sábado, julho 29, 2006

Férias ou da (difícil) arte de não fazer nada


Enfim, férias! Não é, certamente, um pensamento original, mas nesta altura do ano, com o cansaço acumulado do quotidiano a escorrer pelos poros, este é uma espécie de grito do Ipiranga. E o mar o único horizonte...
Uma coisa que me surpreende bastante, na época estival, é a obsessão dos media em fazer listas de potenciais obras a ler na praia. Como só se lesse no Verão e todas as outras estações fossem um autêntico deserto de ignorância e de estupidificação. Quem ama as palavras, ama-as sempre e não está dependente das intempéries (ou não) ou do facto do sol brilhar com maior ou menor intensidade.
É muito difícil entregarmo-nos à complexa arte de não fazer nada, que é geralmente a meta que se estabelece nas férias, pois a tentação de estar sempre a fazer qualquer coisa é quase inescapável. Nos tempos frenéticos em que vivemos - em que se exige às pessoas que se excedam e que sejam altamente produtivas, cumprindo uma série infindável de tarefas ao mesmo tempo e que, de preferência, não almocem nem jantem - sente-se uma pressão inconsciente no sentido de criar qualquer coisa.
Por vezes, a paragem ou o abrandamento do stress quotidiano pode ser altamente deprimente. Na vertigem dos afazeres profissionais, o indivíduo tende a esquecer-se de si próprio e de se anular por completo em função dos "objectivos" que lhe são impostos. Quando há, efectivamente, tempo para parar e pensar e reflectir sobre o rumo da vida, ou simplesmente sobre os contornos que esta assume, podemos chegar a conclusões preocupantes. Por isso é que há pessoas que se recusam a tirar férias durante anos a fio. O trabalho assume-se como o destino escolhido (pouco paradisíaco, convenhamos!), a fuga de eleição.
As férias, apesar de geralmente serem sinónimo de evasão, podem revelar-se uma oportunidade única de nos conhecermos melhor e de traçarmos as nossas próprias metas pessoais, essas sim decisivas para o bem-estar emocional e para o reforçar de defesas.
Gosto de, no silêncio das ondas, ouvir a minha voz interior...

quinta-feira, julho 27, 2006

Ele é Carioca


Chico Buarque está de volta com um álbum de originais, depois de 8 anos. A velha máxima que geralmente se aplica ao (também) inconfundível Vinho do Porto - "melhora com a idade" - assenta-lhe na perfeição! Nada em Chico Buarque é redundante ou cinzento.
"Carioca" é mais uma obra-prima deste poeta grande da língua portuguesa que derrama para as suas letras torrentes de magia e de uma sensibilidade imensa. A essência da poesia de Chico Buarque reside na consciência da língua como material lúdico, que se pode manusear, atirar ao ar e reconstruir sem cessar.
As palavras de Chico vão ao âmago de nós mesmos e surpreendem-nos sempre. Ouvimos as suas músicas com o espanto iniciático da primeira vez. A juntar ao poder avassalador da poesia, uma voz quente e terna, ligeiramente nasalada, que acaricia e embala.
Há uma edição especial à venda que, para além do CD, inclui um DVD com as gravações deste novo álbum. É muito interessante testemunhar o processo criativo em que os músicos, de carne e osso como nós, e não uns quaisquer deuses inatingíveis, são filmados no seu "habitat natural".
Ele é carioca e todos nós um pouco, depois de ouvir este álbum...

Deixo aqui poesia pura:

Sempre
Eu te contemplava sempre
Feito um gato aos pés da dona
Mesmo em sonho estive atento
Para poder lembrar-te sempre
Como olhando o firmamento
Vejo estrelas que já foram
Noite afora para sempre
O teu corpo em movimento
Os teus lábios em flagrante
O teu riso e teu silêncio
Serão meus ainda e sempre
Dura a vida alguns instantes
Porém mais do que bastantes
Quando cada instante é sempre
Chico Buarque/2006

quarta-feira, julho 26, 2006

J'aime/ Je n'aime pas...


