria noção de consumismo desenfreado que nasceu no berço do capitalismo, mas o que é facto é que as canções de Natal soam muito bem em Inglês, parecendo fazer todo o sentido. Deixo aqui um clássico que dispensa apresentações e um belo hino para este Natal. Feliz Natal a todos!

domingo, dezembro 10, 2006

"Natalizando"

O Natal assenta numa profunda ironia (e daí ser uma época potencialmente interessante): trata-se de uma quadra festiva que não admite outro sentimento que não o da absoluta felicidade. No entanto, a realidade é bem diferente deste quadro idílico e pinta-se de outras tonalidades, bem mais cinzentas. Nesta altura do ano, há uma multidão de pessoas que acorre a psiquiatras, psicólogos e terapeutas para tentar encontrar a chave para uma questão profundamente complexa: como estar sempre feliz? A ditadura da harmonia baseia-se, afinal, numa profunda crueldade, pois todos nós bem sabemos que o Natal nunca é quando um homem/mulher (expressão algo sexista!) quer e que não passa, no fundo, de uma sucessão de boas intenções.
Por ser Natal, não acaba o analfabetismo ou a miséria. Por ser Natal, não cessa o conflito no Médio Oriente, nem o recrudescimento dos fanatismos religiosos e do terrorismo. Por ser Natal, não se assiste à erradicação da pobreza no mundo, nem à resolução das graves crises que assolam o planeta. Por ser Natal, Bagdade não se torna subitamente um local aprazível e pacífico. E por daí em diante, numa espiral infindável.
Creio que quando começamos a perder as pessoas que nos são muito queridas, esta época vai perdendo gradualmente o seu significado. Sente-se com mais veemência o peso dos anos e da saudade que fica em nós e se crava com mais e mais intensidade, sempre implacável, sempre dolorosa.
Mas é bom olhar para o sorriso aberto das crianças quando desembrulham os presentes de Natal e irradiam felicidade, essa, sim, sincera e sentida. “O melhor do mundo são (mesmo) as crianças”, como dizia o poeta.
Assim como é muito agradável vislumbrar as iluminações natalícias que tomam as ruas e as praças, numa teia de luz que nos enleia docemente.
A grande solução para viver o Natal com o mínimo de sanidade passa por não ceder ao consumismo desenfreado que nos impõem (conheço pessoas que nem sequer prendas trocam, o que, de facto, é extremamente revolucionário!) e, mais importante ainda, passa por ter a lucidez para ver que não se pode estar incessantemente feliz, como se de uma obrigação se tratasse. A magia do Natal reside na veracidade dos gestos e dos afectos e quem melhor que as crianças para nos encaminharem por esse trilho que insistimos em contornar?...

quarta-feira, novembro 29, 2006

Quem somos nós? O que fazemos aqui?


“Lisboetas” é muito mais do que um documentário que procura ilustrar, com uma imensa dose de poesia, o dia-a-dia das diferentes comunidades imigrantes em Lisboa.
A própria noção de Portugal de um país de imigrantes e não de emigrantes (como o sempre fora) desperta ainda perplexidade, mas, de facto, na última década, assistiu-se a um aumento sem precedentes da vaga de imigrantes que, oriundos do Leste da Europa ou de África ou Brasil, buscam (sobretudo em Lisboa) uma solução.
O documentário é um verdadeiro “melting pot” de culturas, de identidades e de costumes, numa Babel dos tempos modernos. No entanto, não se sente qualquer juízo de valor ou postura crítica da parte de quem filma. Há somente uma preocupação em filtrar a realidade crua e sempre dura, deixando os próprios protagonistas, pessoas de várias cores, credos e línguas, emergir, em toda a sua plenitude, com contornos humanos.
(Por isso é que sempre adorei o género documental, pois aí não há pessoas perfeitas, adereços supérfulos, diálogos brilhantes. Existe apenas o ser humano, tal como ele realmente é: sem artifícios, reduzido à sua essencial condição.)
Os imigrantes aí retratados nunca se desvinculam deste rótulo, seja pela distância linguística, seja pela simples razão de serem diferentes, pelas suas feições. Há um fio condutor que atravessa todas estas comunidades: o apego incondicional à memória, à língua (que é sempre a nossa pátria, claro está). Os ucranianos, enquanto lavam as ruas de Lisboa, entoam cânticos melancólicos, numa espécie de fado de Leste. Os brasileiros dançam na Casa do Brasil em Lisboa, o que não significa que a dor da distância geográfica não seja tremendamente insuportável. Os russos queixam-se do sistema educativo português e desejam que os seus filhos aprendam na escola russa, perpetuando-se o característico grau de exigência do seu país.
Todos eles, sem excepção, continuam a viver à margem, numa luta diária por vencer os labirintos da língua portuguesa e por conseguir, enfim, dialogar com um povo que rapidamente se esqueceu da sua outrora condição de emigrante. De repente ficámos todos muito endinheirados e recheados de tecnologia, carros bons, consumistas inveterados, e essa ilusão de poder fez com que deixássemos de ver para além do palpável.
Quem são os lisboetas, afinal? Lisboa é um grande ponto de encontro de forasteiros. No fundo, em Lisboa todos somos imigrantes e tentamos, desesperadamente, entoar um cântico imperceptível de algum sítio a que possamos chamar raízes.
No cartaz do filme, lê-se: “Quem és tu?”, “O que fazes aqui?”. Não é só em Lisboa que não se encontram as respostas para essas questões...

segunda-feira, novembro 20, 2006

Palavras de silêncio

No início de Outubro, fiz uma descoberta única: apercebi-me de que as minhas mãos falam, tão eloquentemente como o som que ecoa da minha voz. Passo a explicar: desde Outubro comecei a frequentar um curso de Língua Gestual Portuguesa, no IPJ, em Viseu. E de repente, as minhas mãos soltaram-se, adquiriram vida e vontade próprias, desafiando-me a interiorizar e a desbravar outras formas de comunicação. E eu lá vou a reboque das minhas próprias mãos, rendida à lógica dessa língua que me cativou desde o primeiro instante.
Sempre quis aprender todas as línguas possíveis e imaginárias, talvez com o objectivo inconsciente de viver numa qualquer Torre de Babel, em que conseguisse comunicar com todas as pessoas e, docemente, deambulasse por todo esse conjunto infindável de signos e sinais, com uma leveza desarmante.
A Língua Gestual Portuguesa é muito motivada pelos ícones do mundo exterior. Cada gesto, cada palavra parecem fazer todo o sentido, o que não significa que seja uma língua fácil. De todo! Creio que o mais árduo é ler as palavras com a mesma destreza com que soletramos as letras. Ficamos deslumbrados por dizer o nosso nome em LGP, mas quando tentamos ler o que a outra pessoa nos está a dizer, aí a questão adensa-se.
Na primeira aula de LGP, desfizeram-se alguns equívocos geralmente associados a esta língua:
- LGP é uma língua e não uma linguagem, como se assume habitualmente;
- Não existem surdos-mudos, pois uma pessoa surda tem capacidade, a nível do aparelho fonológico, de vocalizar e de proferir sons e, consequentemente, palavras;
- A expressão facial equivale a um 1/3 da comunicação;
Nessas aulas, aprendemos a ouvir o silêncio, o que no meio do tamanho ruído ensurdecedor do quotidiano, é uma verdadeira catarse, um exercício de purificação. E, entretanto, as mãos lá vão falando, encaminhando-nos para trilhos ocultos que a voz ainda não tinha descoberto…

sexta-feira, novembro 17, 2006

TLEBS

Antes de mais, a descodificação da sigla de toda a discórdia: TLEBS significa Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário.
Esta medida de implementação de uma nova terminologia está a levantar acesa polémica e discussão nos meios académicos, uma vez que tem por objectivo fazer disseminar, nos manuais de aprendizagem de Português, uma linguagem de tal forma complexa que irá, certamente, ter como resultado o reforçar da aversão à língua portuguesa por parte dos alunos.

São sobejamente conhecidas as imensas e profundas dificuldades que os alunos sentem em relação ao Português, o que se deve a um sem número de factores que vão desde o fraco estímulo para a leitura, tarefa que compete, em primeira instância aos pais e educadores, até à, por vezes, deficiente formação académica dos professores de Português que não incutem nos seus alunos a paixão pelo nosso belo idioma. Patriotismos à parte, a “ Pátria é (mesmo) a minha língua”, como dizia Pessoa.

A TLEBS, que já saiu em Diário da República, introduz categorias de classificação gramatical que, a meu ver, são herdeiras daquela linguagem burocrática e cinzenta que se espalhou um pouco por todos os campos da Administração Central.
Parece que há um certo prazer (sádico, diria) em tornar a língua portuguesa o mais rebuscada possível, como se isso fosse sinónimo de um elevado grau de saber erudito. Antes de se escrever um ofício, ou até mesmo um simples e-mail (mais propenso a um contacto informal), há que empregar as palavras mais “pesadas” para o nosso destinatário nos respeitar, nem que para isso se perca num labirinto infindável de frases e de vírgulas. De facto, é um jogo e todos nós, mais tarde ou mais cedo, entramos nele, o que não quer dizer que não possamos encará-lo com a necessária dose de ironia.
Voltando à polémica TLEBS, ficam aqui alguns exemplos que considero particularmente criticáveis e que irão, seguramente, causar grandes dores de cabeça, tanto a professores, que terão de se inteirar destas alterações de terminologia, como a alunos e, obviamente, a pais que não saberão o que responder às dúvidas dos filhos:

- Sufixo de adjectivalização;
- Sufixo de nominalização;
- Sufixo de verbalização;
- Adjectivo relacional;
- Adjectivo de possibilidade;
- Verbo causativo;
- Verbo incoativo;
- Frase não finita infinita;
- Frase não finita gerundiva;
- Frase não finita participal;
- Sujeito nulo subentendido;
- Sujeito nulo indeterminado;
- Sujeito nulo expletivo;
- Modificador do nome restritivo;
- Modificador adjectival;
- Não contáveis/massivos;
- Não contáveis/não massivos;
- Protótipo textual descritivo;
- Protótipo textual argumentativo;
- Protótipo textual expositivo-explicativo;
- Protótipo textual injuntivo-instrucional;
- Protótipo textual dialogal-conversacional;


Apesar de ser, sem dúvida, necessário o conhecimento das categorias gramaticais e da sua classificação, esta TLEBS vem apenas distanciar os alunos da língua portuguesa,.
Enfim, mais poesia e menos cinzentismo!

