quinta-feira, junho 22, 2006

Lisbon story

Segundo um estudo realizado pelas Selecções do Reader's Digest (este nome parece quase jurássico, remetendo para aquelas revistinhas que se liam há muitos anos atrás... será isto a velhice?), Lisboa é uma das cidades mais simpáticas do mundo. Nova Iorque, por sua vez, seria a cidade mais bem-educada do planeta.
Lisboa é muito mais do que uma cidade simpática. Encerra em si uma magia, uma beleza indizível que se entranha nos nossos poros e nos consome despudoradamente.
Nunca fui dada a qualquer tipo de bairrismo, nem tão pouco a um sentimento de pertença a uma dada região. Acho simpático ser beirã, empolgo-me com os feitos heróicos de Viriato, mas o meu sentido de identidade beirã é demasiado etéreo, pois tal como Sócrates (o filósofo helénico!), sinto-me literalmente "cidadã do mundo". Posso ser de Lisboa e de Berlim (outra cidade que eu amo incondicionalmente), do Porto (outra paixão incomensurável) e de Zagreb. Um pouco como o grande e visionário António Variações que dizia ser de "algures entre Braga e Nova Iorque".
Porém, Lisboa também pode ser voraz, devorando-nos por completo. Lisboa não se compadece com a lentidão, a tranquilidade, tudo nela é vertiginoso, frenético, terminal. Embora se possa contrariar esse ritmo alucinante ao mergulhar na Lisboa antiga, nos seus bairros de gentes afáveis que estendem a roupa nos cordões e aí fica, indelével, a balançar todo o dia. Disso se fazem postais turísticos. Very typical, indeed!
Aí vivi quase uma década e não me recordo de um único dia sequer em que a beleza da cidade me fosse indiferente. Por mais cego que se ande, por mais afogado em preocupações, em stress quotidiano que se esteja, nunca se pode fechar os olhos a essa luz inefável que banha Lisboa e que muitos já tentaram explicar. Será do Tejo que todos os dias assume uma totalidade diferente? Não importa. É melhor não racionalizar o que se sente. Os argumentos e as explicações exaustivas retiram a beleza às coisas.
Depois de um dia intenso, daqueles que nos sugam a alma e a força anímica, apanhar o 15 que vai de Algés à Praça da Figueira é, de facto, o melhor antídoto. De preferência no Verão e sentir o vento a embalar-nos, deitar a cabeça para fora da janela e ter quase vontade de ser um daqueles miúdos rebeldes que vão à boleia do eléctrico, sem qualquer tipo de pudor. E deixarmo-nos ir, com imensos turistas em nosso redor, é certo, e trilhar percursos que já foram os de Pessoa.
Do que sinto mais falta em Lisboa é da atmosfera multiracial, multiétnica, num pluralismo deslumbrante. Adorava ir ao Centro Comercial do Martim Moniz, ao supermercado indiano comprar o verdadeiro caril, e sentir-me estranha. Em Lisboa, todos são forasteiros. Poucos são mesmo de lá. Estão de passagem. Fixam-se para sempre ou não. Um dia saem em busca de maior qualidade de vida. Não tenhamos dúvidas: em Lisboa não se vive, sobrevive-se. Excepto aqueles que têm muito. No resto do país, é possível viver, no verdadeiro sentido da palavra e dedicar-se a um sem número de tarefas, pois o dia dá quase a sensação de ser elástico. Em Lisboa, os dias sucedem-se à velocidade da luz, arrasadores.
Há dias assim. Em que se acorda submergido por uma maré de doce saudosismo e que, por mais que se olhe para a luz envolvente, não se vê "a" luz. De Lisboa. Obviamente.
Lisboa é como um daqueles amores que nunca se esquece e que, apesar de não ter resultado, temos sempre esperança de reatar. Porque estará sempre em primeiro.
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