sábado, abril 29, 2006

"Ensaio de um Eros possível"
















Ontem assisti a um espectáculo único, a sange frio, visceral. Estreou no Teatro Viriato, em Viseu, a peça "Ensaio de um Eros possível", um espectáculo de dança contemporânea que resultou da parceria entre o TV e a Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral de Viseu.
Em palco, dois homens: o bailarino/coreógrafo e uma pessoa com deficiência. Uma história que poderia ser de amor, de amizade, mas profundamente humana.
Tudo começa com o toque, fugidio, tímido, a príncipio, que depois se transforma em abraço e em profunda envolvência. Mas como todas as relações, esta também é feita de desencontros, de confrontos, de agressão. Os corpos que se entrecruzavam e se confundiam tornam-se opositores cruéis, afastam-se, fintam-se, repelem-se. No entanto, a peça segue uma lógica de circularidade e a ordem é, enfim, restabelecida.
Como pano de fundo, imagens ténues e a agulha de um gira-discos. O único som que se ouve, de facto, é o dos corpos, sempre ofegantes e em diálogo permanente. Tudo ao sabor do improviso. Corpos que se imitam e que dançam ao som de uma música que decorre da interioridade. Corpos que superam as limitações físicas e se transcendem em palco.
Nunca vivi uma experiência tão poderosa enquanto espectadora. Foi verdadeiramente avassalador ser testemunha de uma partilha tão bela, plena de palavras indizíveis, de silêncios que dizem mais do que todos os discursos possíveis. Uma verdadeira lição para todos aqueles que pensam que as pessoas com deficiência são os eternos excluídos, condenados à partida, sem prova em contrário, sem terem sequer a oportunidade de mostrar as suas sobre-humanas capacidades!
Romulus Neagu e José António Correia deram as mãos, conduzindo o público, rendido e comovido, a uma dimensão em que não há impossíveis. As limitações são inerentes ao ser humano. Só que por vezes estamos demasiado convictos da nossa "normalidade" e omnipotência que nos esquecemos de olhar para dentro de nós próprios e de ver as nossas fraquezas.
Pura poesia a que se soltou ontem à noite no palco do Teatro Viriato.

E hoje é o Dia Mundial da Dança!

sexta-feira, abril 28, 2006

Reflexões avulsas




















Porque é que para tudo na vida há um prazo de validade? Até para a própria vida?
Não é uma questão particularmente solar num dia tão radioso como este, mas nem sempre o exterior/interior andam de mãos dadas.
E, por vezes, isso é tanto mais verdade quanto mais abissal a diferença entre um dia de sol fabuloso e um estado de alma (ainda) invernoso.
Excepção seja feita à amizade, tudo o resto se deixa corroer pelo tempo, ora aliado, ora inimigo e, na maioria das vezes, é irreversível. Haverá justificação plausível para esse facto? Seremos nós a causa ou a consequência?
O pensamento pode ser o maior dos fardos. Felizes os pobres de espírito que não são assaltados por dilacerantes questões, dilemas, recuos, avanços e vivem tranquilamente ao sabor das marés.
A solução será mesmo não perder o "amor pelas coisas banais" de que fala Lobo Antunes e saborear o sal das ondas, sentir o vento, a areia a escapar-se-nos por entre os dedos, inebriarmo-nos com a magia de um poema, da palavra escrita que escorre e percorre as nossas veias... E vivermos cada dia como se fosse infinito, porque a consciência da finitude das coisas é, por si só, deprimente e inevitável.

"Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos. "Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

terça-feira, abril 25, 2006

Onde pairam os amanhãs que cantam?