Deixo ainda a referência a um texto muito interessante de Vasco Graça Moura, publicado no DN, sobre a TLEBS .

quarta-feira, novembro 01, 2006

“Foi bonita a festa, pá”


Recorrendo a uma imagem do próprio, Chico Buarque também “abusa de ser tão maravilhoso.” O concerto de ontem à noite foi, sem sombra de dúvida, um momento mágico em que a poesia andou à solta e se derramou docemente sobre todos aqueles que partilharam esta experiência arrebatadora.
Lobo Antunes afirma que o livro ideal seria aquele com o qual todas as pessoas se identificassem, acreditando incondicionalmente que este havia sido escrito para elas, numa relação de partilha total. Com a música de Chico Buarque, sucede o mesmo. Creio que qualquer pessoa que ame a sua poesia e os seus acordes inconfundíveis está convicta de que estes se dirigem única e exclusivamente a si, encaixando na perfeição nos contornos multifacetados das suas vidas múltiplas.
Mal a tela caiu e o artista despontou no palco de um Coliseu esgotado, ouviu-se um coro de aplausos imenso que cessou apenas alguns minutos depois. Ando à procura de um adjectivo que defina com precisão o espectáculo de Chico Buarque e, de entre as inúmeras possibilidades que se apresentam, “comovente” será o que melhor cumpre essa função. Foi uma comoção constante a cada música que irrompia pela sala do Coliseu, lágrimas que despontavam por pura alegria.
Afinal de contas, o prazer é que nos leva. Na vida, temos duas vias possíveis: a do conformismo ou a da resistência. Podemos optar pela primeira e, nesse cenário cinzento, a vida não passará de uma sucessão de dias iguais, de tonalidade única, sem nada que os distinga particularmente. Se optarmos pela segunda, tentaremos sempre fazer coisas diferentes, negando a rotina que nos sufoca sem cessar, na demanda de momentos únicos, irrepetíveis. Como aquele que vivi ontem à noite no Coliseu do Porto.
Todas as pessoas saíram com um sorriso nos lábios, acreditando, de certeza, que a vida pode ser sempre melhor e que, no profícuo universo artístico de Chico Buarque, há um país em que “ é obrigatório ser feliz” (música “João e Maria”).

Os músicos que acompanhavam Chico Buarque são imbuídos da mesma centelha de genialidade, absolutamente irrepreensíveis.

segunda-feira, outubro 30, 2006

E fez-se música!

Amor em estado puro

Eu te amo
Chico Buarque/ Tom Jobim


Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir

Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir

Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir

Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu

Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios ainda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair

Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir.

É amanhã!

quarta-feira, outubro 25, 2006

sweet dreams


Deitava-se todas as noites com medo de adormecer. Sempre que estava naquela fase intermédia em que se tem um pé na lucidez e outro naquela zona indefinível onde todos os planos se misturam, começava a ouvir aqueles ruídos. Eram uma espécie de estalidos da madeira que à noite se liberta dos grilhões e proclama a viva voz o seu grito de Ipiranga. Tal como ele, que durante o dia estava demasiado ocupado com os outros e em fazê-los acreditar naquilo que ele desistira de acreditar há muito: na possibilidade de felicidade. Para ele, isso não passava de uma impossibilidade matemática. Com tantos seres humanos no mundo, acreditar cegamente que cada um deles iria ser feliz, parecia-lhe uma tontice sem precedentes. Mas ele sabia bem fingir que acreditava nessa patética possibilidade e, mesmo utilizando a mentira como a sua verdade militante, cumpria a missão a que propusera mais por egoísmo do que por altruísmo: esquecer-se de si próprio em função dos outros, essa terceira pessoa misteriosa que, de certa forma, o iluminava pelas sendas do seu próprio caos interior.
E lá vinham os estalidos da madeira. Outra vez e mais outra. E com eles, os passos, os interruptores da luz, indecisos, dançando para cima e para baixo, numa indecisão reconfortante e familiar. Ele tinha a penosa noção de que aqueles ruídos eram um motim do passado, que se sublevava, sempre à noite, no momento em que ele estava mais frágil. Como se a sua consciência se recusasse a aceitar a verdade e, tal como ele, embarcasse numa doce mentira em que a realidade voltava ao que sempre fora.
Não concebia adormecer sem ouvir aqueles estalidos da memória.
(Provavelmente, só ele é que os ouvia.)
Como não concebia viver sem fazer os outros acreditar naquilo que ele sempre rejeitara.
De que serve a verdade, afinal?
A madeira não pára de estalar. E aqueles interruptores? Importam-se de desligar a luz? Há aqui pessoas que querem dormir!

sexta-feira, outubro 20, 2006

A outra face


Palavras de Guerra Junqueiro, nos idos de 1896. Qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência.

"Pátria"
"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir asmoscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazerdela saca-rolhas.
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém de uno parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar…"
Imagem retirada daqui

terça-feira, outubro 17, 2006

Vale a pena pensar nisto!

Patriotismos e lamechices à parte, creio que é sempre importante divulgar artigos que nos insuflem uma nova esperança, tratando-se Portugal de um país com os índices tão deploravelmente baixos de auto-estima. Nem só de melancolia se compõem os acordes do nosso fado colectivo.

Este artigo que se segue é da autoria de Nicolau Santos, o Director-Adjunto do jornal Expresso, e foi publicado na Revista Exportar:

Portugal vale a pena!

Eu conheço um país que tem uma das mais baixas taxas de mortalidade de recém-nascidos do mundo, melhor que a média da União Europeia.

Eu conheço um país onde tem sede uma empresa que é líder mundial de tecnologia de transformadores. Mas onde outra é líder mundial na produção de feltros para chapéus.Eu conheço um país que tem uma empresa que inventa jogos para telemóveis e os vende para mais de meia centena de mercados. E que tem também outra empresa que concebeu um sistema através do qual você pode escolher, pelo seu telemóvel, a sala de cinema onde quer ir, o filme que quer ver e a cadeira onde se quer sentar.

Eu conheço um país que inventou um sistema biométrico de pagamentos nas bombas de gasolina e uma bilha de gás muito leve que já ganhou vários prémios internacionais. E que tem um dos melhores sistemas de Multibanco a nível mundial, onde se fazem operações que não é possível fazer na Alemanha, Inglaterra ou Estados Unidos. Que fez mesmo uma revolução no sistema financeiro e tem as melhores agências bancárias da Europa (três bancos nos cinco primeiros).

Eu conheço um país que está avançadíssimo na investigação da produção de energia através das ondas do mar. E que tem uma empresa que analisa o ADN de plantas e animais e envia os resultados para os clientes de toda a Europa por via informática.

Eu conheço um país que tem um conjunto de empresas que desenvolveram sistemas de gestão inovadores de clientes e de stocks, dirigidos a pequenas e médias empresas.

Eu conheço um país que conta com várias empresas a trabalhar para a NASA ou para outros clientes internacionais com o mesmo grau de exigência. Ou que desenvolveu um sistema muito cómodo de passar nas portagens das auto-estradas. Ou que vai lançar um medicamento anti-epiléptico no mercado mundial. Ou que é líder mundial na produção de rolhas de cortiça. Ou que produz um vinho que "bateu" em duas provas vários dos melhores vinhos espanhóis. E que conta já com um núcleo de várias empresas a trabalhar para a Agência Espacial Europeia. Ou que inventou e desenvolveu o melhor sistema mundial de pagamentos de cartões pré-pagos para telemóveis. E que está a construir ou já construiu um conjunto de projectos hoteleiros de excelente qualidade um pouco por todo o mundo.

O leitor, possivelmente, não reconhece neste País aquele em que vive - Portugal. Mas é verdade. Tudo o que leu acima foi feito por empresas fundadas por portugueses, desenvolvidas por portugueses, dirigidas por portugueses, com sede em Portugal, que funcionam com técnicos e trabalhadores portugueses.

Chamam-se, por ordem, Efacec, Fepsa, Ydreams, Mobycomp, GALP, SIBS, BPI, BCP, Totta, BES, CGD, Stab Vida, Altitude Software, Primavera Software, Critical Software, Out Systems, WeDo, Brisa, Bial, Grupo Amorim, Quinta do Monte d'Oiro, Activespace Technologies, Deimos Engenharia, Lusospace, Skysoft, Space Services. E, obviamente, Portugal Telecom Inovação. Mas também dos grupos Pestana, Vila Galé, Porto Bay, BES Turismo e Amorim Turismo.

E depois há ainda grandes empresas multinacionais instaladas no País, mas dirigidas por portugueses, trabalhando com técnicos portugueses, que há anos e anos obtêm grande sucesso junto das casas-mãe, como a Siemens Portugal, Bosch, Vulcano, Alcatel, BP Portugal, McDonalds (que desenvolveu em Portugal um sistema em tempo real que permite saber quantas refeições e de que tipo são vendidas em cada estabelecimento da cadeia norte-americana).

É este o País em que também vivemos. É este o País de sucesso que convive com o País estatisticamente sempre na cauda da Europa, sempre com péssimos índices na educação, e com problemas na saúde, no ambiente, etc. Mas nós só falamos do País que está mal. Daquele que não acompanhou o progresso. Do que se atrasou em relação à média europeia.

Está na altura de olharmos para o que de muito bom temos feito. De nos orgulharmos disso. De mostrarmos ao mundo os nossos sucessos - e não invariavelmente o que não corre bem, acompanhado por uma fotografia de uma velhinha vestida de preto, puxando pela arreata um burro que, por sua vez, puxa uma carroça cheia de palha. E ao mostrarmos ao mundo os nossos sucessos, não só futebolísticos, colocamo-nos também na situação de levar muitos outros portugueses a tentarem replicar o que de bom se tem feito. Porque, na verdade, se os maus exemplos são imitados, porque não hão-de os bons serem também seguidos?

domingo, outubro 15, 2006

Ohran Pamuk

O Nobel da Literatura deste ano, o escritor Ohran Pamuk, fala turco e tem em Istambul o mote de eleição dos seus livros. A Academia Nobel justificou da seguinte forma a atribuição do prémio a Ohran Pamuk:

"who in the quest for the melancholic soul of his native city has discovered new symbols for the clash and interlacing of cultures."

