terça-feira, abril 18, 2006

Maldita cocaína

De entre todo o manancial de informação com que diariamente somos bombardeados, há sempre notícias que se destacam pelo seu carácter inesperado.
Saiu uma reportagem na revista brasileira Isto É que se centra nas mulheres - pouco elogiosamente denominadas "mulas" (regra geral, mulheres bonitas que, por razões óbvias, ludibriavam as autoridades policiais) - que transportam cocaína dentro delas para tráfico, após terem sido submetidas a operações cirúrgicas com esse objectivo. Lembrei-me de imediato do filme colombiano Maria Cheia de Graça que, a propósito, ainda não vi, mas que já está na minha lista de filmes a visionar (como se tornou moda dizer hoje em dia!).
Fazem operações plásticas na Colômbia ou no Brasil, colocando pacotes herméticos de cocaína e de ecstasy no peito ou nas coxas a troco de chorudas quantias.
Como será conviver e viver com essa sórdida ideia? Levando essas substâncias não com elas (não menos grave, claro está), mas nelas? A mudança de preposição é assustadora, sem dúvida. Coloco a questão sem qualquer tipo de intuito moralista, pois percebe-se bem que a opção por essa estranha forma de vida radica em vidas de acentuada carência material ou de manifesta disfunção familiar, social, etc. Ou não necessariamente. A reportagem também revela que a grande maioria das "mulas" pertence à classe média e ingressa as amplas fileiras do desemprego.
Quando pensávamos que estava tudo dito em relação às manhas e artimanhas engendradas para o tráfico de droga, rapidamente se chega à conclusão de que este, como muitos outros, aliás, é um campo terrivelmente inesgotável...
Reportagem Isto É - "Vida de Mula"

O Fiel Jardineiro














Há algo de indecifrável no último filme do cineasta brasileiro Fernando Meireles: The Constant Gardener que conta com a participação magistral de Ralph Fienes e Rachel Weisz (que ganhou o Óscar de Melhor Actriz Secundária).
Rodado quase exclusivamente no Quénia profundo (salvo algumas cenas em Londres e Berlim), este inquietante filme – muito na senda de Hotel Ruanda, por exemplo – tematiza a total negligência/indiferença do Ocidente perante a tragédia de milhares e milhares de africanos que perecem todos os dias, neste caso às mãos de indústrias farmacêuticas que os usam como cobaias.
Justin (Ralph Fienes) e a carismática (e muito revolucionária) Tessa partem para África, decidindo aí construir o seu país. Justin é um amante fervoroso da flora e, onde quer que se encontre, edifica à sua volta jardins luxuriantes nos quais se perde para o mundo e para a realidade. Tessa, por sua vez, tem os pés bens assentes na terra e luta fervorosamente pelos seus ideais. A sua grande bandeira era lutar contra os gigantes da farmácia que, sedentos de monopólio de mercado, faziam testes nos habitantes locais que, encurralados na sua miséria inimaginável, cediam sem ter outra opção.
O filme The Constant Gardener questiona permanentemente toda a dimensão do “parecer”, do que está apenas à superfície. Nem tudo o que parece é. E assim o é neste filme. O que parecia ser uma relação bizarra entre Justin e Tessa (ela vivia para a defesa acérrima dos seus ideais, ele para as plantas) acaba por se revelar uma tremenda história de amor, reforçada post mortem, saliente-se. O que parecia ser a bonomia do Ocidente perante as carências médicas da miserável população queniana não o era.
O espectador é convidado a percorrer labirintos impensáveis e a tecer aos poucos a verdade subterrânea dos factos. A excepcional banda sonora transporta-nos para uma dimensão longínqua habitada por pessoas que não podem vislumbrar qualquer horizonte, despojadas de tudo, vítimas de um Ocidente que as crucifica enquanto apregoa os grandes valores civilizacionais. O eterno fardo do homem negro…
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