quarta-feira, maio 10, 2006

Tempos idos

O Tempo pode ser um carrasco, por vezes. Atentemos na duração do dia. Quanto não dava para que o dia tivesse mesmo 48 horas. Transcorrido o tempo em que temos de ser produtivos, poderia chegar a casa, rever os filmes do Woody (bem sei que ainda não tenho idade para rever, reler, revisitar, mas há algo de saudosista em mim que faz com que reveja - precisamente! - a Annie Hall e me deixe inebriar, como se da primeira vez se tratasse!), atirar-me sofregamente ao Expresso (quantos e quantos Expressos em atraso?...) e depois devorar romances de um só fôlego.
Mas a realidade é bem distinta e finta-nos a todo o instante. Quando consigo ver ou (re)ver um filme já me dou por abençoada e lá me deito com a sensação de dever cumprido. Tudo o que nos dá verdadeiro prazer na vida confina-se a um espaço muito reduzido, claustrofóbico.
Olho para dentro de mim mesma e sinto-me estranha na própria pele, estrangeira de mim. Sinto a passagem do tempo, cronologicamente, como um facto irrefutável, mas cá bem nas profundezas, naqueles labirintos impenetráveis, ainda sou a miúda que vai para o liceu e que vive a insustentável leveza desses anos mágicos.
Será o saudosismo feito desta estranha matéria? A nostalgia? Acho que estou mesmo a ficar mais velha. Ganha-se em sabedoria, mas fica-se com aquela melancolia no olhar ao vislumbrar o horizonte das coisas passadas. Como se fixasse uma fotografia e nessa fotografia, vivem as memórias, momentos dos quais apenas restaram sorrisos, mãos que se tocam, mas já não se encontram, para sempre registados num papel que também ele, sob a influência do Tempo, irá amarelecer, dobrar-se...
A solução reside em manter o brilho, esquecer o amarelo e os pós corrosivos, contrariando essa doce dualidade que nos habita e que o Tempo só agudiza...
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