“alguém que, na busca pela alma melancólica da sua cidade natal, descobriu novos símbolos do confronto e do entrelaçar de culturas.”


Há duas obras deste autor traduzidas para Português pela Editorial Presença: Os Jardins da Memória e A Cidadela Branca. Esta editora anunciou para breve a tradução da obra A Vida Nova.
Ainda não li nenhum livro deste autor, mas confesso que a atribuição do Nobel é sempre um grande impulso para descobrir novos escritores e, por extensão, literaturas distantes. Nesse sentido, é muito importante consagrar escritores de países à margem, o que, sobretudo, se deve à questão linguística.
De certeza que a Letónia terá autores de primeiríssima qualidade, no entanto a probabilidade de encontrar um bom tradutor de letão será quase semelhante à de encontrar uma agulha num palheiro.
Daí que a Academia Sueca Nobel desempenhe um papel fundamental na divulgação de literaturas ainda longínquas, ao dar voz a autores que, de outra forma, não teriam a oportunidade de ouro de terem as suas obras traduzidas numa panóplia de idiomas. Esse, sim, é o prémio maior.
É, de facto, belo o processo de verter uma frase de Turco para Português e constatar que as verdades tematizadas na grande Literatura se fazem de um mesmo substrato: da universalidade da condição humana. Seja em Istambul ou em Lisboa.

Leia mais sobre Ohran Pamuk no site da Presença
Foto retirada daqui

sexta-feira, outubro 13, 2006

verde código verde


Tenho saudades daquelas lojas de antigamente, em que éramos tratados como se fossemos herdeiros de um vasto império, em que as pessoas olhavam fundo nos nossos olhos e em plenos pulmões, nos desejavam um saudável “bom dia” que ecoava dia fora.
Há dias fui a uma dessas lojas muito antigas, dominadas pela madeira escura, como que mergulhadas numa escuridão acolhedora. Daquelas lojas que ainda não têm Multibanco e que nos “obrigam” a andar uns irrelevantes metros para ir levantar dinheiro (hoje em dia, os cartões Multibanco são como que uma extensão dos nossos dedos, já não concebemos a vida pré-telemóvel, pré-ATMs, pré-Internet. A vida antes deles parece apenas um episódio improvável de tão obsoleto). Mas vale a pena. Adquirem-se peças de qualidade e mais importante ainda, faz-se uma autêntica viagem no tempo e abrimos a porta a um universo de nostalgia que nos embala docemente.

(Em Alemão, há uma expressão muito engraçada para a loja de bairro ou loja de esquina – uma daquelas expressões intraduzíveis porque muito específicas de uma cultura – “Tante-Emma-Laden”, que traduzido à letra seria “a loja da tia Ema”. Nós por cá temos o Mestre André que, infelizmente, se tornou uma espécie em vias de extinção.)

Abomino a simpatia asséptica e artificial dos regimentos de bonecos robotizados que nos tentam convencer de que ficamos bem com qualquer indumentária (quando se dão a esse trabalho), para depois nos brindarem com o “verde código verde” da praxe, num insuportável tom de desprezo. Seguinte. Já não há 34.

(E aquela música detestável que nos impõem numa ditatura massificada própria de um mundo globalizado continua a tocar, em altos berros...)

quinta-feira, outubro 12, 2006

Desafiar lugares-comuns


Novo hotel-adega, em Elciego (Espanha), concebido pelo ousado arquitecto Frank Gehry, autor do inconfundível Museu Guggenheim de Bilbao.
Fotos retiradas daqui

domingo, outubro 08, 2006

Em Português

É um comportamento muito típico dos portugueses procurar, na panóplia de notícias da actualidade, nomes, factos ou protagonistas que falem em Português ou que, pelo menos, tenham algum vínculo a Portugal. Trata-se de um traço curioso que não se coaduna minimamente com a secular falta de auto-estima lusa.
Por um lado, estamos sempre sedentos de ver um Português em qualquer cargo de prestígio ou a gozar de fama internacional (daí o fascínio causado pela Nelly Furtado e afins que conservam – nem que não seja no apelido – a marca lusitana), mas por outro lado, desenvolveu-se já na consciência colectiva a convicção de que Portugal é um país condenado que, basicamente, nada de mais interessante fez desde as longínquas Descobertas. E já passaram uns valentes séculos…
(Em Fevereiro, assisti a uma discussão muito interessante sobre a tradução de Shakespeare em Português e constatei que são parcas, ou quase esbatidas, as referências deste grande dramaturgo a este “cantinho à beira-mar plantado” no todo da sua obra. O que causa sempre um suspiro de desilusão, pois o português está sempre esperançoso de se ver retratado em qualquer lado, um pouco como aqueles japoneses insistentes que, munidos das suas máquinas fotográficas, se fazem sempre à fotografia, nela inculcando a sua marca eterna.)
Não sendo excepção à regra, confesso que fiquei muito curiosa por saber mais sobre o Prémio Nobel (“Nóbél”, como corrigiria Saramago) da Medicina deste ano: Craig Mello. Ainda antes de desvendarem a ascendência portuguesa deste eminente cientista, desde logo me detive no apelido (mais uma vez o fascínio do apelido e este com consoante dupla!), questionando-me interiormente: “Será?”…
E, de facto, Craig Mello, conforme pude apurar no Expresso deste sábado, que lhe dedica um extenso e fascinante artigo, tinha um avô português de São Miguel e ainda não veio a Portugal. Claro que mais importante do que estas curiosidades genealógicas, é o facto de Craig Mello (Universidade de Massachusetts), em parceria com Andrew Fire (lamentavelmente, não tão bonito como o nosso Craig! Grandes genes!), ter feito uma crucial descoberta de um mecanismo para o controlo da informação genética: o IRAN – interferência de ácido ribonucleico – que trará grandes benefícios ao nível do combate às doenças cancerígenas e que, em 2007, será já aplicada em medicamentos.
Isto, sim, é um contributo vital para a Humanidade e não outras questões de somenos que, no entanto, sempre irão fascinar… os portugueses!
(Vê-se, porém, pela divertida reacção de Craig Mello ao relatar o momento em que a Academia Nobel lhe ligou a anunciar a vitória, em que ele disse: “You got to be kidding!”, que de Portugal só conserva mesmo o apelido, pois o académico típico português padece de uma doença incurável que se reflecte em elevados índices de soberba, de falta de humildade e de sentido de humor!)

quarta-feira, outubro 04, 2006

terça-feira, outubro 03, 2006

Segundo "round"

Contrariamente a todas as expectativas, haverá uma segunda volta nas eleições presidenciais brasileiras. Creio que a escassa cobertura dos meios de comunicação social portugueses às eleições no Brasil se deveu, grosso modo, ao sentimento generalizado de que Lula iria ganhar. Pouco ou nada se falou acerca dos adversários de Lula, dos “presidenciáveis”.
No entanto, a realidade dos factos passou uma rasteira ao presidente brasileiro que, segundo a edição de ontem da Folha de S. Paulo, irá reunir com o seu partido para definir uma outra estratégia política.
Lula era o símbolo da utopia, das múltiplas possibilidades que se abriam a esse país riquíssimo, mas que fora sempre minado pela corrupção das classes dirigentes, tornando-se o que muitos designariam de “país ingovernável”. No entanto, com Lula, o cenário de esperança adquiriu outros contornos e espalhou-se a crença de que ele iria mudar o estado de coisas vigente, pois ele próprio era a prova viva de que a luta incessante poderia levar os seus protagonistas a bom porto. Ele simbolizava a vitória dos mais fracos, dos marginalizados que agora tinham nele (e no seu partido, obviamente) um representante que lhes dava voz.
Porém, o escândalo do “Mensalão” – amplamente divulgado e debatido em Portugal – abalou fortemente as estruturas do governo, deitando por terra a esperança nele depositada não só pela população em geral, mas também pelos mais reputados intelectuais e pensadores da cultura brasileira.
Além das polémicas que rebentaram, o facto de Lula não ter comparecido no último debate televisivo foi altamente penalizador e representou, sem dúvida, a gota de água.
Lula encetou um combate acérrimo à pobreza no Brasil – justiça lhe seja feita - e os índices baixaram drasticamente.
No entanto, o Brasil continua à mercê da corrupção das classes dirigentes, a par de um sentido de ingovernabilidade que parece, infelizmente, perpetuar-se.
Foto retirada daqui

quinta-feira, setembro 28, 2006

Translating kills

Ontem estava eu a fazer um dos meus zappings improváveis (com este tempo, só me apetece ficar em casa, perdida em pensamentos a tentar traçar rumos para que as coisas façam sentido), quando deparo com um documentário/debate sobre os versículos de toda a discórdia: Os Versículos Satânicos de Salman Rushdie que, à luz dos tempos actuais, seria quase um livro-suicida.
Foi em 1993 que rebentou este caso bombástico e, a avaliar pelas imagens quase rarefeitas, em que se vê um ayatollah Komeini todo viçoso e um Rushdie completamente desgrenhado, e apanhado numa teia de fúria demagógica, parece já há uma eternidade.
Porém, tendo como exemplo a recente polémica das caricaturas de Maomé, os fundamentalismos exacerbados não esmoreceram. Muito pelo contrário, parecem ganhar um renovado fôlego, asfixiando por completo o princípio da liberdade de expressão.
Nesse documentário, o qual intercalava com um debate que contava com a presença do líder da comunidade islâmica portuguesa e de um especialista em História das Religiões, abordou-se a figura do tradutor e, neste caso concreto, dos tradutores de Rushdie pelo mundo fora.
Há dois cenários possíveis: ou não se fala dos tradutores sequer ou quando se fala, é sempre numa óptica extremamente negativa. (o eterno discurso do tradutor/traidor e da impossibilidade de tradução, da perda irreparável em tradução, etc., etc.)
No entanto, neste documentário, o ardiloso ofício da tradução aparecia envolto em contornos mais letais. O tradutor norueguês dos Versículos Satânicos tinha sido alvejado, o tradutor italiano esfaqueado e o tradutor japonês acabara mesmo por perecer às mãos de um louco que se sentia lesado pela obra de Rushdie.
Afinal, a tradução, além de ser completamente votada à total indiferença (só quem nunca traduziu é que não sabe que podemos andar semanas a fio a tentar encontrar a tradução perfeita (?) de apenas uma palavra que nos parece tão óbvia, mas…), de ser mal paga (sempre tarde e a más horas, quando o é), pode ser uma profissão de risco!
Devia desistir do meu sonho ou resistir e construir um bunker?...

