sábado, maio 27, 2006

Lua de fel

Por vezes, o Brasil que vemos retratado em filmes como "Carandiru" vem à tona. Não é mera coincidência qualquer semelhança com a verdade dos factos. Quem vê no Brasil um mero paraíso na terra, com praias inigualáveis, ideais para passar a lua-de-mel e afins vê apenas uma meia-verdade. A realidade das prisões brasileiras não é, de todo, feita de mel, mas de fel.
É já um lugar-comum definir o Brasil como um país de abissais contrastes, pêndulo que oscila freneticamente entre riqueza e miséria, opulência e carência. Por melhores e mais nobres que sejam as intenções dos governos sucessivos do Brasil, a verdade é que vários factores concorrem para a profunda ingovernabilidade deste país: a dimensão continental, o historial de corrupção das classes governantes, a inexistência de uma classe média e, o mais importante, poderio tremendo do tráfico de droga.
São disso exemplo os recentes motins nas prisões de São Paulo que, no total, fizeram 300 mortos intra e extra-muros, além de uma onda de tumulto, agitação social e destruição material.
O rosto do PCC - Primeiro Comando da Capital - chama-se Marcola. (Estes nomes são sempre "cómicos", como se fossem um eufemismo que ameniza a crua e dura realidade. Veja-se outro nome deste género: Fernandinho Beira-Mar.)
Além de ser o líder discreto e o cérebro deste grupo, Marcola é um intelectual que devora livros com sofreguidão. Afirma, com orgulho, já ter lido 3.000 livros!
Diz-se que na milenar Arte da Guerra de Shun Tzu bebeu a inspiração para mexer as peças de um perigoso xadrez e ... fazer xeque-mate. As autoridades brasileiras acabaram por ceder às suas exigências: desde a mudança de cor do uniforme dos presidiários (de amarelo para caqui) até à colocação de ecrãs plasma nas suas celas. Afinal de contas, vem aí o Mundial!
Há sempre um vulcão adormecido prestes a despertar, no Brasil...

"A Guerra é um assunto de vital importância para o Estado, uma vez que é necessário manter a paz. Por isso, compete estudá-la". Shun Tzu, em A Arte da Guerra

segunda-feira, maio 22, 2006

Morrer na Praia
















Não consigo ficar indiferente quando leio ou vejo notícias relacionadas com o drama de milhares e milhares de clandestinos que, oriundos de uma África destroçada (Costa do Marfim, Guiné, Senegal, Mali, Serra Leoa), procuram um qualquer oásis europeu.
O pesqueiro “Awaid 2” provinha do Senegal e tinha como destino as Canárias. Adivinha-se um barco triste, decrépito, de madeiras ruidosas, à beira da ruptura. A bordo, 58 emigrantes clandestinos de diferentes origens, mas com um denominador comum: uma África esventrada pelo mesmo Ocidente onde eles procuram – tão só - uma vida decente.Vinham da Serra Leoa, do Senegal, do Mali, da Costa do Marfim, da Guiné-Bissau, da Guiné-Conacri.
Em Cabo Verde, no porto da cidade da Praia, o “Awaid 2” foi interceptado e os seus tripulantes aí permaneceram uma semana, sob um sol tórrido e impiedoso, assistidos apenas pela Cruz Vermelha e por outra associação humanitária local que lhes facultavam uma refeição quente por dia e roupas. Amontoados, desesperados, vislumbrando um horizonte de vazio que não oferece quaisquer caminhos ou saídas. À mercê da incógnita, de um futuro que nem se vislumbra plausível.
Basta somente determo-nos nas fotografias de tais tragédias que se repetem e se sucedem todos os dias, batalhões de clandestinos que preferem arriscar-se a ter de viver em países dilacerados pela fome, pela guerra, pela miséria, pela total e absoluta carência. Basta olharmos fixamente para estes rostos macerados. As palavras ficam aquém do impacto que eles provocam em nós. Não é traduzível por palavras.
É urgente que o Ocidente aja em prol de África, palco de tragédias diárias e sangrentas, no sentido de lhe proporcionar os meios de sobrevivência, apontando-lhe os caminhos possíveis da prosperidade e do bem-estar, do respeito pelos Direitos Humanos. Não é legítimo fazer-se de conta e virar as costas às incontáveis vítimas que sentem na pele esse mesmo sol tórrido da indiferença e da absoluta negligência.
Por mais penosos que sejam os nossos fardos quotidianos, jamais saberemos qual a sensação de se estar na iminência de morrer na praia…

