sexta-feira, agosto 18, 2006

Será a normalidade normal?

A questão do ser ou não normal sempre me fascinou. O conceito de normal aplica-se a uma infinidade de situações: a família normal, a vida normal, uma atitude normal, uma relação normal, um comportamento normal, etc., etc. No fundo, a suposta normalidade concentra em si o seu quê de ditatorial. Se nos incluirmos no círculo dos ditos “normais” e se adoptarmos essa mesma postura, normal, ditada pela sociedade, ao longo da vida, estamos sempre imunes a toda e qualquer hecatombe que sobre nós se abata.
Em teoria, parece uma equação de simples resolução, mas é só mesmo nesse plano. A realidade é bem diferente, porque plural e multifacetada. Porque nem sempre 1 + 1 = 2.
Comecemos pela questão da família. O normal é, de facto, que uma família, strictu sensu, seja constituída pelo núcleo pai, mãe e filhos. Todos os cenários que não integrem estes elementos estão desesperadamente votados ao inevitável sentimento de estranheza por parte do observador externo. Como é possível que haja famílias em que o pai é um tio ou um avô? Em que se desfaz por completo a célebre (e igualmente questionável) tese dos “laços de sangue” (não resisto a uma gargalhada, perdoem-me!), vencendo, por sua vez, a tese dos laços de afecto, esses sim verdadeiramente determinantes para o são desenvolvimento do indivíduo. O papel paternal não se confina apenas ao encontro feliz de um espermatozóide com um óvulo, extravasando a mera biologia e assumindo-se como uma ocupação a tempo inteiro que exige um empenho e uma entrega permanentes.
Creio que as pessoas que nascem no seio de famílias “alternativas”, que escapam por completo ao modelo convencional, cedo desenvolvem um agudo sentido de identidade. A consciência de pertencerem a um universo diferente, que se faz de outras tonalidades e de outros protagonistas, desperta nelas (por vezes, muito precocemente) a urgência da acção, a par de um apurado sentido de sobrevivência. Porque é muito difícil (sobre)viver numa sociedade que se arvora em acérrima guardiã da bendita normalidade!
O que será uma vida normal? Provavelmente, uma vida previsível, completamente dominada pelo peso asfixiante rotina, em que acordamos às oito, vamos para o trabalho (que começa às nove), almoçamos da uma às duas, vamos novamente para o trabalho (até horário a anunciar), regressamos a casa, vemos as banalidades que nos impingem na televisão e as notícias alarmistas, jantamos e vamos para a cama. E no dia seguinte, tudo se repete. Somos Sísifo a carregar todos os dias o seu rochedo até ao cume da montanha. O único momento de libertação é mesmo esse, aquele em que atinge o cimo da montanha, apesar de saber que vai ter de fazer o percurso inverso. Invariavelmente. O nosso único momento de libertação é, eventualmente, ao fim-de-semana ou nas férias. Sabemos que tudo recomeçará.
Não será a vida de um actor, de um artista, de um escritor muito mais "normal"? Porque livre.
Quem serão, afinal, os normais?

Como ser eu mesma sem o ser?


É estranho ouvir o som da minha voz e não a reconhecer das demais
É estranho sentir a fragilidade das coisas
É estranho ser estrangeira de mim mesma
É estranho estranhar-me
É estranho viver na obsessão de ser feliz
É estranho o sorriso
É estranho regressar
É estranho sentir o peso da rotina inescapável
É estranho fugir da rotina
É estranho nunca ver a minha cara senão ao espelho
É estranho sonhar em Alemão
É estranho sentir-me em casa num espaço estranho
É estranho rever as séries que adorava na adolescência
É estranho fazer as mesmas piadas de sempre e não deixar de rir
É estranho ver em Tecnicolor
É estranho envelhecer e sentir-me cada vez mais nova
É estranho que os paradoxos sejam a resposta para tudo
É estranho que uma coisa seja verdade e o seu oposto também
É estranho que chova em Agosto


É estranho que as reticências consigam dizer o indizível
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