quinta-feira, setembro 28, 2006

Translating kills

Ontem estava eu a fazer um dos meus zappings improváveis (com este tempo, só me apetece ficar em casa, perdida em pensamentos a tentar traçar rumos para que as coisas façam sentido), quando deparo com um documentário/debate sobre os versículos de toda a discórdia: Os Versículos Satânicos de Salman Rushdie que, à luz dos tempos actuais, seria quase um livro-suicida.
Foi em 1993 que rebentou este caso bombástico e, a avaliar pelas imagens quase rarefeitas, em que se vê um ayatollah Komeini todo viçoso e um Rushdie completamente desgrenhado, e apanhado numa teia de fúria demagógica, parece já há uma eternidade.
Porém, tendo como exemplo a recente polémica das caricaturas de Maomé, os fundamentalismos exacerbados não esmoreceram. Muito pelo contrário, parecem ganhar um renovado fôlego, asfixiando por completo o princípio da liberdade de expressão.
Nesse documentário, o qual intercalava com um debate que contava com a presença do líder da comunidade islâmica portuguesa e de um especialista em História das Religiões, abordou-se a figura do tradutor e, neste caso concreto, dos tradutores de Rushdie pelo mundo fora.
Há dois cenários possíveis: ou não se fala dos tradutores sequer ou quando se fala, é sempre numa óptica extremamente negativa. (o eterno discurso do tradutor/traidor e da impossibilidade de tradução, da perda irreparável em tradução, etc., etc.)
No entanto, neste documentário, o ardiloso ofício da tradução aparecia envolto em contornos mais letais. O tradutor norueguês dos Versículos Satânicos tinha sido alvejado, o tradutor italiano esfaqueado e o tradutor japonês acabara mesmo por perecer às mãos de um louco que se sentia lesado pela obra de Rushdie.
Afinal, a tradução, além de ser completamente votada à total indiferença (só quem nunca traduziu é que não sabe que podemos andar semanas a fio a tentar encontrar a tradução perfeita (?) de apenas uma palavra que nos parece tão óbvia, mas…), de ser mal paga (sempre tarde e a más horas, quando o é), pode ser uma profissão de risco!
Devia desistir do meu sonho ou resistir e construir um bunker?...

domingo, setembro 24, 2006

Medeia ou a tragédia revisitada


A nova temporada do Teatro Viriato abriu com a peça “Medeia”, resultante de uma parceria entre a Companhia Paulo Ribeiro e o Chapitô, numa iluminada encenação de John Mowat.
É surpreendente e ao mesmo tempo desarmante o tremendo poder dos grandes clássicos gregos e a sua actualidade, abrindo-se também a novas e renovadas leituras.
A tragédia original “Medeia” da autoria de Eurípedes centra-se na temática do ciúme obsessivo e do germe da destruição que nele habita. Por ciúme de Jasão, que lhe fora infiel, a terrífica Medeia assassina os próprios filhos, perpetrando esse crime horrendo que selou uma vingança alucinada.
Todos os elementos da tragédia de Eurípedes são evocados nesta “Medeia” revisitada, no entanto o tom cómico sobrepõe-se ao trágico, embora o cómico seja a forma mais refinada de trágico. O riso é uma constante nesta peça, o que atenua a verdade sangrenta do enredo da tragédia.
Com escassos adereços em palco, os quatro brilhantes protagonistas – Leonor Keil, Marta Cerqueira, Jorge Cruz e José Carlos Garcia - recriam o ambiente dessa Grécia antiga, ouvindo-se sonoridades contemporâneas e o Rei Egeu a falar sobre o seu “apartamento na zona histórica de Atenas”! Com quatro tábuas apenas se reconstrói um navio que ruma a Cólquida, numa missão "quase impossível" de obtenção do Velo de Ouro.
Esta peça tem uma forte componente física, denotando-se o primado do corpo sobre a palavra e das suas múltiplas possibilidades. Os diálogos são consistentes e o encadeamento genial.
Esta Medeia revisitada é um apelo à imaginação e à reflexão que se prolonga para além do riso.

sexta-feira, setembro 22, 2006

200.000 (duzentos mil)?

