sábado, junho 17, 2006

Solidão















Era o seu primeiro dia ali. A primeira noite, em boa verdade. Vários motivos, sempre dilacerantes e impronunciáveis, estiveram na origem de uma reviravolta tão drástica do destino. A infância fora completamente disfuncional, a ausência de afecto e de atenção e todo aquele rol de lengalengas que os psicólogos gostam de invocar. Dependem dos problemas e das disfunções desse exército silencioso de pessoas que padecem de um mal catalogável. Basta enumerar somente alguns sintomas.Para cada mal, seu nome. O maior de todos: não saber como ser feliz e constatar que não se tem o mínimo jeito para isso. A felicidade mais não é do que condição utópica.
Estava frio, nessa noite. Os carros sucediam-se, atropelavam-se e também os peões estavam impacientes, galgavam os passeios, num descontrolo incompreensível. Haveria alguma comemoração especial?As luzes dos faróis cegavam-no e ele não parava de acenar. Estava frenético, queria fazer tudo bem nessa noite, não disparatar nem tão pouco desbaratar essa réstia de coragem que ainda vivia dentro dele.
Estranha forma de vida. Tinha fome, sede, vontade de desaparecer e reaparecer numa casa confortável (não pedia uma mansão de milionário, um qualquer recanto sossegado já lhe bastava), ouvir a chuva lá fora e mergulhar nos cobertores que o afagavam docemente, esquecendo-se por completo do jornal, que lhe escorregava pelo colo. Sem se mexer, sentindo apenas o ruído da sua respiração tranquila. Não tinha de acenar, nem de dar indicações. Nem de correr como um louco pelas ruas íngremes e escuras daquela cidade impiedosa, como o são todas, aliás. Quantas vezes não tinha enterrado as mãos nos contentores cheios de comida putrefacta, sentindo as ásperas texturas da miséria, e, ao seu lado, as pessoas que se passeavam pelas ruas anónimas, viravam delicadamente o rosto, cabisbaixas.
Tantos pensamentos excessivos que o consumiam como uma doença terminal e que nada tinham a ver com a sua mão frenética, doentia, a acenar para os condutores que olhavam para ele sem o ver. Na boca, um cigarro apagado, mais por hábito do que por vício. Mais trágica era a consciência da realidade. Como desejava ser louco (chegando mesmo a invejá-los abertamente) e viver sem sentir o peso insustentável do pensamento.
A sua única companheira nessa noite (e em todas as que se seguiram) era a solidão das ruas. Nuas ou cheias de gente. Era indiferente. A solidão tinge-se sempre de preto e branco e deixa na boca o sabor amargo de um cigarro que nunca se acende.
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