Gosto...
de sentir o cheiro da terra molhada
de sorrir
de enterrar os pés na areia
de ouvir o vento furioso
de despertar sorrisos
de ouvir bossa nova vezes sem fim
de me surpreender com os poemas que conheço de cor
de me deitar e sentir o peso do corpo a desvanecer-se aos poucos
de sentir a textura do algodão doce
de múltiplas cores
de partir
de enterrar os saltos na relva
de boiar
de adereços excessivos
de andar de avião
de fazer as malas
de planear
de constantes contradições
de Teatro
de ver filmes até à exaustão ao ponto de decorar as falas
de chuva lá fora
de texturas suaves
de voltar aos sítios onde fui feliz
de ceder à tentação

Não gosto...
de ficar
de indiferença
de esferovite
de falta de modéstia
de palavras ocas
de confrontos
do pontual barulho estridente do giz no quadro
de passar debaixo de gruas ou de escadas
de superstições
de répteis
de me confrontar com os meus medos
de perder as pessoas de quem gosto
de sentir saudades
da irreversibilidade
de cinzentismo
de conversas banais
de rotina

quinta-feira, julho 20, 2006

Encontros e Despedidas


O tempo passa e as pessoas vão-se afastando aos poucos, tentando, todavia, não provocar uma ferida muito óbvia. Com a discrição que se impõe. As vidas seguem rumos diferentes, como se tornou hábito dizer, e nós fingimos acreditar nessa irrevogável premissa. É mais simples mentir a nós próprios do que dar de caras com a verdade. E, por vezes, as pessoas afastam-se mesmo. As memórias que outrora carregavam no regaço perdem-se pelo caminho, esvaem-se, transformam-se nem sei bem em quê.
A distância geográfica não passa de uma desculpa confortável. E as pessoas vão-se fechando cada vez mais no seu casulo, sobre si mesmas, isoladas do mundo envolvente. É a solidão dos tempos modernos. Para a debelar, as pessoas consomem com frenesim ou então enviam sms, porque falar está mesmo fora de questão. É demasiado íntimo, vincula-nos a um grau insuportável. Trocam-se palavras de ocasião, tenta-se fazer um resumo dos acontecimentos principais (por vezes, não há nada de estrondoso para se contar, mas mesmo assim tentamos usar todo o nosso poder criativo). Todos somos estrangeiros perante os outros e nós mesmos
também.
Sinto infinitas saudades desses tempos em que achávamos que as relações eram eternas e os laços inquebrantáveis, em que não precisávamos de telemóveis, em que dávamos um abraço profundo e sentíamos o calor do outro, a sua humanidade. Hoje em dia, tudo é fugaz, virtual, feito de evasões sucessivas.
E tudo isto porque lá fora se ouvem os risos límpidos das crianças a brincar, numa inocência iniciática da qual já não restam quaisquer vestígios.
… Apesar de cá dentro de mim, numa daquelas salinhas recônditas, lá no fundinho de mim, continuar a pular, a rir, a brincar e a dar as mãos a todos os meus amigos que viverão sempre em mim, nessa salinha longínqua …

A minha pátria é a minha língua

O idioma português é falado por 250 milhões de pessoas, figurando em quinto lugar na lista dos idiomas mais falados em todo o mundo.

Nesse sentido, é urgente que a língua portuguesa se torne um dos idiomas oficiais da ONU, dada a sua inegável importância à escala mundial.

Dê o seu contributo e assine a petição que visa o reconhecimento oficial do Português. É com pequenos mas significativos passos que se vai trilhando o percurso da defesa e valorização da nossa língua. Para que se possa ouvir a voz da lusofonia!