domingo, setembro 24, 2006

Medeia ou a tragédia revisitada


A nova temporada do Teatro Viriato abriu com a peça “Medeia”, resultante de uma parceria entre a Companhia Paulo Ribeiro e o Chapitô, numa iluminada encenação de John Mowat.
É surpreendente e ao mesmo tempo desarmante o tremendo poder dos grandes clássicos gregos e a sua actualidade, abrindo-se também a novas e renovadas leituras.
A tragédia original “Medeia” da autoria de Eurípedes centra-se na temática do ciúme obsessivo e do germe da destruição que nele habita. Por ciúme de Jasão, que lhe fora infiel, a terrífica Medeia assassina os próprios filhos, perpetrando esse crime horrendo que selou uma vingança alucinada.
Todos os elementos da tragédia de Eurípedes são evocados nesta “Medeia” revisitada, no entanto o tom cómico sobrepõe-se ao trágico, embora o cómico seja a forma mais refinada de trágico. O riso é uma constante nesta peça, o que atenua a verdade sangrenta do enredo da tragédia.
Com escassos adereços em palco, os quatro brilhantes protagonistas – Leonor Keil, Marta Cerqueira, Jorge Cruz e José Carlos Garcia - recriam o ambiente dessa Grécia antiga, ouvindo-se sonoridades contemporâneas e o Rei Egeu a falar sobre o seu “apartamento na zona histórica de Atenas”! Com quatro tábuas apenas se reconstrói um navio que ruma a Cólquida, numa missão "quase impossível" de obtenção do Velo de Ouro.
Esta peça tem uma forte componente física, denotando-se o primado do corpo sobre a palavra e das suas múltiplas possibilidades. Os diálogos são consistentes e o encadeamento genial.
Esta Medeia revisitada é um apelo à imaginação e à reflexão que se prolonga para além do riso.

sexta-feira, setembro 22, 2006

200.000 (duzentos mil)?

Ontem foi amplamente divulgada nos meios de comunicação social a iniciativa de um conjunto de empresários portugueses, designada “Compromisso Portugal”, que avançaram uma série de medidas que visam o relançamento da economia portuguesa e do aumento da competitividade no panorama europeu.
De entre as propostas, ressalta uma que é manifestamente polémica e que consiste, nada mais nada menos, do que no despedimento de 200.000 mil funcionários públicos! O número é, de facto, colossal, e mais assustador é o desprendimento com que se faz esta proposta. Tratando as pessoas com a fria lógica dos números. Como se fossem meros dígitos, desprovidos de vida, de corpo, de alma.
Não pretendo discutir da viabilidade ou inviabilidade desta assustadora medida, pois não tenho os conhecimentos económicos que me permitam fundamentar uma posição nesta matéria. Fiquei apenas revoltada com essa cifra aterradora e com a possibilidade de se poderem vir a concretizar os cenários mais negros, em termos de desemprego. E todos temos direito à indignação. E a lançar questões. Afinal, de que tonalidades se fará o futuro?

terça-feira, setembro 19, 2006

I have a dream


"O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente souber sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro." (Fala de Tuhair)
Excerto da obra de Mia Couto Terra Sonâmbula

As grandes verdades da vida fazem-se ecoar através de palavras simples que, de tão breves, nos desarmam sem dó nem piedade. Iluminam-nos com as certezas que já temos à partida, mas que teimavam em não se soltar da boca. Podemos brincar com as palavras, revirá-las, remexê-las, virá-las de pernas para o ar e até acreditar que conseguimos dominá-las com mestria, mas haverá sempre frases como estas: que ao serem ditas nos envolvem numa terna magia que nos apazigua.

sábado, setembro 16, 2006

Eu também vou!

No dia 31 de Outubro, no Coliseu do Porto! Já estou em contagem decrescente!...
Chico Buarque já não vinha a Portugal desde os anos 80!!

sexta-feira, setembro 15, 2006

Undo

Deve ser por passar horas infindáveis à frente do computador que, por vezes, dou por mim a pensar o que seria se, na vida, tivéssemos um botão de “Undo”? Se pudéssemos voltar atrás, desdizer, desfazer tudo aquilo que não queríamos de todo dizer nem fazer. Ou se pudéssemos fazer “Delete” e apagar todos os erros ou aquelas frases despropositadas que dissemos e que usámos como arma cruel de arremesso. Se pudéssemos formatar a nossa vida, como fazemos no Word, em que aparece o alinhamento do corpo do texto devidamente justificado sem elementos dissonantes.
Talvez fosse demasiado harmonioso, ao ponto de se tornar insuportável.
Talvez haja alguma magia indecifrável no facto de termos de viver com as coisas que não podemos apagar…

quarta-feira, setembro 13, 2006

Geração enrascada

Já é célebre o epíteto que a geração mais nova recebeu nos idos dos anos 90, a denominada “geração rasca”.
Este nome sempre me provocou náuseas porque, além do tom ofensivo que a envolve, é demasiado simplista, demasiado contundente.
Creio, sim, que a nossa geração – daqueles que hoje estão perto ou na faixa dos 30 anos – é a geração enrascada que gostaria de se desenrascar para fazer face ao seu maior adversário: o desemprego.
O cenário é, de facto, desolador e as perspectivas não são particularmente animadoras. Já muita tinta correu sobre esta matéria, mas é revoltante constatar que há um autêntico exército de desiludidos que, ou não está integrado na força laboral activa, ou tem a sorte de estar a trabalhar, mas raramente na sua área de formação.
Não há quaisquer limites para a exploração a que se assiste hoje em dia, em que pessoal qualificado com licenciaturas, pós-graduações, mestrados, etc., tem de aceitar as regras da precariedade, auferindo salários medíocres e sentido na pele a frustração de não poderem dar asas aos seus projectos primordiais.
Não sou nada partidária da ideia de que deveria haver menos licenciados, pois o substrato do progresso de um país faz-se de matéria-prima qualificada, como se pode verificar nos países mais avançados da Europa. O investimento deveria concentrar-se na criação de emprego e, consequentemente, de riqueza.
Os raros casos de sucesso que se conhecem advêm da sorte de conhecer a pessoa certa no lugar certo – o terno Factor Cunha português – ou de arriscar num projecto individual, por sua própria conta e risco, mas para este último se concretizar é preciso suporte financeiro e para que este exista, é necessário trabalhar e por daí em diante… O incontornável círculo vicioso que adensa ainda mais este puzzle sem solução aparente.
Hoje sei que estou a trabalhar, mas amanhã?
Para esta geração enrascada, já não há promessas de “amanhãs que cantam”.
Cada vez concordo mais com a brilhante frase de José Cardoso Pires: “Portugal não é um país, é um sítio mal frequentado.”

Há dias em que gostaria de ter nascido em Helsínquia...

segunda-feira, setembro 11, 2006

Há 5 anos...

Há uma pergunta que já se tornou um clássico nacional: "Onde estava no 25 de Abril?" e outra que lhe segue no encalço: "Onde estava no 11 de Setembro?".
Já passaram 5 anos desde a tragédia aterradora que marcou irreversivelmente o início do séc. XXI. A partir desse dia terrífico, a ameaça terrorista disseminou-se e a sensação de insegurança generalizou-se à escala global. Como se não houvesse um único ponto no planeta em que se pudesse estar a salvo e imune a esse espectro mortal.
Por acaso, ontem vi um filme de Andrew Niccol (um realizador que desconhecia) intitulado "O Senhor da Guerra" com Nicolas Cage no papel principal, acompanhado de um Ethan Hawke à altura. O filme traça o percurso de um traficante de armas que, munido da sua principal arma, a desarmante ironia, contruiu um verdadeiro império baseado na morte indiscriminada e no cultivo da guerra. Há pormenores muito interessantes, senão mesmo artísticos, ao nível da fotografia. O argumento é de uma densidade tremenda, com excelentes diálogos.
(Desde "Leaving Las Vegas" que retrata o romance improvável de um alcoólico inveterado com uma prostituta, brilhantemente interpretada por Elisabeth Shue, que não assitia a uma representação tão soberba de Nicolas Cage!)
Há, de facto, uma indústria de armamento que sobrevive à custa dos conflitos bélicos que se repetem pelo planeta e que os alimenta despudoradamente. É em África que o triste cenário belicista assume contornos mais brutais e impressionantes.
Tal como no 11 de Setembro, o dia em que os EUA foram atacados no seu próprio solo, são sempre as vítimas inocentes que perecem à mercê de fanatismos religiosos, de "lutas de civilizações" insanas e de extremismos cegos.
Quando é que o Homem irá acordar deste pesadelo e ter a real noção de que a arma está apontada à sua própria cabeça?

Outra coincidência assinalável: Nicolas Cage é o protagonista do novo filme de Oliver Stone, "World Trade Center".

sexta-feira, setembro 08, 2006

(Re)encontros

O dia em reencontramos velhos amigos é sempre envolto de um grande frenesim, muito semelhante àquele que sentíamos em pequenos antes de uma viagem, em que mal conseguíamos pregar olho durante a noite.
Em criança, pensava que o mundo parava nos sítios onde eu não estivesse. É uma boa dose de narcisismo e de sentimento egocêntrico, bem sei, ainda por cima numa fase tão precoce da vida, mas como diz o velho ditado: “é de pequenino…”. Acreditava mesmo que as pessoas ficavam suspensas, completamente imóveis, e que só recuperavam as suas vidas normais quando me encontrassem.
No entanto, essa crença patética logo se desfez com a inevitável maturidade. Apercebo-me, assim, de que as vidas das pessoas que integram o meu universo de afectos mudaram e muito, tal como a minha, obviamente, pois não me limito a ser um observador distante que recolhe dados para elaborar um qualquer estudo científico. Ainda que o tempo corra, cada vez mais célere, a veracidade dos laços perdura e intensifica-se. Mesmo que se abata uma cortina de silêncio, mesmo que se passem meses a fio, mesmo que o telefone não toque.
É tão bom quando, em vez da voz das pessoas amigas, as temos em carne e osso à nossa frente, prontos para uma noite de conversa interminável, em que começamos muito compostinhos e, no final, já o rímel caiu para o queixo e começam-se a fazer sentir os efeitos daquela garrafa de Monte Velho.
Com os anos (e já são 28!), aprendi a respeitar o silêncio e a não exigir demasiado e, sobretudo, a valorizar os efémeros, porém intensos, momentos de felicidade e de partilha. Porque o mundo segue o seu rumo e não fica imobilizado.
Adoro quando o silêncio se quebra e só se ouve o riso. E o casamento de uma grande amiga é um bom mote, sem dúvida.