quinta-feira, maio 18, 2006

O mundo do avesso (incursão ficcional)
















Ela acordara um pouco atordoada com a revelação da noite anterior. Mas antes de se permitir qualquer reflexão ou pensamento perturbador, que agudizasse ainda mais o desconforto que sentia, resolveu tomar um duche regenerador e fazer da mente tábua rasa.
(Como invejava aqueles monges tibetanos que, graças anos e anos a fio de meditação aplicada, conseguiam evadir-se de si mesmos e atingir o nirvana do vazio, do total e puro despojamento espiritual e material.)
Jantou, de seguida, e foi para o trabalho. Mas aquele pensamento não a deixava, entranhava-se nela e, já sem forças, rendeu-se à evidência de que o João esperava um filho dela. Ela ia ser mãe!
Nunca fora muito dada a esses devaneios maternais, acreditava sempre que havia formas bem mais estimulantes de ocupar a mente. Irritava-se até à exaustão com as histórias patéticas que os amigos contavam, os sons absolutamente inimagináveis que emitiam na presença de um bebé, ser minúsculo que subjugava despoticamente todos os que dele se aproximassem.
Mas não deixava de sentir uma ternura inexplicável que, provavelmente, sempre a habitara, mas estava confinada até agora a uma divisão impenetrável e longínqua do seu ser.
Chegou ao trabalho e deu uma série de directrizes que o chefe teria de cumprir, se quisesse ser mesmo promovido! O caminho é penoso e inúmeras as pedras que nele se encontram…
A cabeça dela andava a mil à hora com imagens estranhas, visões de um cenário que ela nunca conheceu, o abismo do desconhecido. A vertigem de ser personagem de um filme cujo enredo lhe é completamente estranho. Estrangeira de si mesma.
O dia ia chegando ao início e com ele, a certeza de que ia reencontrar João, ao pequeno-almoço, num qualquer café de esquina, e confrontar-se com essa nova realidade.
Ia lendo o jornal do dia seguinte, e tremia como varas verdes, insegura, desejosa de ser quem não era... e mãe muito menos! Com todas as responsabilidades e patetices conexas que isso implicava...
Por fim, João chegou com nascer do sol e o sorriso dele irradiava.
(Será isto a etérea noção de felicidade que tantos apregoam? Seja o que for, é comovente. É legítimo fazer figuras patéticas e menos próprias!)
Pegou na mão de Mariana, sorriu mais uma vez e brincou com seus dedos trémulos. Nada disse, as palavras pareciam supérfulas. Invadida pela certeza de que os discursos mais eloquentes são os que se fazem em silêncio, olhou para ele, com doçura. Lá fora, uma massa de pessoas anónimas movia-se freneticamente. A mão de João repousava, tranquila, em Mariana.

quinta-feira, maio 11, 2006

"A minha pátria é a minha língua"
