Clique aqui para assinar a Petição

terça-feira, julho 18, 2006

O apelo da diferença

Em Portugal, é cada vez maior o número de pessoas que está a aprender mandarim (erroneamente designado chinês), a língua mais falada no mundo.
Uns são movidos pelo apelo da diferença e outros por questões de ordem pragmática, uma vez que a China se está a afirmar na cena internacional como a próxima grande potência económica e há, logicamente, todo um mundo de oportunidades de negócio que se abre a quem "domine" o mandarim.
Daí ser tão decisivo tentar (reforço o verbo) aprender este idioma tão peculiar constituído por caracteres ideográficos, isto é, que expressam ideias e conceitos. Li uma vez que um chinês médio precisava de dominar 500 caracteres para conseguir ler um jornal!
De facto, a China é um lugar distante e essa mesma distância cultural e civilizacional reflecte-se na profunda estranheza que ressalta do idioma chinês, quase intransponível, uma verdadeira cortina insondável. Como se a própria Muralha da China se transpusesse para o território da língua. E bem sabemos que é difícil ser-se Copperfield para a atravessar!...
A sensação que se tem ao vislumbrar os caracteres chineses (ou cirílicos ou árabes) assemelha-se muito àquela que tínhamos, em crianças, quando víamos as legendas dos filmes sem ainda saber ler. É a sensação de puro analfabetismo, o que encerra em si um fascínio indizível...

segunda-feira, julho 17, 2006

(In)solúvel?

É com apreensão que assistimos ao desenrolar dos acontecimentos no Médio Oriente e ao recrudescimento da tensão entre israelitas e libaneses que já se traduziu num elevado número de vítimas de ambos os lados. O crescendo de ataques não auspicia nada de bom.
Não é meu intuito fazer um historial de um conflito já histórico, apenas reflectir sobre a (in)solubilidade do mesmo.
O Médio Oriente parece mesmo condenado a um destino de destruição, de caos e de permanente confronto. Haverá, de facto, solução para a questão israelo-palestiniana? É precisamente esta que se encontra na base de toda a discórdia e de uma tensão mortífera que se estende a toda a região e aos seus povos.
Até se encontrar a tão desejada solução da criação de dois estados autónomos, que coexistam em pleno direito, o sangue irá continuar a correr e a ser derramado. As feridas adensam-se cada vez mais e o sentimento de aversão e de repulsa em relação ao outro – o “ocupado” ou o ”ocupante”, consoante a perspectiva - tornar-se-á basicamente incontrolável. A resolução do problema (é mais do que um problema. Semanticamente, parece quase impossível encontrar um conceito que traduza a avassaladora dimensão desta questão) passa pelo diálogo e não pela retaliação constante.
Na cimeira de paz de Camp David, em 2000, que reuniu o então primeiro-ministro israelita Ehud Barak e Arafat, sob a orientação de Bill Clinton, esteve-se muito perto da paz, de uma solução efectiva. Nunca como então se acreditou na solubilidade do conflito israelo-palestiniano.
A partir daí, agudizaram-se as tensões entre estes povos, trilhando-se um caminho de extremismo que, a avaliar pelos últimos acontecimentos, não augura um final feliz.
As vítimas são sempre as mesmas. Civis inocentes de ambos os lados das trincheiras que não foram bafejados pela sorte de nascer num ponto do planeta pacífico, em que se pode estar tranquilamente em casa a ver televisão sem medo de se ser atingido por mísseis ou em que se pode apanhar um autocarro sem medo que este de desfaça em mil pedaços.
Quando é que o mundo se irá mobilizar por uma solução de paz para o Médio Oriente?
Antes que tudo se desmorone e seja tarde demais. Os rios de sangue que insistem em correr
É preciso um happy end. Urgentemente.

sexta-feira, julho 14, 2006

Eternamente "portunhol"/"portuñol"?


O povo português, apesar da filosofia do "cá se vai andando" e dos irritantes "inhos", tem imenso sentido de humor em relação a si próprio. Por isso é que surgem sites absolutamente hilariantes como o Portugal no seu melhor que sistematiza, por imagens, a comicidade do nosso país.
Das ementas tremendamente mal traduzidas (os percebes numa tradução muito livre tornaram-se "understands"num Inglês que só existe aqui) aos letreiros, das sinalizações incongruentes (postes no meio de cruzamentos!) às reclamações escritas em Português macarrónico de fazer o pobre Camões revirar no seu ancestral túmulo, há todo um mundo de potencial cómico por descobrir. Mas se assim não fosse, não metíamos piada...:)

Post Scriptum - Claro que "typical" estaria correcto...

terça-feira, julho 11, 2006

Rabiscos de cor


Desenhar o percurso. Sempre a cores. De diferentes tonalidades se compõe o quotidiano. Convém doseá-las, saber misturá-las e não incorrer em exageros desnecessários. O belo vive algures entre a harmonia e a contenção. Tudo o que é excessivo conduz à ruptura.