“A amizade é o amor sem asas.” Lord Byron

segunda-feira, setembro 04, 2006

... e do mar, o Adriático

Saudades da Croácia - Split

Need to focus


Devia estar a fazer um trabalho de tradução, a acelerá-lo freneticamente para poder chegar à meta (e subir ao pódio, naturalmente!) e respirar de alívio, com aquela sensação de dever cumprido, mas também de horror do vazio. Por vezes, adiamos o inadiável por medo que um deserto insuportável se abra perante nós com a crueza de um único cenário possível.
Estou a dramatizar, certamente. Mas às segundas, tudo é possível, creio. Porque é que a vida não é uma eterna sexta-feira de entusiasmo estonteante e infantilóide? No sábado, já começa a curva decrescente e no domingo, entra-se em depressão profunda...
Espreito para dentro de mim e vou deambulando, errante, pelos compartimentos labirínticos do meu ser. Há dias em que encontro todas as respostas que já sei de antemão, outros dias fico perplexa com as perguntas a que não sei, nem quero dar resposta. Aprisionada nos meus próprios paradoxos que insisto em cultivar. O que seria a existência sem antagonismos? Um horizonte de tédio e banalidade.
Por entre o nevoeiro da indefinição, há verdades que se avistam.

quinta-feira, agosto 31, 2006

To zap or not to zap, that is the question

O panorama dos media portugueses é, sem dúvida, confrangedor, o que não constitui propriamente novidade. Este facto tem vindo a agudizar-se a um ritmo alarmante.
É certo que durante a designada silly season, não há, por norma, acontecimentos de especial destaque, no entanto os meios de comunicação social (leia-se as televisões portuguesas, à excepção da SIC Notícias, que se pode dar ao luxo de transmitir informação de qualidade a qualquer horário, com excelentes comentadores e opinion makers, sem se submeter às Floribellas e afins deste mundo) acentuam ainda mais esta tendência que já se tornou regra nos meses de Verão. É um pouco aquela lógica do “pão e circo”, como se na época estival se tivesse de poupar a populaça de fazer uso dos seus neurónios.
Há sempre um repórter a fazer cobertura do que não interessa e a pedir a opinião do Tio Joaquim e da Tia Alzira, com os sobrinhos e os netos a saltitar em frente à câmara, por vezes munidos de cartazes e cujos contributos são, de facto, determinantes para a nossa percepção do mundo. Nunca a máxima orwelliana “Big Brother is watching you” foi tão verdadeira e actual.
Quando nos sentamos às oito para ver o telejornal, depois de um dia de trabalho (por incrível que pareça, também se trabalha em Agosto!), desfila perante os nossos olhos, ávidos de notícias interessantes, de reportagens com conteúdo e alguma densidade, o triste cenário das lides futebolísticas (ainda não percebi o que se passou no arranque da liga, nem quero!), das notícias de faca e alguidar e de tudo o que seja particularmente trivial e despojado de interesse.
Só perto das nove da noite é que começam as notícias que deveriam figurar em primeiro lugar no encadeamento lógico. No entanto, a ordem natural das coisas é sempre diferente entre nós. Um país que se preocupa mais com as trocas e baldrocas do universo do futebol do que com os acontecimentos políticos mundiais está irreversivelmente condenado. Devíamos concentrar mais o nosso olhar no Irão do que na Carrapateira de Cima.

(O Tio Joaquim e a Tia Alzira que me perdoem!...)

quarta-feira, agosto 30, 2006

Ainda o aniversário…
















Gosto que me liguem à meia-noite em ponto, mas também gosto de receber telefonemas no dia imediatamente a seguir, como se o carinho de todas essas pessoas amigas que se esquecem – errare humanum est – me provasse que os gestos de amizade não se esgotam no dia do nosso nascimento.
No dia a seguir, experiencia-se uma estranha ressaca. De repente, o telefone já não toca e temos mesmo de nos render à evidência de que estamos mais velhos. Rien a faire
O silêncio do dia seguinte contrasta brutalmente com as conversas infindáveis do dia anterior, em que se tenta concentrar em meia hora meio ano de acontecimentos, o que é um feito heróico, sem dúvida. O tempo passa, mas fica a certeza de que há elos inquebrantáveis.
A todos os meus amigos que viveram comigo o meu dia de anos, em presença ou à distância, e que o tornaram especial, um forte agradecimento! Aquele abraço!

P.S. É mais fácil memorizarmos os aniversários que coincidem com feriados ou datas importantes. O meu, de facto, não é bafejado por essa feliz coincidência. É o dia de anos do Michael Jackson - 29/08. Será que isso ajuda? É que eu gosto mesmo que me liguem!... :)

segunda-feira, agosto 28, 2006

Happy Birthday to me!

Há uma aura profundamente estranha que envolve o dia de anos, com a irreversibilidade das coisas que tomamos como certas na vida. E essa dita aura de estranheza acentua-se com o passar dos anos.
Sempre adorei fazer anos - quanto mais não fosse pela certeza de estar viva! - e, nesse dia único, concentrar sobre mim todas as atenções, os afectos, os gestos de carinho que gostaria que se perpetuassem ad eternum, sem que para tal fosse necessário o perfeito alibi do aniversário.
Na infância e na adolescência, ou até mesmo quando se passa a etapa da maioridade, sentimos a suave doçura do tempo que é totalmente complacente connosco. Afinal, ainda somos tão novos e há todo um horizonte de expectativas e de projectos múltiplos que se nos abre. Sem pressões, sem pressas, pois o Tempo é mais que infinito.
Porém, quando nos aproximamos dos 30 (como é o meu caso, que este ano faço 28!!), apercebemo-nos de que esse horizonte se vai confinando cada vez mais e de que, para nossa surpresa!, há imensas pessoas mais novas que nós! Além dessa consciência cruel, vemo-nos aprisionados numa doce teia de saudosismo que nos leva a desejar beber leite com Cola Cao, comer pão com a inesquecível Nutella ou com Queru, enquanto assistimos a mais um episódio do Fame ou do Modelo e Detective e, no final da noite, adormecemos ao som das Dunas dos GNR.
O grande paradoxo é querer celebrar o aniversário e, por outro lado, recusar-me a aceitar o facto de que, à medida que vou envelhecendo, me sinto cada vez mais infantil. Dentro de mim, ainda vive uma miúda que delira com os telefonemas à meia-noite em ponto, com o frenesim dos presentes e os disparates que se dizem nas jantaradas de anos.
Porém, são os paradoxos que fazem a vida interessante e lhe conferem tonalidades várias. O preto e branco é demasiado monótono e só resulta nas fotografias.
Um questão para finalizar esta melancólica dissertação: quando fizer 30, deverei refugiar-me num bunker ou celebrar freneticamente?...

sexta-feira, agosto 18, 2006

Será a normalidade normal?

A questão do ser ou não normal sempre me fascinou. O conceito de normal aplica-se a uma infinidade de situações: a família normal, a vida normal, uma atitude normal, uma relação normal, um comportamento normal, etc., etc. No fundo, a suposta normalidade concentra em si o seu quê de ditatorial. Se nos incluirmos no círculo dos ditos “normais” e se adoptarmos essa mesma postura, normal, ditada pela sociedade, ao longo da vida, estamos sempre imunes a toda e qualquer hecatombe que sobre nós se abata.
Em teoria, parece uma equação de simples resolução, mas é só mesmo nesse plano. A realidade é bem diferente, porque plural e multifacetada. Porque nem sempre 1 + 1 = 2.
Comecemos pela questão da família. O normal é, de facto, que uma família, strictu sensu, seja constituída pelo núcleo pai, mãe e filhos. Todos os cenários que não integrem estes elementos estão desesperadamente votados ao inevitável sentimento de estranheza por parte do observador externo. Como é possível que haja famílias em que o pai é um tio ou um avô? Em que se desfaz por completo a célebre (e igualmente questionável) tese dos “laços de sangue” (não resisto a uma gargalhada, perdoem-me!), vencendo, por sua vez, a tese dos laços de afecto, esses sim verdadeiramente determinantes para o são desenvolvimento do indivíduo. O papel paternal não se confina apenas ao encontro feliz de um espermatozóide com um óvulo, extravasando a mera biologia e assumindo-se como uma ocupação a tempo inteiro que exige um empenho e uma entrega permanentes.
Creio que as pessoas que nascem no seio de famílias “alternativas”, que escapam por completo ao modelo convencional, cedo desenvolvem um agudo sentido de identidade. A consciência de pertencerem a um universo diferente, que se faz de outras tonalidades e de outros protagonistas, desperta nelas (por vezes, muito precocemente) a urgência da acção, a par de um apurado sentido de sobrevivência. Porque é muito difícil (sobre)viver numa sociedade que se arvora em acérrima guardiã da bendita normalidade!
O que será uma vida normal? Provavelmente, uma vida previsível, completamente dominada pelo peso asfixiante rotina, em que acordamos às oito, vamos para o trabalho (que começa às nove), almoçamos da uma às duas, vamos novamente para o trabalho (até horário a anunciar), regressamos a casa, vemos as banalidades que nos impingem na televisão e as notícias alarmistas, jantamos e vamos para a cama. E no dia seguinte, tudo se repete. Somos Sísifo a carregar todos os dias o seu rochedo até ao cume da montanha. O único momento de libertação é mesmo esse, aquele em que atinge o cimo da montanha, apesar de saber que vai ter de fazer o percurso inverso. Invariavelmente. O nosso único momento de libertação é, eventualmente, ao fim-de-semana ou nas férias. Sabemos que tudo recomeçará.
Não será a vida de um actor, de um artista, de um escritor muito mais "normal"? Porque livre.
Quem serão, afinal, os normais?

