quinta-feira, maio 11, 2006

"A minha pátria é a minha língua"
















Há algumas semanas, li uma notícia na Visão que me deixou particularmente rejubilante e, ao mesmo tempo, muito curiosa: a Língua Portuguesa já tem um museu! Desta feita, no país que, no meu modesto entender, trata melhor o nosso belo idioma: o Brasil, obviamente.
Podemos estranhar e até nunca chegar a entranhar os fatos (factos), o ótimo, os ternos, as aeromoças, as idéias, a grana, o gramado, o zagueiro, o escanteio, o cotidiano e afins, mas, sem dúvida, o brasileiro médio tem uma consciência muito mais aguda da língua portuguesa. Veja-se o exemplo das entrevistas de rua no Brasil: qualquer cidadão fala com fluência e disserta acerca de um qualquer tema, com uma naturalidade desarmante.
O reverso da medalha vê-se em Portugal com os "prontos", os "hádes" ( um autêntico Hades ou inferno!), os "de maneiras que" e outros atentados linguísticos impronunciáveis, que fazem o pobre Camões revirar no seu túmulo, a todo o instante!
O Museu da Língua Portuguesa situa-se em São Paulo, num edifício centenário belíssimo que era, outrora, uma estação de caminhos-de-ferro. Daí o binómio Museu da Língua Portuguesa/Estação da Luz. E, na verdade, é de luz que se trata: a luz da valorização do idioma português e do respeito que ele nos merece, a nós, falantes nativos da língua de Camões e de Machado de Assis.
Somos a quinta língua mais falada no mundo e, por exemplo, ao nível da música (salvo raras e meritórias excepções) temos pruridos em fazer da língua portuguesa a matéria-prima, constituindo o Inglês a saída mais fácil, a que supostamente abre portas. Mas fechamo-las à riqueza, à pluralidade de caminhos que podemos trilhar... em Português! A nossa língua encerra em si um potencial poético tremendo, abre-se a intermináveis jogos e trocadilhos, atrai-nos, ludibria-nos...
Não foi só Pessoa que me fez amar a língua portuguesa, mas também Chico Buarque, Caetano, Jorge Amado, José Eduardo Agualusa, o inigualável Mia Couto e tantos e tantos outros. Não será por acaso que nos países de expressão portuguesa o poder da invenção linguística é declaradamente maior. A mestiçagem e a fusão inter-cultural insuflaram a língua de novas e infinitas possibilidades, sendo a primeira um dos pilares temáticos deste Museu.

Deixo aqui a letra de uma canção de Caetano veloso, intitulada (e muito estrategicamente escolhida) Língua que consiste numa genial síntese da essência do Português:

Gosto de sentir a minha língua roçar
A língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
A criar confusões de prosódia
E um profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior
E quem há de negar que esta lhe é superior
E deixa os portugais morrerem à míngua
Minha pátria é minha língua
Fala Mangueira

Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode
Esta língua

Vamos atentar para a sintaxe paulista
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas
Cadê?
Sejamos imperialistas
Vamos na velô da dicção choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Hollanda resgate
E Xeque-mate, explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Sejamos o lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em Ã
De coisa como rã e ímã...
Nomes de nomes como Scarlet Moon Chevalier
Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé, Maria da Fé
Arrigo Barnabé

Incrível
É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Se você tem uma idéia incrível
É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o recôncavo, e o recôncavo, e o recôncavo
Meu medo!

A língua é minha Pátria
E eu não tenho Pátria: tenho mátria
Eu quero frátria

Poesia concreta e prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
Será que ele está no Pão de Açúcar
Tá craude brô, você e tu lhe amo
Qué que'u faço, nego?Bote ligeiro
Nós canto falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem,que falem.

1 comentário:

al cardoso disse...

Que dizer, quando tudo ficou e muito bem dito, nesta entrada.

Um abraco beirao.

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