quinta-feira, maio 18, 2006

O mundo do avesso (incursão ficcional)
















Ela acordara um pouco atordoada com a revelação da noite anterior. Mas antes de se permitir qualquer reflexão ou pensamento perturbador, que agudizasse ainda mais o desconforto que sentia, resolveu tomar um duche regenerador e fazer da mente tábua rasa.
(Como invejava aqueles monges tibetanos que, graças anos e anos a fio de meditação aplicada, conseguiam evadir-se de si mesmos e atingir o nirvana do vazio, do total e puro despojamento espiritual e material.)
Jantou, de seguida, e foi para o trabalho. Mas aquele pensamento não a deixava, entranhava-se nela e, já sem forças, rendeu-se à evidência de que o João esperava um filho dela. Ela ia ser mãe!
Nunca fora muito dada a esses devaneios maternais, acreditava sempre que havia formas bem mais estimulantes de ocupar a mente. Irritava-se até à exaustão com as histórias patéticas que os amigos contavam, os sons absolutamente inimagináveis que emitiam na presença de um bebé, ser minúsculo que subjugava despoticamente todos os que dele se aproximassem.
Mas não deixava de sentir uma ternura inexplicável que, provavelmente, sempre a habitara, mas estava confinada até agora a uma divisão impenetrável e longínqua do seu ser.
Chegou ao trabalho e deu uma série de directrizes que o chefe teria de cumprir, se quisesse ser mesmo promovido! O caminho é penoso e inúmeras as pedras que nele se encontram…
A cabeça dela andava a mil à hora com imagens estranhas, visões de um cenário que ela nunca conheceu, o abismo do desconhecido. A vertigem de ser personagem de um filme cujo enredo lhe é completamente estranho. Estrangeira de si mesma.
O dia ia chegando ao início e com ele, a certeza de que ia reencontrar João, ao pequeno-almoço, num qualquer café de esquina, e confrontar-se com essa nova realidade.
Ia lendo o jornal do dia seguinte, e tremia como varas verdes, insegura, desejosa de ser quem não era... e mãe muito menos! Com todas as responsabilidades e patetices conexas que isso implicava...
Por fim, João chegou com nascer do sol e o sorriso dele irradiava.
(Será isto a etérea noção de felicidade que tantos apregoam? Seja o que for, é comovente. É legítimo fazer figuras patéticas e menos próprias!)
Pegou na mão de Mariana, sorriu mais uma vez e brincou com seus dedos trémulos. Nada disse, as palavras pareciam supérfulas. Invadida pela certeza de que os discursos mais eloquentes são os que se fazem em silêncio, olhou para ele, com doçura. Lá fora, uma massa de pessoas anónimas movia-se freneticamente. A mão de João repousava, tranquila, em Mariana.
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