Hoje que se assinala o 25 de Abril, o marco histórico da fundação da democracia e da liberdade, creio que é importante reflectir sobre o fim (?) dos ideais.
É com uma pontinha de inveja, confesso, que ouço relatos daqueles que viveram esse período decisivo e fervilhante da nossa história, que foram alvos de perseguição acérrima, que se viram na contingência de mudar a identidade, cuja vida foi virada e revirada do avesso.
Tudo em nome de um ideal: o fim da ditadura - de uma pesada e pesarosa ditadura salazarenta, à portuguesa, sem qualquer "glamour" militar ou poses triunfantes, o eterno "orgulhosamente sós" provinciano feito de palavras sibilantes - e a implantação da democracia.
Volvidos 32 anos, tomamos tudo por adquirido e já não se sente sequer um leve sopro da centelha revolucionária. Constato com perplexidade que há pessoas que se recusam a celebrar esta data tão profundamente importante e outros ainda, jovens! saliente-se, que se recusam a dizer 25 de Abril, remetendo-se ao 25 do 4! É verídico e não menos mais preocupante!
Como seria viver num país silenciado pela ditadura, mesmo que à escala portuguesa, mas ditadura, num inverno eterno de solidão e de ausência de pluralidade? Como seria viver num país que não admitia múltiplas verdades, oprimindo quem pensasse de outra forma?
São precisamente os heróis da liberdade que merecem a nossa profunda admiração, pois lutaram até ao último suspiro para fundar a democracia, que, obviamente, não é perfeita ou uma obra acabada, mas que existe!
Hoje em dia, as gerações mais novas (na sua maioria) estão mais obcecadas em comprar o último modelo do telemóvel da marca xpto ou o carro x topo de gama (sempre!) a lutar por novos e reciclados ideais. A luta dos jovens de França (ainda que extremada devido à actuação de franjas marginais) contra o penalizante Contrato do Primeiro Emprego faz suspirar quem seja habitado pelo espírito revolucionário.
Não terá sido este espírito que levou os nosso navegantes por "mares nunca dantes navegados"? Audácia, precisa-se. Posted by Picasa

terça-feira, abril 18, 2006

Maldita cocaína

De entre todo o manancial de informação com que diariamente somos bombardeados, há sempre notícias que se destacam pelo seu carácter inesperado.
Saiu uma reportagem na revista brasileira Isto É que se centra nas mulheres - pouco elogiosamente denominadas "mulas" (regra geral, mulheres bonitas que, por razões óbvias, ludibriavam as autoridades policiais) - que transportam cocaína dentro delas para tráfico, após terem sido submetidas a operações cirúrgicas com esse objectivo. Lembrei-me de imediato do filme colombiano Maria Cheia de Graça que, a propósito, ainda não vi, mas que já está na minha lista de filmes a visionar (como se tornou moda dizer hoje em dia!).
Fazem operações plásticas na Colômbia ou no Brasil, colocando pacotes herméticos de cocaína e de ecstasy no peito ou nas coxas a troco de chorudas quantias.
Como será conviver e viver com essa sórdida ideia? Levando essas substâncias não com elas (não menos grave, claro está), mas nelas? A mudança de preposição é assustadora, sem dúvida. Coloco a questão sem qualquer tipo de intuito moralista, pois percebe-se bem que a opção por essa estranha forma de vida radica em vidas de acentuada carência material ou de manifesta disfunção familiar, social, etc. Ou não necessariamente. A reportagem também revela que a grande maioria das "mulas" pertence à classe média e ingressa as amplas fileiras do desemprego.
Quando pensávamos que estava tudo dito em relação às manhas e artimanhas engendradas para o tráfico de droga, rapidamente se chega à conclusão de que este, como muitos outros, aliás, é um campo terrivelmente inesgotável...
Reportagem Isto É - "Vida de Mula"

