segunda-feira, fevereiro 27, 2006

In Cold Blood

Há algo de indecifravelmente fascinante nos filmes que abordam a vida de escritores. Sempre fui confessa adepta deste tipo de filmes: Iris (uma interpretação soberba de Judi Dench), Rimbaud (prova de que nem só de Titanics vive Leonardo Di Caprio!), The Hours (Uma Nicole Kidman irreconhecível fisicamente, mas inigualável em termos de representação), Before Night Falls (Javier Bardem imparável, como é seu apanágio), enfim a lista parece não ter fim.
Creio que esse interesse incontrolável se prende com a curiosidade de saber com que insondáveis teias se tecem as vidas de seres geniais, superiores na arte da escrita e da palavra e como as experiências influenciaram o rumo da produção literária. Na maior parte, essas vidas são caóticas, extremas e os seus protagonistas vivem permanentemente na corda bamba. O caos é o motor por excelência da criação.
A esse leque, juntou-se o filme Capote que retrata o processo de concepção da obra In Cold Blood, baseada nos brutais assassínios de uma família na pacata aldeia de Holcomb, no Estado do Kansas. Truman Capote ganha corpo e voz (um tom doce e efeminado que agudizou o sentido de marginalidade do escritor) através da interpretação magistral de Philip Seymour Hoffmann (igualmente exímio em Magnolia e Felicidade) que absorveu e interiorizou não só a voz feminina de Capote, mas todos os trejeitos, os tiques, a emotividade à flor da pele. Sem dúvida, a performance de um virtuoso!
O que começou por ser o mote para um mero artigo para a New Yorker tornou-se a matéria-prima do "romance não ficcional" que Capote almejava escrever e com isso, revolucionar o panorama literário norte-americano. Há uma bivalência permanente entre o contacto reiterado com o assassino (relação ambígua que assumiu até contornos de atracção erótica), por um lado, e a vida mundana e boémia de Capote, em que ele era rei e senhor incontestado, por outro lado.
Tal como Capote, o assassino era um "outsider" com uma infância feita de estilhaços e de abandono. Essa qualidade de "misfit" foi desde logo apreendida por Capote, definindo com clarividência o elo que os ligava: "Eu e o Perry podíamos ter vivido na mesma casa. A diferença é que eu saí pela porta da frente e ele saiu pela porta das traseiras." Capote era um excêntrico que tomou partido da estranheza que o caracterizava (a voz, os gestos, a postura) para se projectar na high society norte-americana.
Capote sugou a brutalidade desses factos cruéis, sabendo reconhecer a existência de dois mundos que se antagonizavam: a América dos poderosos e a América dos marginais e dos inadaptados, capazes de perpetrar os actos mais hediondos. Os relatos, os testemunhos, as entrevistas, em suma, a intensa pesquisa levada a cabo por Capote revelou-se fundamental para a construção do romance In Cold Blood.
Surge uma questão pertinente: qual o móbil primordial do escritor? Fazer o relato "não ficcional", em forma de romance ("non-fictional novel"), de um crime terrível que abalou a América do final dos anos 50 para que não fosse devorado pelo inevitável esquecimento? Ou tão simplesmente inaugurar um estilo diferente de escrita que revolucionasse os parâmetros literários da época? A tentação da imortalidade e o amor à Arte podem ser de tal forma inebriantes que cegam os seus protagonistas. Mas a vida não imita a arte e, por vezes, pode ser crua, cruel, "a sangue frio".

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

"Bless thee! Thou art translated"

