segunda-feira, outubro 30, 2006

E fez-se música!

Amor em estado puro

Eu te amo
Chico Buarque/ Tom Jobim


Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir

Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir

Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir

Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu

Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios ainda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair

Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir.

É amanhã!

quarta-feira, outubro 25, 2006

sweet dreams


Deitava-se todas as noites com medo de adormecer. Sempre que estava naquela fase intermédia em que se tem um pé na lucidez e outro naquela zona indefinível onde todos os planos se misturam, começava a ouvir aqueles ruídos. Eram uma espécie de estalidos da madeira que à noite se liberta dos grilhões e proclama a viva voz o seu grito de Ipiranga. Tal como ele, que durante o dia estava demasiado ocupado com os outros e em fazê-los acreditar naquilo que ele desistira de acreditar há muito: na possibilidade de felicidade. Para ele, isso não passava de uma impossibilidade matemática. Com tantos seres humanos no mundo, acreditar cegamente que cada um deles iria ser feliz, parecia-lhe uma tontice sem precedentes. Mas ele sabia bem fingir que acreditava nessa patética possibilidade e, mesmo utilizando a mentira como a sua verdade militante, cumpria a missão a que propusera mais por egoísmo do que por altruísmo: esquecer-se de si próprio em função dos outros, essa terceira pessoa misteriosa que, de certa forma, o iluminava pelas sendas do seu próprio caos interior.
E lá vinham os estalidos da madeira. Outra vez e mais outra. E com eles, os passos, os interruptores da luz, indecisos, dançando para cima e para baixo, numa indecisão reconfortante e familiar. Ele tinha a penosa noção de que aqueles ruídos eram um motim do passado, que se sublevava, sempre à noite, no momento em que ele estava mais frágil. Como se a sua consciência se recusasse a aceitar a verdade e, tal como ele, embarcasse numa doce mentira em que a realidade voltava ao que sempre fora.
Não concebia adormecer sem ouvir aqueles estalidos da memória.
(Provavelmente, só ele é que os ouvia.)
Como não concebia viver sem fazer os outros acreditar naquilo que ele sempre rejeitara.
De que serve a verdade, afinal?
A madeira não pára de estalar. E aqueles interruptores? Importam-se de desligar a luz? Há aqui pessoas que querem dormir!

sexta-feira, outubro 20, 2006

A outra face


Palavras de Guerra Junqueiro, nos idos de 1896. Qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência.

"Pátria"
"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir asmoscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazerdela saca-rolhas.
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém de uno parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar…"
Imagem retirada daqui

terça-feira, outubro 17, 2006

Vale a pena pensar nisto!

Patriotismos e lamechices à parte, creio que é sempre importante divulgar artigos que nos insuflem uma nova esperança, tratando-se Portugal de um país com os índices tão deploravelmente baixos de auto-estima. Nem só de melancolia se compõem os acordes do nosso fado colectivo.

Este artigo que se segue é da autoria de Nicolau Santos, o Director-Adjunto do jornal Expresso, e foi publicado na Revista Exportar:

Portugal vale a pena!

Eu conheço um país que tem uma das mais baixas taxas de mortalidade de recém-nascidos do mundo, melhor que a média da União Europeia.

Eu conheço um país onde tem sede uma empresa que é líder mundial de tecnologia de transformadores. Mas onde outra é líder mundial na produção de feltros para chapéus.Eu conheço um país que tem uma empresa que inventa jogos para telemóveis e os vende para mais de meia centena de mercados. E que tem também outra empresa que concebeu um sistema através do qual você pode escolher, pelo seu telemóvel, a sala de cinema onde quer ir, o filme que quer ver e a cadeira onde se quer sentar.

Eu conheço um país que inventou um sistema biométrico de pagamentos nas bombas de gasolina e uma bilha de gás muito leve que já ganhou vários prémios internacionais. E que tem um dos melhores sistemas de Multibanco a nível mundial, onde se fazem operações que não é possível fazer na Alemanha, Inglaterra ou Estados Unidos. Que fez mesmo uma revolução no sistema financeiro e tem as melhores agências bancárias da Europa (três bancos nos cinco primeiros).

