quarta-feira, novembro 29, 2006

Quem somos nós? O que fazemos aqui?


“Lisboetas” é muito mais do que um documentário que procura ilustrar, com uma imensa dose de poesia, o dia-a-dia das diferentes comunidades imigrantes em Lisboa.
A própria noção de Portugal de um país de imigrantes e não de emigrantes (como o sempre fora) desperta ainda perplexidade, mas, de facto, na última década, assistiu-se a um aumento sem precedentes da vaga de imigrantes que, oriundos do Leste da Europa ou de África ou Brasil, buscam (sobretudo em Lisboa) uma solução.
O documentário é um verdadeiro “melting pot” de culturas, de identidades e de costumes, numa Babel dos tempos modernos. No entanto, não se sente qualquer juízo de valor ou postura crítica da parte de quem filma. Há somente uma preocupação em filtrar a realidade crua e sempre dura, deixando os próprios protagonistas, pessoas de várias cores, credos e línguas, emergir, em toda a sua plenitude, com contornos humanos.
(Por isso é que sempre adorei o género documental, pois aí não há pessoas perfeitas, adereços supérfulos, diálogos brilhantes. Existe apenas o ser humano, tal como ele realmente é: sem artifícios, reduzido à sua essencial condição.)
Os imigrantes aí retratados nunca se desvinculam deste rótulo, seja pela distância linguística, seja pela simples razão de serem diferentes, pelas suas feições. Há um fio condutor que atravessa todas estas comunidades: o apego incondicional à memória, à língua (que é sempre a nossa pátria, claro está). Os ucranianos, enquanto lavam as ruas de Lisboa, entoam cânticos melancólicos, numa espécie de fado de Leste. Os brasileiros dançam na Casa do Brasil em Lisboa, o que não significa que a dor da distância geográfica não seja tremendamente insuportável. Os russos queixam-se do sistema educativo português e desejam que os seus filhos aprendam na escola russa, perpetuando-se o característico grau de exigência do seu país.
Todos eles, sem excepção, continuam a viver à margem, numa luta diária por vencer os labirintos da língua portuguesa e por conseguir, enfim, dialogar com um povo que rapidamente se esqueceu da sua outrora condição de emigrante. De repente ficámos todos muito endinheirados e recheados de tecnologia, carros bons, consumistas inveterados, e essa ilusão de poder fez com que deixássemos de ver para além do palpável.
Quem são os lisboetas, afinal? Lisboa é um grande ponto de encontro de forasteiros. No fundo, em Lisboa todos somos imigrantes e tentamos, desesperadamente, entoar um cântico imperceptível de algum sítio a que possamos chamar raízes.
No cartaz do filme, lê-se: “Quem és tu?”, “O que fazes aqui?”. Não é só em Lisboa que não se encontram as respostas para essas questões...

2 comentários:

al cardoso disse...

O que muitos brasileiros e africanos buscam em Lisboa, e uma transicao para a Europa rica, da qual nos estamos cada vez a afastar-mos mais.

~*Vica*~ disse...

Acho que todos somos forasteiros, em qualquer lugar. O lar está onde está o amor, não é assim que deve ser?

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