sexta-feira, abril 07, 2006

Post vitam

Como seria uma vida sem morte?Apegamo-nos com tanto fervor à vida, tentando ludibriar o facto mais certo que se nos apresenta: a morte. A existência é feita de pequenas ilusões: as glórias momentâneas, as desilusões, o sofrimento que parece um fardo eterno, as alegrias, os projectos, as expectativas. De um momento para o outro, com a leveza de um sopro, tudo se desmorona e relativiza. O sentido da vida é precisamente não fazer sentido algum.
Creio que o fluir do Tempo torna cada vez mais presente a noção da finitude. Na adolescência, estamos mais centrados em questões do foro afectivo, numa eterna bipolaridade entre aceitação/rejeição. A morte nem sequer é tema ou preocupação. Porém, os anos vão passando e, pelo caminho, vão-se perdendo as pessoas que integram o nosso universo: deixam de conversar e de rir connosco, tornam-se etéreas, estranhos habitantes de uma dimensão misteriosa e longínqua.
Mas como seria uma vida sem morte? Provavelmente, muito mais insustentável do que uma vida iluminada pela certeza de um desenlace. Os corpos iam-se degradando e, com eles, as relações humanas. Tornar-nos-íamos insuportáveis, carregando o insustentável peso do ser. A imortalidade seria um lugar estranho, inabitável, em que já existiriam quaisquer regras de cortesia e de diplomacia. A verdade subia irremediavelmente à tona e o ser humano teria como destino inevitável uma solidão eterna...
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