Eu conheço um país que está avançadíssimo na investigação da produção de energia através das ondas do mar. E que tem uma empresa que analisa o ADN de plantas e animais e envia os resultados para os clientes de toda a Europa por via informática.

Eu conheço um país que tem um conjunto de empresas que desenvolveram sistemas de gestão inovadores de clientes e de stocks, dirigidos a pequenas e médias empresas.

Eu conheço um país que conta com várias empresas a trabalhar para a NASA ou para outros clientes internacionais com o mesmo grau de exigência. Ou que desenvolveu um sistema muito cómodo de passar nas portagens das auto-estradas. Ou que vai lançar um medicamento anti-epiléptico no mercado mundial. Ou que é líder mundial na produção de rolhas de cortiça. Ou que produz um vinho que "bateu" em duas provas vários dos melhores vinhos espanhóis. E que conta já com um núcleo de várias empresas a trabalhar para a Agência Espacial Europeia. Ou que inventou e desenvolveu o melhor sistema mundial de pagamentos de cartões pré-pagos para telemóveis. E que está a construir ou já construiu um conjunto de projectos hoteleiros de excelente qualidade um pouco por todo o mundo.

O leitor, possivelmente, não reconhece neste País aquele em que vive - Portugal. Mas é verdade. Tudo o que leu acima foi feito por empresas fundadas por portugueses, desenvolvidas por portugueses, dirigidas por portugueses, com sede em Portugal, que funcionam com técnicos e trabalhadores portugueses.

Chamam-se, por ordem, Efacec, Fepsa, Ydreams, Mobycomp, GALP, SIBS, BPI, BCP, Totta, BES, CGD, Stab Vida, Altitude Software, Primavera Software, Critical Software, Out Systems, WeDo, Brisa, Bial, Grupo Amorim, Quinta do Monte d'Oiro, Activespace Technologies, Deimos Engenharia, Lusospace, Skysoft, Space Services. E, obviamente, Portugal Telecom Inovação. Mas também dos grupos Pestana, Vila Galé, Porto Bay, BES Turismo e Amorim Turismo.

E depois há ainda grandes empresas multinacionais instaladas no País, mas dirigidas por portugueses, trabalhando com técnicos portugueses, que há anos e anos obtêm grande sucesso junto das casas-mãe, como a Siemens Portugal, Bosch, Vulcano, Alcatel, BP Portugal, McDonalds (que desenvolveu em Portugal um sistema em tempo real que permite saber quantas refeições e de que tipo são vendidas em cada estabelecimento da cadeia norte-americana).

É este o País em que também vivemos. É este o País de sucesso que convive com o País estatisticamente sempre na cauda da Europa, sempre com péssimos índices na educação, e com problemas na saúde, no ambiente, etc. Mas nós só falamos do País que está mal. Daquele que não acompanhou o progresso. Do que se atrasou em relação à média europeia.

Está na altura de olharmos para o que de muito bom temos feito. De nos orgulharmos disso. De mostrarmos ao mundo os nossos sucessos - e não invariavelmente o que não corre bem, acompanhado por uma fotografia de uma velhinha vestida de preto, puxando pela arreata um burro que, por sua vez, puxa uma carroça cheia de palha. E ao mostrarmos ao mundo os nossos sucessos, não só futebolísticos, colocamo-nos também na situação de levar muitos outros portugueses a tentarem replicar o que de bom se tem feito. Porque, na verdade, se os maus exemplos são imitados, porque não hão-de os bons serem também seguidos?

domingo, outubro 15, 2006

Ohran Pamuk

O Nobel da Literatura deste ano, o escritor Ohran Pamuk, fala turco e tem em Istambul o mote de eleição dos seus livros. A Academia Nobel justificou da seguinte forma a atribuição do prémio a Ohran Pamuk:

"who in the quest for the melancholic soul of his native city has discovered new symbols for the clash and interlacing of cultures."

“alguém que, na busca pela alma melancólica da sua cidade natal, descobriu novos símbolos do confronto e do entrelaçar de culturas.”