Ontem foi amplamente divulgada nos meios de comunicação social a iniciativa de um conjunto de empresários portugueses, designada “Compromisso Portugal”, que avançaram uma série de medidas que visam o relançamento da economia portuguesa e do aumento da competitividade no panorama europeu.
De entre as propostas, ressalta uma que é manifestamente polémica e que consiste, nada mais nada menos, do que no despedimento de 200.000 mil funcionários públicos! O número é, de facto, colossal, e mais assustador é o desprendimento com que se faz esta proposta. Tratando as pessoas com a fria lógica dos números. Como se fossem meros dígitos, desprovidos de vida, de corpo, de alma.
Não pretendo discutir da viabilidade ou inviabilidade desta assustadora medida, pois não tenho os conhecimentos económicos que me permitam fundamentar uma posição nesta matéria. Fiquei apenas revoltada com essa cifra aterradora e com a possibilidade de se poderem vir a concretizar os cenários mais negros, em termos de desemprego. E todos temos direito à indignação. E a lançar questões. Afinal, de que tonalidades se fará o futuro?

terça-feira, setembro 19, 2006

I have a dream


"O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente souber sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro." (Fala de Tuhair)
Excerto da obra de Mia Couto Terra Sonâmbula

As grandes verdades da vida fazem-se ecoar através de palavras simples que, de tão breves, nos desarmam sem dó nem piedade. Iluminam-nos com as certezas que já temos à partida, mas que teimavam em não se soltar da boca. Podemos brincar com as palavras, revirá-las, remexê-las, virá-las de pernas para o ar e até acreditar que conseguimos dominá-las com mestria, mas haverá sempre frases como estas: que ao serem ditas nos envolvem numa terna magia que nos apazigua.

sábado, setembro 16, 2006

Eu também vou!

No dia 31 de Outubro, no Coliseu do Porto! Já estou em contagem decrescente!...
Chico Buarque já não vinha a Portugal desde os anos 80!!

sexta-feira, setembro 15, 2006

Undo

Deve ser por passar horas infindáveis à frente do computador que, por vezes, dou por mim a pensar o que seria se, na vida, tivéssemos um botão de “Undo”? Se pudéssemos voltar atrás, desdizer, desfazer tudo aquilo que não queríamos de todo dizer nem fazer. Ou se pudéssemos fazer “Delete” e apagar todos os erros ou aquelas frases despropositadas que dissemos e que usámos como arma cruel de arremesso. Se pudéssemos formatar a nossa vida, como fazemos no Word, em que aparece o alinhamento do corpo do texto devidamente justificado sem elementos dissonantes.
Talvez fosse demasiado harmonioso, ao ponto de se tornar insuportável.
Talvez haja alguma magia indecifrável no facto de termos de viver com as coisas que não podemos apagar…

quarta-feira, setembro 13, 2006

Geração enrascada

Já é célebre o epíteto que a geração mais nova recebeu nos idos dos anos 90, a denominada “geração rasca”.
Este nome sempre me provocou náuseas porque, além do tom ofensivo que a envolve, é demasiado simplista, demasiado contundente.
Creio, sim, que a nossa geração – daqueles que hoje estão perto ou na faixa dos 30 anos – é a geração enrascada que gostaria de se desenrascar para fazer face ao seu maior adversário: o desemprego.
O cenário é, de facto, desolador e as perspectivas não são particularmente animadoras. Já muita tinta correu sobre esta matéria, mas é revoltante constatar que há um autêntico exército de desiludidos que, ou não está integrado na força laboral activa, ou tem a sorte de estar a trabalhar, mas raramente na sua área de formação.
Não há quaisquer limites para a exploração a que se assiste hoje em dia, em que pessoal qualificado com licenciaturas, pós-graduações, mestrados, etc., tem de aceitar as regras da precariedade, auferindo salários medíocres e sentido na pele a frustração de não poderem dar asas aos seus projectos primordiais.
Não sou nada partidária da ideia de que deveria haver menos licenciados, pois o substrato do progresso de um país faz-se de matéria-prima qualificada, como se pode verificar nos países mais avançados da Europa. O investimento deveria concentrar-se na criação de emprego e, consequentemente, de riqueza.
Os raros casos de sucesso que se conhecem advêm da sorte de conhecer a pessoa certa no lugar certo – o terno Factor Cunha português – ou de arriscar num projecto individual, por sua própria conta e risco, mas para este último se concretizar é preciso suporte financeiro e para que este exista, é necessário trabalhar e por daí em diante… O incontornável círculo vicioso que adensa ainda mais este puzzle sem solução aparente.
Hoje sei que estou a trabalhar, mas amanhã?
Para esta geração enrascada, já não há promessas de “amanhãs que cantam”.
Cada vez concordo mais com a brilhante frase de José Cardoso Pires: “Portugal não é um país, é um sítio mal frequentado.”

Há dias em que gostaria de ter nascido em Helsínquia...

segunda-feira, setembro 11, 2006

Há 5 anos...