O Fiel Jardineiro














Há algo de indecifrável no último filme do cineasta brasileiro Fernando Meireles: The Constant Gardener que conta com a participação magistral de Ralph Fienes e Rachel Weisz (que ganhou o Óscar de Melhor Actriz Secundária).
Rodado quase exclusivamente no Quénia profundo (salvo algumas cenas em Londres e Berlim), este inquietante filme – muito na senda de Hotel Ruanda, por exemplo – tematiza a total negligência/indiferença do Ocidente perante a tragédia de milhares e milhares de africanos que perecem todos os dias, neste caso às mãos de indústrias farmacêuticas que os usam como cobaias.
Justin (Ralph Fienes) e a carismática (e muito revolucionária) Tessa partem para África, decidindo aí construir o seu país. Justin é um amante fervoroso da flora e, onde quer que se encontre, edifica à sua volta jardins luxuriantes nos quais se perde para o mundo e para a realidade. Tessa, por sua vez, tem os pés bens assentes na terra e luta fervorosamente pelos seus ideais. A sua grande bandeira era lutar contra os gigantes da farmácia que, sedentos de monopólio de mercado, faziam testes nos habitantes locais que, encurralados na sua miséria inimaginável, cediam sem ter outra opção.
O filme The Constant Gardener questiona permanentemente toda a dimensão do “parecer”, do que está apenas à superfície. Nem tudo o que parece é. E assim o é neste filme. O que parecia ser uma relação bizarra entre Justin e Tessa (ela vivia para a defesa acérrima dos seus ideais, ele para as plantas) acaba por se revelar uma tremenda história de amor, reforçada post mortem, saliente-se. O que parecia ser a bonomia do Ocidente perante as carências médicas da miserável população queniana não o era.
O espectador é convidado a percorrer labirintos impensáveis e a tecer aos poucos a verdade subterrânea dos factos. A excepcional banda sonora transporta-nos para uma dimensão longínqua habitada por pessoas que não podem vislumbrar qualquer horizonte, despojadas de tudo, vítimas de um Ocidente que as crucifica enquanto apregoa os grandes valores civilizacionais. O eterno fardo do homem negro…

segunda-feira, abril 10, 2006

Fast Love

Será que o McDonald's destruiu o Amor?
Ontem fiquei perplexa, quase sem palavras, quando deparei com um casal de provecta idade, na praia, sentados nas rochas, irremediavelmente apaixonados.
Associei aquela bela imagem ao último romance de Gabriel García Márquez intitulado Memórias de minhas putas tristes que foi muito criticado por não ter o fôlego que é habitual na produção literária deste autor, enfim, à medida que os escritores avançam na idade, os críticos tornam-se ainda mais implacáveis e obviamente patéticos.
Pessoalmente, foi um livro que me comoveu imenso, pois retrata de forma magistral os devaneios amorosos de um velho que acreditava poder vencer a crueldade do tempo e entregar-se ao delírio dos prazeres carnais. Claro está que o tempo não perdoa, deixando marcas intransponíveis, no entanto é muito apaziguador saber que o Amor, o desejo, a paixão podem perdurar até ao último suspiro. Ocorre-me a cena final do romance O Amor nos tempos de cólera, em que Fermina Daza e Florentino Ariza passarão o resto das suas vidas num ferry que navegava de lá para cá, de cá para lá, docemente, ao sabor das águas cálidas e tranquilas do Caribe.
Mas o cenário hoje em dia é bem diferente. O Amor tem prazo de validade, creio que ainda mais curto do que o dos iogurtes. Qual o motivo? Qual a causa oculta que subjaz a tudo isto? Será da “macdonaldização” da vida, em que tudo deve ser consumido rapidamente, sem contemplações, sem mais um segundo a perder? Será o ritmo frenético que nos impõem que assim o dita? Terão todas as relações uma sentença de “morte anunciada”?
É certo também que, em tempos idos, as pessoas mantinham autênticas fachadas e encenavam vidas perfeitas, sabendo-se, no entanto, que todas as públicas virtudes escondem vícios privados! E isso é tão verdade hoje como o foi outrora.
No entanto, por mais que olhemos à nossa volta, já não existem Florentinos e Ferminas, nem pessoas como o casal que observei ontem na praia. Há apenas envolvimentos meteóricos, desesperados, fadados a um fim sobranceiro e inevitável.
Num romance de Kundera (para quando o Nobel?!), intitulado A Lentidão, o autor faz precisamente o contraponto entre a velocidade e a lentidão, entre a contemporaneidade e o passado. Outrora, os amantes sabiam apreciar e jogar com o carácter lânguido do tempo, que ia tecendo as complexas teias de que se faziam as relações. A época actual, por triste comparação, destacava-se pela absoluta voracidade, pelo fim do hedonismo e das subtilezas da paixão.
Hoje em dia, já não há lugar para subtilezas. Tudo é demasiado imediato para poder ser lentamente “degustado”. Só procuramos imagens, em vez de palavras, forma, em vez de conteúdo. Seremos, de facto, mais felizes assim?
“Estranha forma de vida”…