"Est beau ce qui procède d'une nécessité intérieure de l'âme. Est beau ce qui est beau intérieurement. " Kandinsky

segunda-feira, julho 10, 2006

Dans la chaise longue

- Deite-se, por favor!
(Nunca percebi muito bem o porquê de ter de me deitar para falar do passado. Alegam-me que meu corpo é uma via e que através da sua horizontalidade, perpassam os fluxos da regressão e das memórias. Tantas memórias que se tornam quase insuportáveis. Eu finjo que acredito nisso do ter de me deitar. A culpa é do Freud.)
- Pode começar.
(Hoje foi uma daquelas noites em que fui totalmente consumido pela insónia. A minha cabeça era um recipiente a transbordar de pensamentos desconexos, imensos pensamentos ao mesmo tempo à luta entre si, sem piedade. Sempre que isto acontece nunca chego a nenhuma conclusão, nem tão pouco a uma ideia brilhante. Constato apenas o caos que me habita e resigno-me à minha condição de eterno espectador da minha vida. Sei bem a génese de tudo isto. Desde que o perdi, desde que deixou de habitar o reino dos vivos. Tenho saudades daquelas nossas conversas interessantes, dos jogos de futebol que víamos em conjunto, das tardes a repassar toda a matéria de História e da 2ª Grande Guerra. Ela diz-me que tenho de “trabalhar interiormente” a tua perda. Tretas insanas. Por mais que tente encontrar um sentido, jamais terei sucesso nessa empreitada. É um caso perdido, é uma das grandes perguntas que nunca terão resposta, que nunca ninguém conseguiu responder, nem mesmo os grandes pensadores e filósofos. Dos Gregos até nós há uma constante de total ignorância acerca das questões fundamentais da condição humana. Ainda ninguém apagou essa inquietação primordial chamada morte. O mesmo se passa com as paixões meteóricas, daquelas que nos enchem a alma e que, de um dia para o outro, nos varrem por completo. Chegam e logo desaparecem. É outra espécie de morte. Essa pessoa desaparece, esfuma-se no ar, etérea e improvável. Talvez nunca tenha existido. E se um dia ela “ressuscitar”? Boa tarde, como estás? Que tens feito? Sim, já soube da novidade! Parabéns. Recuso-me a esse jogo hipócrita! É preferível olhar e seguir caminho. Afinal de contas, os mortos não se passeiam pelas ruas da cidade, segundo consta. Mas nunca me vou esquecer de ti. És sangue do meu sangue e há laços que nunca se quebram. Por mais que me tentem impingir aqueles discursos fatalistas do fim da família. Tretas. Vivemos num mundo de mentiras sucessivas…)
- Não gostaria de…?
- Não, hoje não há nada para dizer. Quero apenas ficar em silêncio. Dans la chaise longue

sexta-feira, julho 07, 2006

That's the spirit!

