terça-feira, fevereiro 14, 2006

parece que afinal sempre estou a conseguir entrar no pechisbeque. estou muito curiosa em ver as nossas quinquilharias e em enviar muitos regateios. isto é apenas um teste, por isso antes de mais vou mesmo é ver como é que ficou o blog que fizeste para irmos conversando.

Lost in translation

Há dias, numa aula de Teoria da Tradução, discutia-se a eterna questão da (in)fidelidade perante o texto original, sendo que a fidelidade absoluta é uma impossibilidade em Tradução. São possíveis aproximações, adaptações, fruto da visão interpretativa do sujeito tradutor que se deverá preocupar mais com o sentido, com o conteúdo e com a sua "tradutibilidade" do que com a forma. Tal como dizia Ezra Pound: "More sense, less syntax".
Às páginas tantas (adoro esta expressão!), uma colega do ramo de Literaturas Clássicas faz uma afirmação apocalíptica: segundo falantes nativos da língua russa, Dostoievski foi totalmente adulterado para as línguas românicas através das traduções "floreadas" do Francês que construíram um outro Dostoievski, que era, na verdade, um autor "obscuro"! Fiquei chocada com esta afirmação que nos leva a questionar " o que se perde na tradução" ou até o que se cria e o que se (re)inventa.
Não cheguei ainda a uma conclusão satisfatória, mas Dostoievski foi e continuará a ser um marco inultrapassável das Letras ocidentais, a um tempo um verdadeiro mestre da análise dos meandros mais profundos e tenebrosos da mente humana, e a outro tempo um escritor com fortes preocupações sociais que retrata o ser humano em toda a sua dimensão.
A imparável dupla de tradução Nina e Filipe Guerra têm vertido as obras de Dostoievski do original russo para português. Acabaram-se, assim, os "floreados" franceses, pelo que temos agora o nosso próprio Dostoievski! Na língua de Camões, comme il faut!

O interior da cultura

Longe vão os tempos em que uma viagem de Lisboa à "província" demorava uma eternidade e mais alguns minutos. Longe vão os tempos em que as manifestações culturais mais vanguardistas se confinavam unica e exclusivamente aos dois grandes centros urbanos de Portugal.
Na vanGuarda da cultura está hoje em dia a Guarda, um exemplo cimeiro de como se pode pôr em causa a noção de interioridade.
O Teatro Municipal da Guarda - www.tmg.com.pt - apresenta um leque bastante vasto de espectáculos que vão desde as Artes Circenses à Ópera, passando obviamente pelo Teatro e pela Música. Ao deambular pela programação de Março do TMG, deparei-me com um espectáculo da inusitada The First Vienna Vegetable Orchestra (FVVO - http://www.gemueseorchester.org/). É isso mesmo: os músicos que compõem esta orquestra inesperada interpretam vegetais (alho francês, pimentos, cenouras, pepinos) e alguns utensílios de cozinha, saliente-se. No site do TMG, é possível ouvir um breve excerto da FVVO. A arte e a imaginação não conhecem fronteiras, pelo que se optarmos pelo "caminho menos trilhado" (evoco Robert Frost), poderemos um dia ser virtuosos... da cenoura, quem sabe? Seja do que for, pelo menos fomos diferentes, avessos à banalidade e à previsibilidade. Um forte aplauso para o Teatro Municipal da Guarda!
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