Lançado o mote "Shakespeare-Identidades e Tradução", assisti ontem a uma mesa-redonda sobre Shakespeare em Portugal, tendo como pano de fundo, o complexo ofício da Tradução, que decorreu no Teatro Viriato (TV), em Viseu.
O leque de "actores" que protagonizaram este encontro era particularmente apelativo: as actrizes Leonor Keil (no dia 24 leva à cena no TV a peça Noite de Reis, um espectáculo concentrado na expressão corporal, em que as palavras escasseiam, pelo que é o corpo o intérprete por excelência) e Valérie Bradell (que integra o elenco de Romeu e Julieta); o professor universitário Rui Carvalho Homem, o encenador Jorge Fraga e Fernando Villas Boas, que traduziu para Português A Tempestade e Romeu e Julieta.
Inesgotáveis são as discussões teóricas em torno da definição do acto de traduzir, assim como as imagens a ele associadas. Desde a imagem de transladar até à imagem de verter ou transportar de uma língua para a outra, não faltam cenários para ilustrar a tortuosa tarefa do tradutor, lamentavelmente pouco ou nada reconhecida em Portugal. Onde estão os sindicatos? A Ordem dos Tradutores? O reconhecimento legal e institucional da profissão?
O que mais me entusiasmou nesta reflexão foi constatar que se pode "traduzir" ou "adaptar" das mais diversificadas formas. As preocupações que norteiam o tradutor literário (sim,desenganem-se os mais ingénuos, pois traduzir consiste, antes de mais, em resolver problemas que se sucedem, implacáveis e impiedosos!) são totalmente distintas das inquietações que consomem um encenador ou um actor, por exemplo. É possível traduzir palavras para expressão corporal, para dança e movimento.
O encenador Jorge Fraga traduziu Shakespeare, mas, segundo o próprio, numa perspectiva de adaptação e de adequação do texto aos actores que irão dar corpo às palavras.
O tradutor, Fernando Villas Boas, postulou uma tradução fiel (o adjectivo é inevitável!) ao original shakespeariano, mas orientada para a língua e a cultura portuguesas, para os seus recursos múltiplos. Na experiência deste tradutor, a língua portuguesa é ainda habitada por inúmeras expressões arcaizantes que, no entanto, continuam a fazer parte do uso corrente e não são sentidas como tal. É, nesse sentido, uma enorme vantagem para quem se lança à árdua empresa de traduzir o grande colosso da língua Inglesa, que será, segundo se afirmou, "uma língua à parte". "Shakespeariês" quiçá?
Outra questão abordada prende-se com tornar - ou não - Shakespeare acessível ao público e "suavizar" a complexidade intrínseca a toda a sua obra, de forma a que os comuns mortais "compreendam" a mensagem veiculada e a descodifiquem mais rapidamente. No entanto, trata-se de um tema em nada pacífico, pelo que não é possível encontrar uma resposta definitiva, sob pena de se incorrer no mais puro dogmatismo. Tal como se mencionou, há inúmeras formas de traduzir e inúmeros públicos, com perfis diversificados. Nesse sentido, caberá ao tradutor, encenador ou actor usar do mais elementar bom senso e não descurando a sensibilidade, levar a cabo essa tarefa com consciência do(s) destinatário(s).
A tradução é, por essência, um ofício solitário mas solidário, pois tem-se sempre em mente o Outro (a língua e a cultura do texto original) e os outros, o público que irá ler essa mesma tradução.
Para rematar, uma bela citação de Ezra Pound (mencionada pelo tradutor Fernando Villas Boas nesta sessão): “Vale a pena aprender Português para ler Camões.” Há que amar a nossa língua, pois desse doce afecto depende a perenidade de tantas e tantas obras, de tantos e tantos autores que souberam amá-la. Mas esse já seria um outro tema…

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Munique


Munique é, sem sombra de dúvida, um filme poderosíssimo que nos consome as entranhas. Confesso que, alguns dias após o filme, certas imagens insistiam em ser projectadas na sala de cinema que se instalou na minha mente (à minha revelia?) e creio que ainda não o "digeri" devidamente (no bom sentido!).
Gosto sempre de ler múltiplas críticas antes de ir ver um filme, de preferência totalmente opostas, divergentes, contraditórias que estejam nos antípodas da subjectividade e do juízo individual. Tanto mais estimulantes.
Para além de todas as questões de fundo que já foram sobejamente debatidas, discutidas, abordadas e teorizadas por um número infinito de especialistas na matéria, a verdade é que Munique se centra no indivíduo e nos seus dilemas-base. Para além de todas as ideologias, dos valores mais altos, das grandes noções que fundaram o ideal de Civilização, encontra-se o indivíduo, frágil e vulnerável, corroído pelo medo óbvio de se tornar duplamente carrasco e vítima. Há hesitações, avanços, recuos, sempre com a Morte como pano de fundo, inescapável e altiva. Desenvolve-se um clima de amizade - valha-nos algum ténue "comic relief" que aqui e acolá atenua o peso da realidade!- entre os agentes do plano de retaliação após o assassínio dos atletas olímpicos israelitas, mas essa aparente união é tanto mais dramática quanto a irreversibilidade de tudo se desfazer em pó e cinza e o indivíduo se sentir ainda mais só e desesperado.
Independentemente dos valores que se defendam e da validade dos argumentos, carrascos e vítimas estão fadados a fundirem-se num só. É-se sempre vítima da sentença que se inflinge a outrem, uma espécie de "morte anunciada". Mesmo que se sobreviva fisicamente. A única via possível é a da harmonia. De mãos dadas ... sem mais sangue...

domingo, fevereiro 19, 2006

"I have always depended upon the kindness of strangers"