Como ser eu mesma sem o ser?


É estranho ouvir o som da minha voz e não a reconhecer das demais
É estranho sentir a fragilidade das coisas
É estranho ser estrangeira de mim mesma
É estranho estranhar-me
É estranho viver na obsessão de ser feliz
É estranho o sorriso
É estranho regressar
É estranho sentir o peso da rotina inescapável
É estranho fugir da rotina
É estranho nunca ver a minha cara senão ao espelho
É estranho sonhar em Alemão
É estranho sentir-me em casa num espaço estranho
É estranho rever as séries que adorava na adolescência
É estranho fazer as mesmas piadas de sempre e não deixar de rir
É estranho ver em Tecnicolor
É estranho envelhecer e sentir-me cada vez mais nova
É estranho que os paradoxos sejam a resposta para tudo
É estranho que uma coisa seja verdade e o seu oposto também
É estranho que chova em Agosto


É estranho que as reticências consigam dizer o indizível

segunda-feira, agosto 14, 2006

Começar de novo

Não é apenas um título celebrizado pelo músico brasileiro Ivan Lins, mas também o mote dos milhares e milhares de pessoas que, no Líbano, regressam às suas aldeias e cidades, aos seus lares, provavelmente destruídos pela força cega da guerra, conduzidos pela obstinação de recomeçar.
Não querendo parecer parcial ou apologista de somente um dos lados desta contenda sangrenta, é basicamente impossível ficar indiferente a essas comoventes movimentações humanas que, após o tão almejado cessar-fogo da ONU, fazem o percurso de volta às suas raízes.
É deveras impressionante ver as filas de carros que se atropelam, empoeirados e decrépitos, para rumar ao ponto de partida. Os sobreviventes embarcam numa espécie de esperança desesperada de reconstruir as suas vidas e de resgatar o que ainda resta delas. Semelhante fenómeno também se constatou, por exemplo, ainda durante a guerra, em que as pessoas se recusavam a abandonar as suas casas e continuavam a vida "normal". Nas inúmeras reportagens que se fizeram, as roupas permaneciam penduradas nos estendais, o que constitui, sem sombra de dúvida, uma imagem desarmante, bem como um sinal óbvio de que o ser humano, em situações-limite, pode adoptar os comportamentos mais improváveis.
Todas as guerras são insanas e brutais, daí que nestas questão tão intrincada como é a guerra, se deva procurar encontrar o trilho da paz, não enveredando por uma visão ou postura ideológica facciosa e unilateral, que contemple as razões de apenas um lado. A dualidade Bem vs. Mal também se afigura extremamente redutora, senão mesmo ridícula, com laivos quase infantis. Há que concentrar todos os esforços na via negocial e diplomática, pois do confronto bélico nada de benéfico provém, apenas sangue e lágrimas infinitas.
A comunidade internacional, a ONU e as grandes potências mundiais têm de se empenhar com afinco e determinação no sentido de, em primeiro lugar, ajudar os sobreviventes e garantir o eficaz processo de reconstrução (esse tão desejado "começar de novo") e de lutar contra grupos terroristas que, como se viu neste caso específico do Líbano, semeiam a guerra, o fanatismo e o extremismo, comprometendo a segurança de países que, afinal, poderiam servir de interlocutores neste interminável conflito do Médio Oriente.

Começar de novo (Ivan Lins)
Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Ter me rebelado, ter me debatido
Ter me machucado, ter sobrevivido
Ter virado a mesa, ter me conhecido
Ter virado o barco, ter me socorrido
A imagem foi retirada do Frankfurter Allgemeine Zeitung.

sexta-feira, agosto 11, 2006

No man's land (pure fiction?)

Ainda ontem me sentei naquela esplanada e bebi um refresco sob o sol tórrido que, por tradição, se espraia sobre este ponto instável do planeta. Instável não me parece um bom adjectivo, porém. É demasiado eufemístico, fica terrivelmente aquém da realidade nua e crua.
(Há pessoas que se podem dar ao luxo de fazer planos, de ir de férias e calcorrear o mundo inteiro sem sentirem pender sobre si a ameaça de que, ao regressar, já nada restará…)
Foi ontem que me sentei ali. Ou seria mais adiante? Já perdi por completo a noção do espaço e do tempo. Ontem equivale a um passado longínquo, a uma eternidade que se abate sobre nós com uma crueldade insuportável.
De um momento para o outro, como se fossemos embrenhados num pesadelo de dimensões aterradoras, vemos como tudo se desfaz em pó e se esboroa sem remédio.
Mais à frente, havia imensas esplanadas como aquela em que estive ontem (ou há cem anos, pouco importa), recheadas de pessoas sorridentes, bronzeadas ou estupidamente vermelhas (como é o caso do turista típico endinheirado do Ocidente) que se deixavam enlear na doce lentidão do tempo. Não havia amanhã, apenas uma extensão indefinível do tempo.
Estou sozinho nesta rua. Será mesmo uma rua? É uma designação demasiado convencional que não cabe neste mundo absurdo em que mergulhámos. Já todos partiram entretanto, em carros sobrelotados, no desespero de meter toda uma vida numa exígua mala de automóvel. Rumam a parte incerta, não mais incerta do que o rumo das suas frágeis existências, condenados a uma pena de absurdo perpétuo. O amanhã será sempre um horizonte improvável.
Vou pisando os destroços que se multiplicam por toda a parte e, por mais inconcebível que pareça, lembro-me do poema The Waste Land de T.S. Eliot e de uma passagem em concreto:

He who was living is now dead
We who are living are now dying

Estamos condenados a viver uma morte antecipada e a viver uma vida que não passa de um ritual de sobrevivência.
Queria tanto ir a um concerto ou a uma tertúlia e recuperar essa ideia de normalidade. Em vez do estrondo avassalador dos mísseis, preferia um concerto de jazz e as gargalhadas dos meus amigos. Já não ouço uma gargalhada há tanto tempo. Há eternidades e, no fundo, ainda ontem me sentei aqui nesta esplanada e acreditava que o meu destino podia ser simplesmente normal…

A luz ao fundo do túnel

A place called paradise...

sábado, julho 29, 2006

Férias ou da (difícil) arte de não fazer nada


Enfim, férias! Não é, certamente, um pensamento original, mas nesta altura do ano, com o cansaço acumulado do quotidiano a escorrer pelos poros, este é uma espécie de grito do Ipiranga. E o mar o único horizonte...
Uma coisa que me surpreende bastante, na época estival, é a obsessão dos media em fazer listas de potenciais obras a ler na praia. Como só se lesse no Verão e todas as outras estações fossem um autêntico deserto de ignorância e de estupidificação. Quem ama as palavras, ama-as sempre e não está dependente das intempéries (ou não) ou do facto do sol brilhar com maior ou menor intensidade.
É muito difícil entregarmo-nos à complexa arte de não fazer nada, que é geralmente a meta que se estabelece nas férias, pois a tentação de estar sempre a fazer qualquer coisa é quase inescapável. Nos tempos frenéticos em que vivemos - em que se exige às pessoas que se excedam e que sejam altamente produtivas, cumprindo uma série infindável de tarefas ao mesmo tempo e que, de preferência, não almocem nem jantem - sente-se uma pressão inconsciente no sentido de criar qualquer coisa.
Por vezes, a paragem ou o abrandamento do stress quotidiano pode ser altamente deprimente. Na vertigem dos afazeres profissionais, o indivíduo tende a esquecer-se de si próprio e de se anular por completo em função dos "objectivos" que lhe são impostos. Quando há, efectivamente, tempo para parar e pensar e reflectir sobre o rumo da vida, ou simplesmente sobre os contornos que esta assume, podemos chegar a conclusões preocupantes. Por isso é que há pessoas que se recusam a tirar férias durante anos a fio. O trabalho assume-se como o destino escolhido (pouco paradisíaco, convenhamos!), a fuga de eleição.
As férias, apesar de geralmente serem sinónimo de evasão, podem revelar-se uma oportunidade única de nos conhecermos melhor e de traçarmos as nossas próprias metas pessoais, essas sim decisivas para o bem-estar emocional e para o reforçar de defesas.
Gosto de, no silêncio das ondas, ouvir a minha voz interior...

quinta-feira, julho 27, 2006

Ele é Carioca


Chico Buarque está de volta com um álbum de originais, depois de 8 anos. A velha máxima que geralmente se aplica ao (também) inconfundível Vinho do Porto - "melhora com a idade" - assenta-lhe na perfeição! Nada em Chico Buarque é redundante ou cinzento.
"Carioca" é mais uma obra-prima deste poeta grande da língua portuguesa que derrama para as suas letras torrentes de magia e de uma sensibilidade imensa. A essência da poesia de Chico Buarque reside na consciência da língua como material lúdico, que se pode manusear, atirar ao ar e reconstruir sem cessar.
As palavras de Chico vão ao âmago de nós mesmos e surpreendem-nos sempre. Ouvimos as suas músicas com o espanto iniciático da primeira vez. A juntar ao poder avassalador da poesia, uma voz quente e terna, ligeiramente nasalada, que acaricia e embala.
Há uma edição especial à venda que, para além do CD, inclui um DVD com as gravações deste novo álbum. É muito interessante testemunhar o processo criativo em que os músicos, de carne e osso como nós, e não uns quaisquer deuses inatingíveis, são filmados no seu "habitat natural".
Ele é carioca e todos nós um pouco, depois de ouvir este álbum...

Deixo aqui poesia pura:

Sempre
Eu te contemplava sempre
Feito um gato aos pés da dona
Mesmo em sonho estive atento
Para poder lembrar-te sempre
Como olhando o firmamento
Vejo estrelas que já foram
Noite afora para sempre
O teu corpo em movimento
Os teus lábios em flagrante
O teu riso e teu silêncio
Serão meus ainda e sempre
Dura a vida alguns instantes
Porém mais do que bastantes
Quando cada instante é sempre
Chico Buarque/2006

quarta-feira, julho 26, 2006

J'aime/ Je n'aime pas...