Há uma pergunta que já se tornou um clássico nacional: "Onde estava no 25 de Abril?" e outra que lhe segue no encalço: "Onde estava no 11 de Setembro?".
Já passaram 5 anos desde a tragédia aterradora que marcou irreversivelmente o início do séc. XXI. A partir desse dia terrífico, a ameaça terrorista disseminou-se e a sensação de insegurança generalizou-se à escala global. Como se não houvesse um único ponto no planeta em que se pudesse estar a salvo e imune a esse espectro mortal.
Por acaso, ontem vi um filme de Andrew Niccol (um realizador que desconhecia) intitulado "O Senhor da Guerra" com Nicolas Cage no papel principal, acompanhado de um Ethan Hawke à altura. O filme traça o percurso de um traficante de armas que, munido da sua principal arma, a desarmante ironia, contruiu um verdadeiro império baseado na morte indiscriminada e no cultivo da guerra. Há pormenores muito interessantes, senão mesmo artísticos, ao nível da fotografia. O argumento é de uma densidade tremenda, com excelentes diálogos.
(Desde "Leaving Las Vegas" que retrata o romance improvável de um alcoólico inveterado com uma prostituta, brilhantemente interpretada por Elisabeth Shue, que não assitia a uma representação tão soberba de Nicolas Cage!)
Há, de facto, uma indústria de armamento que sobrevive à custa dos conflitos bélicos que se repetem pelo planeta e que os alimenta despudoradamente. É em África que o triste cenário belicista assume contornos mais brutais e impressionantes.
Tal como no 11 de Setembro, o dia em que os EUA foram atacados no seu próprio solo, são sempre as vítimas inocentes que perecem à mercê de fanatismos religiosos, de "lutas de civilizações" insanas e de extremismos cegos.
Quando é que o Homem irá acordar deste pesadelo e ter a real noção de que a arma está apontada à sua própria cabeça?

Outra coincidência assinalável: Nicolas Cage é o protagonista do novo filme de Oliver Stone, "World Trade Center".

sexta-feira, setembro 08, 2006

(Re)encontros

O dia em reencontramos velhos amigos é sempre envolto de um grande frenesim, muito semelhante àquele que sentíamos em pequenos antes de uma viagem, em que mal conseguíamos pregar olho durante a noite.
Em criança, pensava que o mundo parava nos sítios onde eu não estivesse. É uma boa dose de narcisismo e de sentimento egocêntrico, bem sei, ainda por cima numa fase tão precoce da vida, mas como diz o velho ditado: “é de pequenino…”. Acreditava mesmo que as pessoas ficavam suspensas, completamente imóveis, e que só recuperavam as suas vidas normais quando me encontrassem.
No entanto, essa crença patética logo se desfez com a inevitável maturidade. Apercebo-me, assim, de que as vidas das pessoas que integram o meu universo de afectos mudaram e muito, tal como a minha, obviamente, pois não me limito a ser um observador distante que recolhe dados para elaborar um qualquer estudo científico. Ainda que o tempo corra, cada vez mais célere, a veracidade dos laços perdura e intensifica-se. Mesmo que se abata uma cortina de silêncio, mesmo que se passem meses a fio, mesmo que o telefone não toque.
É tão bom quando, em vez da voz das pessoas amigas, as temos em carne e osso à nossa frente, prontos para uma noite de conversa interminável, em que começamos muito compostinhos e, no final, já o rímel caiu para o queixo e começam-se a fazer sentir os efeitos daquela garrafa de Monte Velho.
Com os anos (e já são 28!), aprendi a respeitar o silêncio e a não exigir demasiado e, sobretudo, a valorizar os efémeros, porém intensos, momentos de felicidade e de partilha. Porque o mundo segue o seu rumo e não fica imobilizado.
Adoro quando o silêncio se quebra e só se ouve o riso. E o casamento de uma grande amiga é um bom mote, sem dúvida.

“A amizade é o amor sem asas.” Lord Byron

segunda-feira, setembro 04, 2006

... e do mar, o Adriático

Saudades da Croácia - Split

Need to focus


Devia estar a fazer um trabalho de tradução, a acelerá-lo freneticamente para poder chegar à meta (e subir ao pódio, naturalmente!) e respirar de alívio, com aquela sensação de dever cumprido, mas também de horror do vazio. Por vezes, adiamos o inadiável por medo que um deserto insuportável se abra perante nós com a crueza de um único cenário possível.
Estou a dramatizar, certamente. Mas às segundas, tudo é possível, creio. Porque é que a vida não é uma eterna sexta-feira de entusiasmo estonteante e infantilóide? No sábado, já começa a curva decrescente e no domingo, entra-se em depressão profunda...
Espreito para dentro de mim e vou deambulando, errante, pelos compartimentos labirínticos do meu ser. Há dias em que encontro todas as respostas que já sei de antemão, outros dias fico perplexa com as perguntas a que não sei, nem quero dar resposta. Aprisionada nos meus próprios paradoxos que insisto em cultivar. O que seria a existência sem antagonismos? Um horizonte de tédio e banalidade.
Por entre o nevoeiro da indefinição, há verdades que se avistam.
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