Há algumas semanas, li uma notícia na Visão que me deixou particularmente rejubilante e, ao mesmo tempo, muito curiosa: a Língua Portuguesa já tem um museu! Desta feita, no país que, no meu modesto entender, trata melhor o nosso belo idioma: o Brasil, obviamente.
Podemos estranhar e até nunca chegar a entranhar os fatos (factos), o ótimo, os ternos, as aeromoças, as idéias, a grana, o gramado, o zagueiro, o escanteio, o cotidiano e afins, mas, sem dúvida, o brasileiro médio tem uma consciência muito mais aguda da língua portuguesa. Veja-se o exemplo das entrevistas de rua no Brasil: qualquer cidadão fala com fluência e disserta acerca de um qualquer tema, com uma naturalidade desarmante.
O reverso da medalha vê-se em Portugal com os "prontos", os "hádes" ( um autêntico Hades ou inferno!), os "de maneiras que" e outros atentados linguísticos impronunciáveis, que fazem o pobre Camões revirar no seu túmulo, a todo o instante!
O Museu da Língua Portuguesa situa-se em São Paulo, num edifício centenário belíssimo que era, outrora, uma estação de caminhos-de-ferro. Daí o binómio Museu da Língua Portuguesa/Estação da Luz. E, na verdade, é de luz que se trata: a luz da valorização do idioma português e do respeito que ele nos merece, a nós, falantes nativos da língua de Camões e de Machado de Assis.
Somos a quinta língua mais falada no mundo e, por exemplo, ao nível da música (salvo raras e meritórias excepções) temos pruridos em fazer da língua portuguesa a matéria-prima, constituindo o Inglês a saída mais fácil, a que supostamente abre portas. Mas fechamo-las à riqueza, à pluralidade de caminhos que podemos trilhar... em Português! A nossa língua encerra em si um potencial poético tremendo, abre-se a intermináveis jogos e trocadilhos, atrai-nos, ludibria-nos...
Não foi só Pessoa que me fez amar a língua portuguesa, mas também Chico Buarque, Caetano, Jorge Amado, José Eduardo Agualusa, o inigualável Mia Couto e tantos e tantos outros. Não será por acaso que nos países de expressão portuguesa o poder da invenção linguística é declaradamente maior. A mestiçagem e a fusão inter-cultural insuflaram a língua de novas e infinitas possibilidades, sendo a primeira um dos pilares temáticos deste Museu.

Deixo aqui a letra de uma canção de Caetano veloso, intitulada (e muito estrategicamente escolhida) Língua que consiste numa genial síntese da essência do Português:

Gosto de sentir a minha língua roçar
A língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
A criar confusões de prosódia
E um profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior
E quem há de negar que esta lhe é superior
E deixa os portugais morrerem à míngua
Minha pátria é minha língua
Fala Mangueira

Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode
Esta língua

Vamos atentar para a sintaxe paulista
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas
Cadê?
Sejamos imperialistas
Vamos na velô da dicção choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Hollanda resgate
E Xeque-mate, explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Sejamos o lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em Ã
De coisa como rã e ímã...
Nomes de nomes como Scarlet Moon Chevalier
Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé, Maria da Fé
Arrigo Barnabé

Incrível
É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Se você tem uma idéia incrível
É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o recôncavo, e o recôncavo, e o recôncavo
Meu medo!

A língua é minha Pátria
E eu não tenho Pátria: tenho mátria
Eu quero frátria

Poesia concreta e prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
Será que ele está no Pão de Açúcar
Tá craude brô, você e tu lhe amo
Qué que'u faço, nego?Bote ligeiro
Nós canto falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem,que falem.

