sexta-feira, agosto 11, 2006

No man's land (pure fiction?)

Ainda ontem me sentei naquela esplanada e bebi um refresco sob o sol tórrido que, por tradição, se espraia sobre este ponto instável do planeta. Instável não me parece um bom adjectivo, porém. É demasiado eufemístico, fica terrivelmente aquém da realidade nua e crua.
(Há pessoas que se podem dar ao luxo de fazer planos, de ir de férias e calcorrear o mundo inteiro sem sentirem pender sobre si a ameaça de que, ao regressar, já nada restará…)
Foi ontem que me sentei ali. Ou seria mais adiante? Já perdi por completo a noção do espaço e do tempo. Ontem equivale a um passado longínquo, a uma eternidade que se abate sobre nós com uma crueldade insuportável.
De um momento para o outro, como se fossemos embrenhados num pesadelo de dimensões aterradoras, vemos como tudo se desfaz em pó e se esboroa sem remédio.
Mais à frente, havia imensas esplanadas como aquela em que estive ontem (ou há cem anos, pouco importa), recheadas de pessoas sorridentes, bronzeadas ou estupidamente vermelhas (como é o caso do turista típico endinheirado do Ocidente) que se deixavam enlear na doce lentidão do tempo. Não havia amanhã, apenas uma extensão indefinível do tempo.
Estou sozinho nesta rua. Será mesmo uma rua? É uma designação demasiado convencional que não cabe neste mundo absurdo em que mergulhámos. Já todos partiram entretanto, em carros sobrelotados, no desespero de meter toda uma vida numa exígua mala de automóvel. Rumam a parte incerta, não mais incerta do que o rumo das suas frágeis existências, condenados a uma pena de absurdo perpétuo. O amanhã será sempre um horizonte improvável.
Vou pisando os destroços que se multiplicam por toda a parte e, por mais inconcebível que pareça, lembro-me do poema The Waste Land de T.S. Eliot e de uma passagem em concreto:

He who was living is now dead
We who are living are now dying

Estamos condenados a viver uma morte antecipada e a viver uma vida que não passa de um ritual de sobrevivência.
Queria tanto ir a um concerto ou a uma tertúlia e recuperar essa ideia de normalidade. Em vez do estrondo avassalador dos mísseis, preferia um concerto de jazz e as gargalhadas dos meus amigos. Já não ouço uma gargalhada há tanto tempo. Há eternidades e, no fundo, ainda ontem me sentei aqui nesta esplanada e acreditava que o meu destino podia ser simplesmente normal…

A luz ao fundo do túnel

A place called paradise...

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