quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Do fim da Poesia?

Vivemos subjugados pela tirania implacável dos números, da lógica, da produtividade. Já não há espaço para a melodia da palavra, para a sua dimensão mágica que nos envolve e enleia. O que interessa hoje em dia é produzir desenfreadamente, alcançar resultados, gerar números, mais números, índices astronómicos de produtividade, competir até ao último suspiro. (Ocorre-me agora a recente visita do mi-, bi-. tri-, quadrilionário Bill Gates a Portugal, em que ele, muito modestamente, como é seu surpreendente apanágio, dizia que sempre que precisava de fazer a declaração de IRS, tinha de usar um computador especial com capacidade para comportar tais números infindáveis!)
Como dizia o outro: "It's the economy, stupid!". A Poesia integra a nossa essência, porém, percorre os subterrâneos filamentos do ser e os compartimentos da alma. E ela ainda vive, respira e ecoa. Imponente. Enquanto houver pessoas que se deixem fascinar pelo poder colossal do Verbo e pelos "pequenos nadas": um lânguido pôr-do-sol, quase eterno, o sorriso de uma criança, uma brisa apaziguadora, a pureza dos afectos, o cheiro da terra molhada no Verão, a chuva que, insistente, cai lá fora, adocicando a doce letargia da tarde. Porque a Poesia não se faz unicamente de signos, mas de imagens que habitam o quotidiano. Só que, por vezes, estamos demasiado cegos, ocupados, assoberbados. Com números.
"De manhã escureço/ De dia tardo/ De tarde anoiteço/ De noite ardo." (Vinicius de Moraes)
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