quarta-feira, maio 10, 2006

Tempos idos

O Tempo pode ser um carrasco, por vezes. Atentemos na duração do dia. Quanto não dava para que o dia tivesse mesmo 48 horas. Transcorrido o tempo em que temos de ser produtivos, poderia chegar a casa, rever os filmes do Woody (bem sei que ainda não tenho idade para rever, reler, revisitar, mas há algo de saudosista em mim que faz com que reveja - precisamente! - a Annie Hall e me deixe inebriar, como se da primeira vez se tratasse!), atirar-me sofregamente ao Expresso (quantos e quantos Expressos em atraso?...) e depois devorar romances de um só fôlego.
Mas a realidade é bem distinta e finta-nos a todo o instante. Quando consigo ver ou (re)ver um filme já me dou por abençoada e lá me deito com a sensação de dever cumprido. Tudo o que nos dá verdadeiro prazer na vida confina-se a um espaço muito reduzido, claustrofóbico.
Olho para dentro de mim mesma e sinto-me estranha na própria pele, estrangeira de mim. Sinto a passagem do tempo, cronologicamente, como um facto irrefutável, mas cá bem nas profundezas, naqueles labirintos impenetráveis, ainda sou a miúda que vai para o liceu e que vive a insustentável leveza desses anos mágicos.
Será o saudosismo feito desta estranha matéria? A nostalgia? Acho que estou mesmo a ficar mais velha. Ganha-se em sabedoria, mas fica-se com aquela melancolia no olhar ao vislumbrar o horizonte das coisas passadas. Como se fixasse uma fotografia e nessa fotografia, vivem as memórias, momentos dos quais apenas restaram sorrisos, mãos que se tocam, mas já não se encontram, para sempre registados num papel que também ele, sob a influência do Tempo, irá amarelecer, dobrar-se...
A solução reside em manter o brilho, esquecer o amarelo e os pós corrosivos, contrariando essa doce dualidade que nos habita e que o Tempo só agudiza...

sábado, maio 06, 2006

Será a Justiça justa?

Hoje à noite assisti à peça Os Justos de Albert Camus pela Companhia Mala Voadora no Teatro Viriato.
Em linhas gerais, a peça trata da temática do terrorismo e do triunfo dos grandes ideais em nome da revolução socialista. É, sem sombra de dúvida, um tema de uma actualidade tremenda. Camus escreveu esta que foi a sua última peça em 1949, mas nunca como hoje o terrorismo tão na ordem do dia. Serão todos os meios justificáveis para atingir "o" fim? Existirá mesmo esse estádio último?
A acção desenrola-se na Moscovo czarista do início do séc.XX em que uma célula terrorista planeia um atentado contra o Grão-Duque, iluminados pela crença na libertação do povo russo e no culminar da tirania e do despotismo. O caminho para a liberdade faz-se com a morte, com o ritual sacrificial de todos os que acreditam na revolução socialista, com um fervor verdadeiramente religioso.
Há o idealista que não abdica da Poesia e da Beleza, mas que se prontifica a cometer o atentado contra o Grão-Duque, pela revolução e pela Humanidade. Há o revoltado que desistiu do lirismo, canalizando o seu ódio profundo e visceral contra tudo e contra todos. Há o líder (im)perturbável e firme nos seus propósitos e uma mulher que, apesar de se dedicar ao ideal da revolução, anseia por levar uma vida despreocupada e ser amada e egoísta, sem ter de pensar em toda a Humanidade. Apreciar a beleza de um dia de sol, deixar-se percorrer por uma imensa ternura, longe da brutalidade da vida real.
De costas voltadas para o mundo, num ambiente escuro de luzes ténues e tímidas, um grupo de "justos" congemina o atentado e, com este, almejam libertar o oprimido povo russo. Porém, todas as crenças são sempre assombradas pela dúvida. Será mesmo a justiça, a todo o custo, justa?
Não podia deixar de mencionar alguns apontamentos cénicos dignos de registo. O público e os actores partilham o palco, há momentos em que os actores lêem literalmente as falas e outros em que se despem dos personagens e conversam, na sua própria pele, as últimas falas são projectadas em acetatos, em silêncio...
As palavras de Camus são belíssimas, cruas e poéticas, ao mesmo tempo. Um autor que nos impressiona pelo poder de impregnar de beleza as verdades mais brutais da existência. Foi ele que trouxe Sísifo à superfície, aquele que carrega o rochedo até à montanha e, de novo, para baixo, num eterno e inevitável percurso absurdo. Nós somos Sísifo, o homem absurdo, e todos os dias carregamos esse rochedo. Podemos, por vezes, não sentir-lhe o peso, ignorando-o até, mas isso não significa que ele não exista.

"É mais fácil morrer pelos dilemas do que viver com eles."Albert Camus, Os Justos
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