segunda-feira, fevereiro 13, 2006

A love song for Bobby Long


Há domingos assim que nos surpreendem por serem dias absolutamente perfeitos... À tarde, um passeio à beira-mar e à noite, um serão pontuado por um filme inesperadamente envolvente...
Aos domingos, não somos particularmente exigentes em termos de escolha fílmica. Vamos ao clube de vídeo da praxe e mostramo-nos quase paternalistas e pacientes, condescendendo a todo o instante, desde o filme mais sentimentalóide ao mais carregado de acção e de adrenalina visual e sonora. O domingo é o perfeito álibi.
Ontem escolhi um filme que me comoveu pelo carácter humano e pela íntima ligação entre a literatura e a vida. Será que a arte imita a vida? Ou será o inverso? Segundo Woody Allen, "a vida imita a má televisão" e cada vez me convenço mais dessa dura realidade...
O filme intitula-se "A love song for Bobby Long" e conta com a participação do "peso pesado" Travolta, da magistral Scarlet Johanson e de Gabriel Macht.
Centra-se na noção de regresso a casa, às origens e sobretudo, às profundezas de nós mesmos, numa tentativa desesperada de (re)construção de memórias. É em busca de memórias que nunca teve que a protagonista, interpretada por Scarlet Johanson, se muda para casa da mãe, onde viviam dois inquilinos, no mínimo, peculiares: um ex-professor sábio, em decadência física, e um aluno devoto, com aspirações literárias, unidos pelo amor ao álcool e à Literatura.
Pululam citações de grandes autores ao longo do filme, pelo que se aconselha ter um bloco de notas em posição estratégica, sob pena de deixarmos passar grandes verdades expressas da forma mais simples, como é apanágio dos escritores mais iluminados.
A protagonista rende-se ao poder da palavra escrita e peu a peu, o que constituía um ambiente de enorme animosidade entre o triângulo que coabitava a casa de toda a discórdia transforma-se num foco de partilha de vivências, de recordações e de afectos.
É um filme que nos conduz a uma regressão aos intrincados labirintos da nossa memória pessoal. Seria muito penoso, senão trágico, conviver com a ausência dela.
Não resisto a citar uma das citações (!) brilhantes deste filme: "Só morremos uma vez e demora uma eternidade." (Molière)

Bem-vindos!


Bem-vindos!
O que muitos consideram "pechisbeque" ou quinquilharia será o nosso fio condutor. Não se falará do défice, nem de inflação galopante. Mas das artes, do poder da palavra escrita, da eterna magia do cinema, da transcendência da criação. O mote está lançado.
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