Da vida como viagem. Como se de uma viagem de comboio se tratasse, que bom seria termos de antemão o bilhete com a indicação das paragens. Assim, poderíamos evitar algumas saídas e transbordos mais atribulados, transgredir quiçá e sair noutras estações, percorrendo caminhos distintos que não figuravam no itinerário inicial. “O segredo será mesmo a alma do negócio?” Ao longo da vida, somos bombardeados com estas máximas definitivas que têm a pretensão de concentrar em si toda a verdade do mundo. Da verdade, só conhecemos metade ou nem isso sequer. Resquícios de uma verdade que forjamos, que queremos e cremos que seja a nossa bússola, o nosso norte. Numa viagem despojada de certezas, plena de trilhos insondáveis. Melhor será então deixar o comboio seguir o seu rumo indecifrável e esperarmos pelas surpresas que este louco maquinista nos reserva. Este tempo, de tão cinzento, infiltra-se nos poros numa melancolia irremediável. E esta chuva eterna que não cessa...

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Do fim da Poesia?

Vivemos subjugados pela tirania implacável dos números, da lógica, da produtividade. Já não há espaço para a melodia da palavra, para a sua dimensão mágica que nos envolve e enleia. O que interessa hoje em dia é produzir desenfreadamente, alcançar resultados, gerar números, mais números, índices astronómicos de produtividade, competir até ao último suspiro. (Ocorre-me agora a recente visita do mi-, bi-. tri-, quadrilionário Bill Gates a Portugal, em que ele, muito modestamente, como é seu surpreendente apanágio, dizia que sempre que precisava de fazer a declaração de IRS, tinha de usar um computador especial com capacidade para comportar tais números infindáveis!)
Como dizia o outro: "It's the economy, stupid!". A Poesia integra a nossa essência, porém, percorre os subterrâneos filamentos do ser e os compartimentos da alma. E ela ainda vive, respira e ecoa. Imponente. Enquanto houver pessoas que se deixem fascinar pelo poder colossal do Verbo e pelos "pequenos nadas": um lânguido pôr-do-sol, quase eterno, o sorriso de uma criança, uma brisa apaziguadora, a pureza dos afectos, o cheiro da terra molhada no Verão, a chuva que, insistente, cai lá fora, adocicando a doce letargia da tarde. Porque a Poesia não se faz unicamente de signos, mas de imagens que habitam o quotidiano. Só que, por vezes, estamos demasiado cegos, ocupados, assoberbados. Com números.
"De manhã escureço/ De dia tardo/ De tarde anoiteço/ De noite ardo." (Vinicius de Moraes)

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Os passos em volta

Na semana passada, assisti ao lançamento do livro de Cláudia Galhós (Ed. Assírio e Alvim) intitulado Corpo de Cordas - 10 anos da Companhia Paulo Ribeiro, na Livraria da Praça, em Viseu (que começa a ser um ponto obrigatório de passagem na cidade pela agenda transbordante de tertúlias, exposições e lançamentos de obras com que semanalmente presenteia os seus fiéis frequentadores).
A obra da crítica de dança Cláudia Galhós retrata os 10 anos da Companhia Paulo Ribeiro e traça o perfil biográfico do coreógrafo, nome incontornável da dança contemporânea portuguesa.
Como qualquer outra arte em Portugal, a dança é relegada para segundo plano ou votada, pura e simplesmente, ao abandono. Aliás, o destino de qualquer fazedor da cultura no nosso país é sempre muito penoso e pleno de complexos obstáculos.
Este livro fala da vida de um "obstinado" (nas palavras da própria autora) que lutou por um sonho, num esforço de permanente reconstrução e de recomeço, acreditando sempre no poder da criação e do "fascínio da realidade".
Foi uma conversa muito agradável e despretensiosa, no ambiente acolhedor e familiar que caracteriza este espaço da cultura em Viseu (www.livrariapraca.blogspot.com). Da dança fez-se palavra.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

parece que afinal sempre estou a conseguir entrar no pechisbeque. estou muito curiosa em ver as nossas quinquilharias e em enviar muitos regateios. isto é apenas um teste, por isso antes de mais vou mesmo é ver como é que ficou o blog que fizeste para irmos conversando.

Lost in translation

Há dias, numa aula de Teoria da Tradução, discutia-se a eterna questão da (in)fidelidade perante o texto original, sendo que a fidelidade absoluta é uma impossibilidade em Tradução. São possíveis aproximações, adaptações, fruto da visão interpretativa do sujeito tradutor que se deverá preocupar mais com o sentido, com o conteúdo e com a sua "tradutibilidade" do que com a forma. Tal como dizia Ezra Pound: "More sense, less syntax".
Às páginas tantas (adoro esta expressão!), uma colega do ramo de Literaturas Clássicas faz uma afirmação apocalíptica: segundo falantes nativos da língua russa, Dostoievski foi totalmente adulterado para as línguas românicas através das traduções "floreadas" do Francês que construíram um outro Dostoievski, que era, na verdade, um autor "obscuro"! Fiquei chocada com esta afirmação que nos leva a questionar " o que se perde na tradução" ou até o que se cria e o que se (re)inventa.
Não cheguei ainda a uma conclusão satisfatória, mas Dostoievski foi e continuará a ser um marco inultrapassável das Letras ocidentais, a um tempo um verdadeiro mestre da análise dos meandros mais profundos e tenebrosos da mente humana, e a outro tempo um escritor com fortes preocupações sociais que retrata o ser humano em toda a sua dimensão.
A imparável dupla de tradução Nina e Filipe Guerra têm vertido as obras de Dostoievski do original russo para português. Acabaram-se, assim, os "floreados" franceses, pelo que temos agora o nosso próprio Dostoievski! Na língua de Camões, comme il faut!