Do Futebol como metáfora

Tentei evitar este tema a todo o custo, confesso, mas ocorreu-me um aspecto que me pareceu interessante debater.
(Geralmente, as pessoas com interesses intelectuais mais vastos tendem a ter uns certos pruridos em admitir que gostam de futebol. Tinha um Professor na Faculdade de Letras, em Lisboa, que para se defender de qualquer ataque imprevisto, alegava que “até o Ruy Belo gostava de futebol”. Outros apoiam-se no Albert Camus, que, além de existencialista convicto e de teorizar sobre a condição absurda do Homem, não resistia a uma partida entre 22 homens absurdos a correr de um lado para o outro).
Parece óbvio que o sentido nacionalista (na acepção positiva do termo) não se pode esgotar nos jogos da nossa Selecção. No entanto, um evento tão importante como o Mundial de Futebol, acaba por mover e mexer com as emoções ao máximo e de fazer ressaltar o sentido de pertença a uma nação e de união colectiva. Trata-se, em última instância, da identidade nacional e do desejo que nutrimos de esta se afirmar num palco globalizado e de triunfar, se possível.
Mas não foi possível e mais uma vez ficámos aquém da concretização de um sonho. Logo após a fatídica partida com os Gauleses, ouviam-se expressões como “morrer na praia”, “é o nosso fado”, entre outras. Os Portugueses têm uma característica deveras curiosa que consiste em oscilar, despudoradamente, entre uma crença cega na vitória e o mais absoluto derrotismo. Não somos um povo de meios-termos, de facto. Podemos acreditar, em simultâneo, e sem que isso nos cause qualquer problema de consciência, na possibilidade de alcançar o Olimpo e na inevitabilidade de um fim anunciado. Os deuses, infelizmente, não estiveram do nosso lado.
A grande metáfora que se extrai deste sentido de desilusão, mas também de profunda injustiça (a meu ver, Portugal e a Alemanha deviam encontrar-se na final, pois mereciam-no muito mais do que as equipas que efectivamente vão disputar a almejada taça) é a imagem do “quase”. No fundo, aquela ideia de sermos o país do “quase” está inconscientemente cravada em cada Português. Como naquele anúncio do Danoninho (passo a publicidade e o carácter prosaico do exemplo), “falta-nos um bocadinho assim”. Estamos sempre à espera do Messias, desse D. Sebastião que virá por entre as brumas da História, resgatando o sentido de orgulho nacional e de prestígio internacional, num mundo que teima em encarar-nos como uma “província de Espanha”. Pobre D. Afonso Henriques.
Fazendo de novo a ressalva de que o sentido nacionalista não se confina aos resultados da Selecção nacional - pois ter um sistema de saúde, de educação, de justiça e fiscal que, de facto, funcionem são razões muito mais importantes e decisivas do que as lides futebolísticas – creio que temos de nos orgulhar dos feitos históricos desta Selecção e do seu timoneiro. Estamos entre as 4 melhores Selecções do Mundo. Não é prémio de consolação. É um facto incontestável, uma vitória incontornável!
Agora temos de torcer para que Maniche seja considerado o Melhor Jogador do Mundial!
Vejo o jogo que se segue mais como uma partida amigável do que propriamente uma competição acérrima. Afinal, este é o Mundial “to make friends”! Esse, sim, deveria ser o jogo da final…
Vou já ler Ruy Belo para me redimir deste texto!... Ainda por cima longo!...

terça-feira, julho 04, 2006

Boa noite e bons livros
















Tenho esta mania irritante de ler muitos livros ao mesmo tempo e de, no fundo, me ser cada vez mais difícil concentrar num só e lê-lo de fio a pavio.
Andava eu na Fnac de Coimbra (creio que já não tardará muito até que a Fnac chegue à cidade-berço de Viriato...), nas minhas deambulações habituais pela secção de Literatura, eis senão quando me deparei com um romance que, desde logo, me cativou pelo título - Alentejo Blue - sendo da autoria de uma escritora britânica com raízes no Bangladesh, Monica Ali (na foto).
Esta amálgama cultural é, à partida, extremamente cativante, despertando a curiosidade do leitor mais ávido e fervoroso.
Monica Ali foi considerada pela Granta uma das 20 escritoras mais promissoras do Reino Unido, após a publicação do seu primeiro romance Brick Lane.
No entanto, o que mais me atraíu neste romance (que comecei a ler ontem à noite) foi a questão da perspectiva. Como é que somos radiografados por um olhar externo? Tratando-se, sobretudo, de uma autora que vive no cruzamento de duas culturas: a britânica (e ainda com resquícios imperiais e colonizadores) e a cultura do Bangladesh, antiga colónia do Império Britânico.
Na entrevista que deu à revista Actual do Expresso deste sábado, Monica Ali afirma não pertencer a qualquer cultura vigente. Interessa-lhe escrever sobre uma plêiade de temas, não se cingindo ao rótulo redutor do "romance multicultural". Daí ter optado por escrever sobre o Alentejo - para a autora, a personagem principal do romance- . O Alentejo e, em última instância Portugal, é um lugar estranho, diferente, exótico, envolto num contexto sócio-cultural diverso.
Foi, de facto, uma escolha muito inteligente por parte da autora, pois só demonstra um saudável desejo de não ser previsível e de alargar os terrenos temáticos dos seus romances.
Do ponto de vista de um Português, parece muito empolgante ler sobre o nosso país através de um olhar embebido noutras culturas de origem.
Vou devorar este Alentejo pintado em tons de azul!...