Há duas obras deste autor traduzidas para Português pela Editorial Presença: Os Jardins da Memória e A Cidadela Branca. Esta editora anunciou para breve a tradução da obra A Vida Nova.
Ainda não li nenhum livro deste autor, mas confesso que a atribuição do Nobel é sempre um grande impulso para descobrir novos escritores e, por extensão, literaturas distantes. Nesse sentido, é muito importante consagrar escritores de países à margem, o que, sobretudo, se deve à questão linguística.
De certeza que a Letónia terá autores de primeiríssima qualidade, no entanto a probabilidade de encontrar um bom tradutor de letão será quase semelhante à de encontrar uma agulha num palheiro.
Daí que a Academia Sueca Nobel desempenhe um papel fundamental na divulgação de literaturas ainda longínquas, ao dar voz a autores que, de outra forma, não teriam a oportunidade de ouro de terem as suas obras traduzidas numa panóplia de idiomas. Esse, sim, é o prémio maior.
É, de facto, belo o processo de verter uma frase de Turco para Português e constatar que as verdades tematizadas na grande Literatura se fazem de um mesmo substrato: da universalidade da condição humana. Seja em Istambul ou em Lisboa.

Leia mais sobre Ohran Pamuk no site da Presença
Foto retirada daqui

sexta-feira, outubro 13, 2006

verde código verde


Tenho saudades daquelas lojas de antigamente, em que éramos tratados como se fossemos herdeiros de um vasto império, em que as pessoas olhavam fundo nos nossos olhos e em plenos pulmões, nos desejavam um saudável “bom dia” que ecoava dia fora.
Há dias fui a uma dessas lojas muito antigas, dominadas pela madeira escura, como que mergulhadas numa escuridão acolhedora. Daquelas lojas que ainda não têm Multibanco e que nos “obrigam” a andar uns irrelevantes metros para ir levantar dinheiro (hoje em dia, os cartões Multibanco são como que uma extensão dos nossos dedos, já não concebemos a vida pré-telemóvel, pré-ATMs, pré-Internet. A vida antes deles parece apenas um episódio improvável de tão obsoleto). Mas vale a pena. Adquirem-se peças de qualidade e mais importante ainda, faz-se uma autêntica viagem no tempo e abrimos a porta a um universo de nostalgia que nos embala docemente.

(Em Alemão, há uma expressão muito engraçada para a loja de bairro ou loja de esquina – uma daquelas expressões intraduzíveis porque muito específicas de uma cultura – “Tante-Emma-Laden”, que traduzido à letra seria “a loja da tia Ema”. Nós por cá temos o Mestre André que, infelizmente, se tornou uma espécie em vias de extinção.)

Abomino a simpatia asséptica e artificial dos regimentos de bonecos robotizados que nos tentam convencer de que ficamos bem com qualquer indumentária (quando se dão a esse trabalho), para depois nos brindarem com o “verde código verde” da praxe, num insuportável tom de desprezo. Seguinte. Já não há 34.

(E aquela música detestável que nos impõem numa ditatura massificada própria de um mundo globalizado continua a tocar, em altos berros...)

quinta-feira, outubro 12, 2006

Desafiar lugares-comuns


Novo hotel-adega, em Elciego (Espanha), concebido pelo ousado arquitecto Frank Gehry, autor do inconfundível Museu Guggenheim de Bilbao.
Fotos retiradas daqui