Gosto...
de sentir o cheiro da terra molhada
de sorrir
de enterrar os pés na areia
de ouvir o vento furioso
de despertar sorrisos
de ouvir bossa nova vezes sem fim
de me surpreender com os poemas que conheço de cor
de me deitar e sentir o peso do corpo a desvanecer-se aos poucos
de sentir a textura do algodão doce
de múltiplas cores
de partir
de enterrar os saltos na relva
de boiar
de adereços excessivos
de andar de avião
de fazer as malas
de planear
de constantes contradições
de Teatro
de ver filmes até à exaustão ao ponto de decorar as falas
de chuva lá fora
de texturas suaves
de voltar aos sítios onde fui feliz
de ceder à tentação

Não gosto...
de ficar
de indiferença
de esferovite
de falta de modéstia
de palavras ocas
de confrontos
do pontual barulho estridente do giz no quadro
de passar debaixo de gruas ou de escadas
de superstições
de répteis
de me confrontar com os meus medos
de perder as pessoas de quem gosto
de sentir saudades
da irreversibilidade
de cinzentismo
de conversas banais
de rotina

quinta-feira, julho 20, 2006

Encontros e Despedidas


O tempo passa e as pessoas vão-se afastando aos poucos, tentando, todavia, não provocar uma ferida muito óbvia. Com a discrição que se impõe. As vidas seguem rumos diferentes, como se tornou hábito dizer, e nós fingimos acreditar nessa irrevogável premissa. É mais simples mentir a nós próprios do que dar de caras com a verdade. E, por vezes, as pessoas afastam-se mesmo. As memórias que outrora carregavam no regaço perdem-se pelo caminho, esvaem-se, transformam-se nem sei bem em quê.
A distância geográfica não passa de uma desculpa confortável. E as pessoas vão-se fechando cada vez mais no seu casulo, sobre si mesmas, isoladas do mundo envolvente. É a solidão dos tempos modernos. Para a debelar, as pessoas consomem com frenesim ou então enviam sms, porque falar está mesmo fora de questão. É demasiado íntimo, vincula-nos a um grau insuportável. Trocam-se palavras de ocasião, tenta-se fazer um resumo dos acontecimentos principais (por vezes, não há nada de estrondoso para se contar, mas mesmo assim tentamos usar todo o nosso poder criativo). Todos somos estrangeiros perante os outros e nós mesmos
também.
Sinto infinitas saudades desses tempos em que achávamos que as relações eram eternas e os laços inquebrantáveis, em que não precisávamos de telemóveis, em que dávamos um abraço profundo e sentíamos o calor do outro, a sua humanidade. Hoje em dia, tudo é fugaz, virtual, feito de evasões sucessivas.
E tudo isto porque lá fora se ouvem os risos límpidos das crianças a brincar, numa inocência iniciática da qual já não restam quaisquer vestígios.
… Apesar de cá dentro de mim, numa daquelas salinhas recônditas, lá no fundinho de mim, continuar a pular, a rir, a brincar e a dar as mãos a todos os meus amigos que viverão sempre em mim, nessa salinha longínqua …

A minha pátria é a minha língua

O idioma português é falado por 250 milhões de pessoas, figurando em quinto lugar na lista dos idiomas mais falados em todo o mundo.

Nesse sentido, é urgente que a língua portuguesa se torne um dos idiomas oficiais da ONU, dada a sua inegável importância à escala mundial.

Dê o seu contributo e assine a petição que visa o reconhecimento oficial do Português. É com pequenos mas significativos passos que se vai trilhando o percurso da defesa e valorização da nossa língua. Para que se possa ouvir a voz da lusofonia!

Clique aqui para assinar a Petição

terça-feira, julho 18, 2006

O apelo da diferença

Em Portugal, é cada vez maior o número de pessoas que está a aprender mandarim (erroneamente designado chinês), a língua mais falada no mundo.
Uns são movidos pelo apelo da diferença e outros por questões de ordem pragmática, uma vez que a China se está a afirmar na cena internacional como a próxima grande potência económica e há, logicamente, todo um mundo de oportunidades de negócio que se abre a quem "domine" o mandarim.
Daí ser tão decisivo tentar (reforço o verbo) aprender este idioma tão peculiar constituído por caracteres ideográficos, isto é, que expressam ideias e conceitos. Li uma vez que um chinês médio precisava de dominar 500 caracteres para conseguir ler um jornal!
De facto, a China é um lugar distante e essa mesma distância cultural e civilizacional reflecte-se na profunda estranheza que ressalta do idioma chinês, quase intransponível, uma verdadeira cortina insondável. Como se a própria Muralha da China se transpusesse para o território da língua. E bem sabemos que é difícil ser-se Copperfield para a atravessar!...
A sensação que se tem ao vislumbrar os caracteres chineses (ou cirílicos ou árabes) assemelha-se muito àquela que tínhamos, em crianças, quando víamos as legendas dos filmes sem ainda saber ler. É a sensação de puro analfabetismo, o que encerra em si um fascínio indizível...

segunda-feira, julho 17, 2006

(In)solúvel?

É com apreensão que assistimos ao desenrolar dos acontecimentos no Médio Oriente e ao recrudescimento da tensão entre israelitas e libaneses que já se traduziu num elevado número de vítimas de ambos os lados. O crescendo de ataques não auspicia nada de bom.
Não é meu intuito fazer um historial de um conflito já histórico, apenas reflectir sobre a (in)solubilidade do mesmo.
O Médio Oriente parece mesmo condenado a um destino de destruição, de caos e de permanente confronto. Haverá, de facto, solução para a questão israelo-palestiniana? É precisamente esta que se encontra na base de toda a discórdia e de uma tensão mortífera que se estende a toda a região e aos seus povos.
Até se encontrar a tão desejada solução da criação de dois estados autónomos, que coexistam em pleno direito, o sangue irá continuar a correr e a ser derramado. As feridas adensam-se cada vez mais e o sentimento de aversão e de repulsa em relação ao outro – o “ocupado” ou o ”ocupante”, consoante a perspectiva - tornar-se-á basicamente incontrolável. A resolução do problema (é mais do que um problema. Semanticamente, parece quase impossível encontrar um conceito que traduza a avassaladora dimensão desta questão) passa pelo diálogo e não pela retaliação constante.
Na cimeira de paz de Camp David, em 2000, que reuniu o então primeiro-ministro israelita Ehud Barak e Arafat, sob a orientação de Bill Clinton, esteve-se muito perto da paz, de uma solução efectiva. Nunca como então se acreditou na solubilidade do conflito israelo-palestiniano.
A partir daí, agudizaram-se as tensões entre estes povos, trilhando-se um caminho de extremismo que, a avaliar pelos últimos acontecimentos, não augura um final feliz.
As vítimas são sempre as mesmas. Civis inocentes de ambos os lados das trincheiras que não foram bafejados pela sorte de nascer num ponto do planeta pacífico, em que se pode estar tranquilamente em casa a ver televisão sem medo de se ser atingido por mísseis ou em que se pode apanhar um autocarro sem medo que este de desfaça em mil pedaços.
Quando é que o mundo se irá mobilizar por uma solução de paz para o Médio Oriente?
Antes que tudo se desmorone e seja tarde demais. Os rios de sangue que insistem em correr
É preciso um happy end. Urgentemente.

sexta-feira, julho 14, 2006

Eternamente "portunhol"/"portuñol"?


O povo português, apesar da filosofia do "cá se vai andando" e dos irritantes "inhos", tem imenso sentido de humor em relação a si próprio. Por isso é que surgem sites absolutamente hilariantes como o Portugal no seu melhor que sistematiza, por imagens, a comicidade do nosso país.
Das ementas tremendamente mal traduzidas (os percebes numa tradução muito livre tornaram-se "understands"num Inglês que só existe aqui) aos letreiros, das sinalizações incongruentes (postes no meio de cruzamentos!) às reclamações escritas em Português macarrónico de fazer o pobre Camões revirar no seu ancestral túmulo, há todo um mundo de potencial cómico por descobrir. Mas se assim não fosse, não metíamos piada...:)

Post Scriptum - Claro que "typical" estaria correcto...

terça-feira, julho 11, 2006

Rabiscos de cor


Desenhar o percurso. Sempre a cores. De diferentes tonalidades se compõe o quotidiano. Convém doseá-las, saber misturá-las e não incorrer em exageros desnecessários. O belo vive algures entre a harmonia e a contenção. Tudo o que é excessivo conduz à ruptura.

"Est beau ce qui procède d'une nécessité intérieure de l'âme. Est beau ce qui est beau intérieurement. " Kandinsky

segunda-feira, julho 10, 2006

Dans la chaise longue

- Deite-se, por favor!
(Nunca percebi muito bem o porquê de ter de me deitar para falar do passado. Alegam-me que meu corpo é uma via e que através da sua horizontalidade, perpassam os fluxos da regressão e das memórias. Tantas memórias que se tornam quase insuportáveis. Eu finjo que acredito nisso do ter de me deitar. A culpa é do Freud.)
- Pode começar.
(Hoje foi uma daquelas noites em que fui totalmente consumido pela insónia. A minha cabeça era um recipiente a transbordar de pensamentos desconexos, imensos pensamentos ao mesmo tempo à luta entre si, sem piedade. Sempre que isto acontece nunca chego a nenhuma conclusão, nem tão pouco a uma ideia brilhante. Constato apenas o caos que me habita e resigno-me à minha condição de eterno espectador da minha vida. Sei bem a génese de tudo isto. Desde que o perdi, desde que deixou de habitar o reino dos vivos. Tenho saudades daquelas nossas conversas interessantes, dos jogos de futebol que víamos em conjunto, das tardes a repassar toda a matéria de História e da 2ª Grande Guerra. Ela diz-me que tenho de “trabalhar interiormente” a tua perda. Tretas insanas. Por mais que tente encontrar um sentido, jamais terei sucesso nessa empreitada. É um caso perdido, é uma das grandes perguntas que nunca terão resposta, que nunca ninguém conseguiu responder, nem mesmo os grandes pensadores e filósofos. Dos Gregos até nós há uma constante de total ignorância acerca das questões fundamentais da condição humana. Ainda ninguém apagou essa inquietação primordial chamada morte. O mesmo se passa com as paixões meteóricas, daquelas que nos enchem a alma e que, de um dia para o outro, nos varrem por completo. Chegam e logo desaparecem. É outra espécie de morte. Essa pessoa desaparece, esfuma-se no ar, etérea e improvável. Talvez nunca tenha existido. E se um dia ela “ressuscitar”? Boa tarde, como estás? Que tens feito? Sim, já soube da novidade! Parabéns. Recuso-me a esse jogo hipócrita! É preferível olhar e seguir caminho. Afinal de contas, os mortos não se passeiam pelas ruas da cidade, segundo consta. Mas nunca me vou esquecer de ti. És sangue do meu sangue e há laços que nunca se quebram. Por mais que me tentem impingir aqueles discursos fatalistas do fim da família. Tretas. Vivemos num mundo de mentiras sucessivas…)
- Não gostaria de…?
- Não, hoje não há nada para dizer. Quero apenas ficar em silêncio. Dans la chaise longue

sexta-feira, julho 07, 2006

That's the spirit!