sexta-feira, abril 07, 2006

Post vitam

Como seria uma vida sem morte?Apegamo-nos com tanto fervor à vida, tentando ludibriar o facto mais certo que se nos apresenta: a morte. A existência é feita de pequenas ilusões: as glórias momentâneas, as desilusões, o sofrimento que parece um fardo eterno, as alegrias, os projectos, as expectativas. De um momento para o outro, com a leveza de um sopro, tudo se desmorona e relativiza. O sentido da vida é precisamente não fazer sentido algum.
Creio que o fluir do Tempo torna cada vez mais presente a noção da finitude. Na adolescência, estamos mais centrados em questões do foro afectivo, numa eterna bipolaridade entre aceitação/rejeição. A morte nem sequer é tema ou preocupação. Porém, os anos vão passando e, pelo caminho, vão-se perdendo as pessoas que integram o nosso universo: deixam de conversar e de rir connosco, tornam-se etéreas, estranhos habitantes de uma dimensão misteriosa e longínqua.
Mas como seria uma vida sem morte? Provavelmente, muito mais insustentável do que uma vida iluminada pela certeza de um desenlace. Os corpos iam-se degradando e, com eles, as relações humanas. Tornar-nos-íamos insuportáveis, carregando o insustentável peso do ser. A imortalidade seria um lugar estranho, inabitável, em que já existiriam quaisquer regras de cortesia e de diplomacia. A verdade subia irremediavelmente à tona e o ser humano teria como destino inevitável uma solidão eterna...

segunda-feira, abril 03, 2006

O animal político lusitano


Este texto não tem qualquer objectivo propagandístico ou panfletário de apoio ao presente governo da nação (sendo certo que sou insuspeita para falar, pois o meu voto nas anteriores legislativas não recaiu sequer sobre o Partido Socialista), mas pareceu-me importante reflectir sobre um ponto crucial que diz muito acerca da arte (ou da falta dela) de fazer política em Portugal.
Por incrível que pareça, parece que, pela primeira vez na História, temos um governo que quer, de facto, governar! Caso estranho.
Por ironia, as ditas classes dirigentes pouco ou nada dirigiam, excepto o seu próprio interesse, remetidas à esfera da total inoperância e disfuncionalidade.
O político era aquele ser bem-falante, altivo, recheado de pergaminhos (tanto melhor!) e de palavras eruditas que tudo diziam sem nada dizer que ia traçando o seu percurso, a sua carreira, guiado pela ambição e, sobretudo, pelo sentido de imediato, pela maldição do curto-prazo, sem se preocupar em ver mais além, em trabalhar afincadamente em nome das gerações futuras.
Os anos iam passando e, de (des)governo em (des)governo, a desconfiança ia-se adensando cada vez mais, gerando-se uma certa sensação de ingovernabilidade de um país. O caso do abandono de Durão Barroso foi disso magistral e tristíssimo exemplo.
Contudo, hoje em dia sente-se uma onda de energia e de expectativa muito grande em torno do governo de Sócrates – será do seu interessante nome de filósofo?! – e do projecto que o Executivo tem para a nação. O país havia caído num fosso imenso, verdadeiramente insustentável, pelo que o cenário e, acima de tudo, a atitude teriam de mudar.
Há inúmeros exemplos dos passos positivos que este governo está a dar, como seja o tremendo investimento que se está a captar para Portugal (Bill Gates é incontornável, sem dúvida, e o desenvolvimento do Centro de Língua Portuguesa em parceria com a Microsoft) através de acções no exterior junto de potenciais investidores; o Cartão Único; o Simplex; o combate acérrimo à burocracia e a uma máquina pesadíssima e carunchosa; a Empresa na Hora; o anunciado investimento na Ciência e na Tecnologia no próximo Orçamento de Estado, para mencionar as mais apelativas.
Se das palavras se vai passar aos actos, só o tempo o dirá com propriedade. No entanto - e repito-o, mesmo não perfilhando o ideário político do partido que está no governo - creio que esta força positiva que se sente poderá ser muito benéfica para devolver às pessoas a confiança nos políticos e nas classes dirigentes.
Será que é desta que Portugal apanha o comboio do desenvolvimento (aproveito a generosa imagem ferroviária)? A recém-chegada República Checa já vai à nossa frente...
Pela primeira vez, parece que os maquinistas têm um rumo definido, evitando apeadeiros desnecessários. Ver para crer.
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