domingo, outubro 08, 2006

Em Português

É um comportamento muito típico dos portugueses procurar, na panóplia de notícias da actualidade, nomes, factos ou protagonistas que falem em Português ou que, pelo menos, tenham algum vínculo a Portugal. Trata-se de um traço curioso que não se coaduna minimamente com a secular falta de auto-estima lusa.
Por um lado, estamos sempre sedentos de ver um Português em qualquer cargo de prestígio ou a gozar de fama internacional (daí o fascínio causado pela Nelly Furtado e afins que conservam – nem que não seja no apelido – a marca lusitana), mas por outro lado, desenvolveu-se já na consciência colectiva a convicção de que Portugal é um país condenado que, basicamente, nada de mais interessante fez desde as longínquas Descobertas. E já passaram uns valentes séculos…
(Em Fevereiro, assisti a uma discussão muito interessante sobre a tradução de Shakespeare em Português e constatei que são parcas, ou quase esbatidas, as referências deste grande dramaturgo a este “cantinho à beira-mar plantado” no todo da sua obra. O que causa sempre um suspiro de desilusão, pois o português está sempre esperançoso de se ver retratado em qualquer lado, um pouco como aqueles japoneses insistentes que, munidos das suas máquinas fotográficas, se fazem sempre à fotografia, nela inculcando a sua marca eterna.)
Não sendo excepção à regra, confesso que fiquei muito curiosa por saber mais sobre o Prémio Nobel (“Nóbél”, como corrigiria Saramago) da Medicina deste ano: Craig Mello. Ainda antes de desvendarem a ascendência portuguesa deste eminente cientista, desde logo me detive no apelido (mais uma vez o fascínio do apelido e este com consoante dupla!), questionando-me interiormente: “Será?”…
E, de facto, Craig Mello, conforme pude apurar no Expresso deste sábado, que lhe dedica um extenso e fascinante artigo, tinha um avô português de São Miguel e ainda não veio a Portugal. Claro que mais importante do que estas curiosidades genealógicas, é o facto de Craig Mello (Universidade de Massachusetts), em parceria com Andrew Fire (lamentavelmente, não tão bonito como o nosso Craig! Grandes genes!), ter feito uma crucial descoberta de um mecanismo para o controlo da informação genética: o IRAN – interferência de ácido ribonucleico – que trará grandes benefícios ao nível do combate às doenças cancerígenas e que, em 2007, será já aplicada em medicamentos.
Isto, sim, é um contributo vital para a Humanidade e não outras questões de somenos que, no entanto, sempre irão fascinar… os portugueses!
(Vê-se, porém, pela divertida reacção de Craig Mello ao relatar o momento em que a Academia Nobel lhe ligou a anunciar a vitória, em que ele disse: “You got to be kidding!”, que de Portugal só conserva mesmo o apelido, pois o académico típico português padece de uma doença incurável que se reflecte em elevados índices de soberba, de falta de humildade e de sentido de humor!)

quarta-feira, outubro 04, 2006

terça-feira, outubro 03, 2006

Segundo "round"

Contrariamente a todas as expectativas, haverá uma segunda volta nas eleições presidenciais brasileiras. Creio que a escassa cobertura dos meios de comunicação social portugueses às eleições no Brasil se deveu, grosso modo, ao sentimento generalizado de que Lula iria ganhar. Pouco ou nada se falou acerca dos adversários de Lula, dos “presidenciáveis”.
No entanto, a realidade dos factos passou uma rasteira ao presidente brasileiro que, segundo a edição de ontem da Folha de S. Paulo, irá reunir com o seu partido para definir uma outra estratégia política.
Lula era o símbolo da utopia, das múltiplas possibilidades que se abriam a esse país riquíssimo, mas que fora sempre minado pela corrupção das classes dirigentes, tornando-se o que muitos designariam de “país ingovernável”. No entanto, com Lula, o cenário de esperança adquiriu outros contornos e espalhou-se a crença de que ele iria mudar o estado de coisas vigente, pois ele próprio era a prova viva de que a luta incessante poderia levar os seus protagonistas a bom porto. Ele simbolizava a vitória dos mais fracos, dos marginalizados que agora tinham nele (e no seu partido, obviamente) um representante que lhes dava voz.
Porém, o escândalo do “Mensalão” – amplamente divulgado e debatido em Portugal – abalou fortemente as estruturas do governo, deitando por terra a esperança nele depositada não só pela população em geral, mas também pelos mais reputados intelectuais e pensadores da cultura brasileira.
Além das polémicas que rebentaram, o facto de Lula não ter comparecido no último debate televisivo foi altamente penalizador e representou, sem dúvida, a gota de água.
Lula encetou um combate acérrimo à pobreza no Brasil – justiça lhe seja feita - e os índices baixaram drasticamente.
No entanto, o Brasil continua à mercê da corrupção das classes dirigentes, a par de um sentido de ingovernabilidade que parece, infelizmente, perpetuar-se.
Foto retirada daqui
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