Do Futebol como metáfora

Tentei evitar este tema a todo o custo, confesso, mas ocorreu-me um aspecto que me pareceu interessante debater.
(Geralmente, as pessoas com interesses intelectuais mais vastos tendem a ter uns certos pruridos em admitir que gostam de futebol. Tinha um Professor na Faculdade de Letras, em Lisboa, que para se defender de qualquer ataque imprevisto, alegava que “até o Ruy Belo gostava de futebol”. Outros apoiam-se no Albert Camus, que, além de existencialista convicto e de teorizar sobre a condição absurda do Homem, não resistia a uma partida entre 22 homens absurdos a correr de um lado para o outro).
Parece óbvio que o sentido nacionalista (na acepção positiva do termo) não se pode esgotar nos jogos da nossa Selecção. No entanto, um evento tão importante como o Mundial de Futebol, acaba por mover e mexer com as emoções ao máximo e de fazer ressaltar o sentido de pertença a uma nação e de união colectiva. Trata-se, em última instância, da identidade nacional e do desejo que nutrimos de esta se afirmar num palco globalizado e de triunfar, se possível.
Mas não foi possível e mais uma vez ficámos aquém da concretização de um sonho. Logo após a fatídica partida com os Gauleses, ouviam-se expressões como “morrer na praia”, “é o nosso fado”, entre outras. Os Portugueses têm uma característica deveras curiosa que consiste em oscilar, despudoradamente, entre uma crença cega na vitória e o mais absoluto derrotismo. Não somos um povo de meios-termos, de facto. Podemos acreditar, em simultâneo, e sem que isso nos cause qualquer problema de consciência, na possibilidade de alcançar o Olimpo e na inevitabilidade de um fim anunciado. Os deuses, infelizmente, não estiveram do nosso lado.
A grande metáfora que se extrai deste sentido de desilusão, mas também de profunda injustiça (a meu ver, Portugal e a Alemanha deviam encontrar-se na final, pois mereciam-no muito mais do que as equipas que efectivamente vão disputar a almejada taça) é a imagem do “quase”. No fundo, aquela ideia de sermos o país do “quase” está inconscientemente cravada em cada Português. Como naquele anúncio do Danoninho (passo a publicidade e o carácter prosaico do exemplo), “falta-nos um bocadinho assim”. Estamos sempre à espera do Messias, desse D. Sebastião que virá por entre as brumas da História, resgatando o sentido de orgulho nacional e de prestígio internacional, num mundo que teima em encarar-nos como uma “província de Espanha”. Pobre D. Afonso Henriques.
Fazendo de novo a ressalva de que o sentido nacionalista não se confina aos resultados da Selecção nacional - pois ter um sistema de saúde, de educação, de justiça e fiscal que, de facto, funcionem são razões muito mais importantes e decisivas do que as lides futebolísticas – creio que temos de nos orgulhar dos feitos históricos desta Selecção e do seu timoneiro. Estamos entre as 4 melhores Selecções do Mundo. Não é prémio de consolação. É um facto incontestável, uma vitória incontornável!
Agora temos de torcer para que Maniche seja considerado o Melhor Jogador do Mundial!
Vejo o jogo que se segue mais como uma partida amigável do que propriamente uma competição acérrima. Afinal, este é o Mundial “to make friends”! Esse, sim, deveria ser o jogo da final…
Vou já ler Ruy Belo para me redimir deste texto!... Ainda por cima longo!...

terça-feira, julho 04, 2006

Boa noite e bons livros
















Tenho esta mania irritante de ler muitos livros ao mesmo tempo e de, no fundo, me ser cada vez mais difícil concentrar num só e lê-lo de fio a pavio.
Andava eu na Fnac de Coimbra (creio que já não tardará muito até que a Fnac chegue à cidade-berço de Viriato...), nas minhas deambulações habituais pela secção de Literatura, eis senão quando me deparei com um romance que, desde logo, me cativou pelo título - Alentejo Blue - sendo da autoria de uma escritora britânica com raízes no Bangladesh, Monica Ali (na foto).
Esta amálgama cultural é, à partida, extremamente cativante, despertando a curiosidade do leitor mais ávido e fervoroso.
Monica Ali foi considerada pela Granta uma das 20 escritoras mais promissoras do Reino Unido, após a publicação do seu primeiro romance Brick Lane.
No entanto, o que mais me atraíu neste romance (que comecei a ler ontem à noite) foi a questão da perspectiva. Como é que somos radiografados por um olhar externo? Tratando-se, sobretudo, de uma autora que vive no cruzamento de duas culturas: a britânica (e ainda com resquícios imperiais e colonizadores) e a cultura do Bangladesh, antiga colónia do Império Britânico.
Na entrevista que deu à revista Actual do Expresso deste sábado, Monica Ali afirma não pertencer a qualquer cultura vigente. Interessa-lhe escrever sobre uma plêiade de temas, não se cingindo ao rótulo redutor do "romance multicultural". Daí ter optado por escrever sobre o Alentejo - para a autora, a personagem principal do romance- . O Alentejo e, em última instância Portugal, é um lugar estranho, diferente, exótico, envolto num contexto sócio-cultural diverso.
Foi, de facto, uma escolha muito inteligente por parte da autora, pois só demonstra um saudável desejo de não ser previsível e de alargar os terrenos temáticos dos seus romances.
Do ponto de vista de um Português, parece muito empolgante ler sobre o nosso país através de um olhar embebido noutras culturas de origem.
Vou devorar este Alentejo pintado em tons de azul!...

segunda-feira, julho 03, 2006

Madrid vista da janela de um táxi

... cujo condutor alegava ter família portuguesa...
(eles gostam mais de nós do que propriamente o inverso, não é?...)
Por supuesto!
Madrid é imponente, majestosa, e ao mesmo tempo acolhedora e familiar, mas ainda assim, a luz de Lisboa...

Madrid por la noche


34 graus em Madrid... à noite...
E por aqui o Verão teima em não aparecer. Intransigente.
Durante a semana, ainda há leves resquícios de calor. Aos fins-de-semana, o céu assume tristonhos matizes cinzentos e lá se esvai uma possibilidade de nos estirarmos na toalha de praia e de sentirmos a areia a escorregar, apaziguadora, entre os pés.

... será conspiração do patronato?...

sábado, julho 01, 2006

Cidadania



























O Teatro Viriato já vem habituando os seus espectadores assíduos a uma programação bastante diversificada, onde várias vozes performativas se cruzam e interagem.
Ontem subiu ao palco - e com o espectáculo, o próprio público - o projecto Cidadania, a partir do texto homónimo de Mark Ravenhill, com encenação de Graham Pulleyn.
Antes de entrar no cerne temático desta peça altamente provocadora (mas não menos realista), parece-me importante destacar que Graham Pulleyn foi o fundador do Teatro Regional da Serra do Montemuro, onde permaneceu durante 12 anos, tornando-se depois encenador de jovens.
A peça Cidadania insere-se num projecto mais amplo denominado Panos, com génese em Inglaterra (Shell Connections do London National Theatre), e que envolve sete escolas do nosso país.
Desiludam-se aqueles que pensam que esta peça é escrita numa linguagem muito densa ou pesada. Cidadania é feita de jovens para jovens e, obviamente, para todos aqueles que se interessem pelo intrincado mundo da adolescência. Neste complexo universo, há uma infinidade de perguntas e um desejo tremendo de respostas, que nem sempre emergem.
Por outro lado, todos os protagonistas da peça - cópia fiel dos jovens reais, porque também eles jovens em demanda, assolados por perguntas sem resposta - são confrontados com a questão crucial da escolha e, sobretudo, com a difícil afirmação da individualidade no contexto de grupo. Os adolescentes, por norma, degladiam-se com o árduo dilema de serem autónomos, sem, no entanto, se demarcarem do grupo que os e se monitoriza, como um verdadeiro juiz implacável. A linha que separa a integração da desintegração é muito ténue.
A nota dominante desta peça é, sem dúvida, o humor e como, através dele, podemos problematizar questões tão importantes como a cidadania e o exercício das escolhas pessoais num contexto social. O uso do calão é constante, numa linguagem fidedigna que, inevitavelmente, desperta a gargalhada (no fundo, aquela sensação quase infantil de nos regozijarmos com as palavras proibidas). Os puffs têm muitos elementos fálicos e as palavras de ordem escritas no chão são percorridas também pelo sexo, a obsessão predilecta de qualquer adolescente.
Os contextos podem divergir de geração para geração. Os jovens de hoje em dia vivem num universo dominado pela tecnologia, pela Internet, pelo ritmo frenético que já é uma realidade nesta geração.
Ainda que a adolescência dos tempos actuais se componha de outros matizes que não os das gerações anteriores, o desejo de transgressão, de experienciar e de descobrir é exactamente o mesmo. E sempre assim foi desde os primórdios da Humanidade. É nesse período que se forma a personalidade e que se traçam as escolhas fundamentais da existência.
Haverá sempre dúvidas, hesitações, avanços, recuos. No fundo, a adolescência nunca deixa de fazer sentir a sua marca. As preocupações assumem outros contornos, mas a urgência da escolha mantém-se. E é dessa matéria-prima que se faz a cidadania.
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