segunda-feira, julho 03, 2006

Madrid vista da janela de um táxi

... cujo condutor alegava ter família portuguesa...
(eles gostam mais de nós do que propriamente o inverso, não é?...)
Por supuesto!
Madrid é imponente, majestosa, e ao mesmo tempo acolhedora e familiar, mas ainda assim, a luz de Lisboa...

Madrid por la noche


34 graus em Madrid... à noite...
E por aqui o Verão teima em não aparecer. Intransigente.
Durante a semana, ainda há leves resquícios de calor. Aos fins-de-semana, o céu assume tristonhos matizes cinzentos e lá se esvai uma possibilidade de nos estirarmos na toalha de praia e de sentirmos a areia a escorregar, apaziguadora, entre os pés.

... será conspiração do patronato?...

sábado, julho 01, 2006

Cidadania



























O Teatro Viriato já vem habituando os seus espectadores assíduos a uma programação bastante diversificada, onde várias vozes performativas se cruzam e interagem.
Ontem subiu ao palco - e com o espectáculo, o próprio público - o projecto Cidadania, a partir do texto homónimo de Mark Ravenhill, com encenação de Graham Pulleyn.
Antes de entrar no cerne temático desta peça altamente provocadora (mas não menos realista), parece-me importante destacar que Graham Pulleyn foi o fundador do Teatro Regional da Serra do Montemuro, onde permaneceu durante 12 anos, tornando-se depois encenador de jovens.
A peça Cidadania insere-se num projecto mais amplo denominado Panos, com génese em Inglaterra (Shell Connections do London National Theatre), e que envolve sete escolas do nosso país.
Desiludam-se aqueles que pensam que esta peça é escrita numa linguagem muito densa ou pesada. Cidadania é feita de jovens para jovens e, obviamente, para todos aqueles que se interessem pelo intrincado mundo da adolescência. Neste complexo universo, há uma infinidade de perguntas e um desejo tremendo de respostas, que nem sempre emergem.
Por outro lado, todos os protagonistas da peça - cópia fiel dos jovens reais, porque também eles jovens em demanda, assolados por perguntas sem resposta - são confrontados com a questão crucial da escolha e, sobretudo, com a difícil afirmação da individualidade no contexto de grupo. Os adolescentes, por norma, degladiam-se com o árduo dilema de serem autónomos, sem, no entanto, se demarcarem do grupo que os e se monitoriza, como um verdadeiro juiz implacável. A linha que separa a integração da desintegração é muito ténue.
A nota dominante desta peça é, sem dúvida, o humor e como, através dele, podemos problematizar questões tão importantes como a cidadania e o exercício das escolhas pessoais num contexto social. O uso do calão é constante, numa linguagem fidedigna que, inevitavelmente, desperta a gargalhada (no fundo, aquela sensação quase infantil de nos regozijarmos com as palavras proibidas). Os puffs têm muitos elementos fálicos e as palavras de ordem escritas no chão são percorridas também pelo sexo, a obsessão predilecta de qualquer adolescente.
Os contextos podem divergir de geração para geração. Os jovens de hoje em dia vivem num universo dominado pela tecnologia, pela Internet, pelo ritmo frenético que já é uma realidade nesta geração.
Ainda que a adolescência dos tempos actuais se componha de outros matizes que não os das gerações anteriores, o desejo de transgressão, de experienciar e de descobrir é exactamente o mesmo. E sempre assim foi desde os primórdios da Humanidade. É nesse período que se forma a personalidade e que se traçam as escolhas fundamentais da existência.
Haverá sempre dúvidas, hesitações, avanços, recuos. No fundo, a adolescência nunca deixa de fazer sentir a sua marca. As preocupações assumem outros contornos, mas a urgência da escolha mantém-se. E é dessa matéria-prima que se faz a cidadania.
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