O interior da cultura

Longe vão os tempos em que uma viagem de Lisboa à "província" demorava uma eternidade e mais alguns minutos. Longe vão os tempos em que as manifestações culturais mais vanguardistas se confinavam unica e exclusivamente aos dois grandes centros urbanos de Portugal.
Na vanGuarda da cultura está hoje em dia a Guarda, um exemplo cimeiro de como se pode pôr em causa a noção de interioridade.
O Teatro Municipal da Guarda - www.tmg.com.pt - apresenta um leque bastante vasto de espectáculos que vão desde as Artes Circenses à Ópera, passando obviamente pelo Teatro e pela Música. Ao deambular pela programação de Março do TMG, deparei-me com um espectáculo da inusitada The First Vienna Vegetable Orchestra (FVVO - http://www.gemueseorchester.org/). É isso mesmo: os músicos que compõem esta orquestra inesperada interpretam vegetais (alho francês, pimentos, cenouras, pepinos) e alguns utensílios de cozinha, saliente-se. No site do TMG, é possível ouvir um breve excerto da FVVO. A arte e a imaginação não conhecem fronteiras, pelo que se optarmos pelo "caminho menos trilhado" (evoco Robert Frost), poderemos um dia ser virtuosos... da cenoura, quem sabe? Seja do que for, pelo menos fomos diferentes, avessos à banalidade e à previsibilidade. Um forte aplauso para o Teatro Municipal da Guarda!

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

A love song for Bobby Long


Há domingos assim que nos surpreendem por serem dias absolutamente perfeitos... À tarde, um passeio à beira-mar e à noite, um serão pontuado por um filme inesperadamente envolvente...
Aos domingos, não somos particularmente exigentes em termos de escolha fílmica. Vamos ao clube de vídeo da praxe e mostramo-nos quase paternalistas e pacientes, condescendendo a todo o instante, desde o filme mais sentimentalóide ao mais carregado de acção e de adrenalina visual e sonora. O domingo é o perfeito álibi.
Ontem escolhi um filme que me comoveu pelo carácter humano e pela íntima ligação entre a literatura e a vida. Será que a arte imita a vida? Ou será o inverso? Segundo Woody Allen, "a vida imita a má televisão" e cada vez me convenço mais dessa dura realidade...
O filme intitula-se "A love song for Bobby Long" e conta com a participação do "peso pesado" Travolta, da magistral Scarlet Johanson e de Gabriel Macht.
Centra-se na noção de regresso a casa, às origens e sobretudo, às profundezas de nós mesmos, numa tentativa desesperada de (re)construção de memórias. É em busca de memórias que nunca teve que a protagonista, interpretada por Scarlet Johanson, se muda para casa da mãe, onde viviam dois inquilinos, no mínimo, peculiares: um ex-professor sábio, em decadência física, e um aluno devoto, com aspirações literárias, unidos pelo amor ao álcool e à Literatura.
Pululam citações de grandes autores ao longo do filme, pelo que se aconselha ter um bloco de notas em posição estratégica, sob pena de deixarmos passar grandes verdades expressas da forma mais simples, como é apanágio dos escritores mais iluminados.
A protagonista rende-se ao poder da palavra escrita e peu a peu, o que constituía um ambiente de enorme animosidade entre o triângulo que coabitava a casa de toda a discórdia transforma-se num foco de partilha de vivências, de recordações e de afectos.
É um filme que nos conduz a uma regressão aos intrincados labirintos da nossa memória pessoal. Seria muito penoso, senão trágico, conviver com a ausência dela.
Não resisto a citar uma das citações (!) brilhantes deste filme: "Só morremos uma vez e demora uma eternidade." (Molière)

Bem-vindos!


Bem-vindos!
O que muitos consideram "pechisbeque" ou quinquilharia será o nosso fio condutor. Não se falará do défice, nem de inflação galopante. Mas das artes, do poder da palavra escrita, da eterna magia do cinema, da transcendência da criação. O mote está lançado.
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