domingo, setembro 24, 2006

Medeia ou a tragédia revisitada


A nova temporada do Teatro Viriato abriu com a peça “Medeia”, resultante de uma parceria entre a Companhia Paulo Ribeiro e o Chapitô, numa iluminada encenação de John Mowat.
É surpreendente e ao mesmo tempo desarmante o tremendo poder dos grandes clássicos gregos e a sua actualidade, abrindo-se também a novas e renovadas leituras.
A tragédia original “Medeia” da autoria de Eurípedes centra-se na temática do ciúme obsessivo e do germe da destruição que nele habita. Por ciúme de Jasão, que lhe fora infiel, a terrífica Medeia assassina os próprios filhos, perpetrando esse crime horrendo que selou uma vingança alucinada.
Todos os elementos da tragédia de Eurípedes são evocados nesta “Medeia” revisitada, no entanto o tom cómico sobrepõe-se ao trágico, embora o cómico seja a forma mais refinada de trágico. O riso é uma constante nesta peça, o que atenua a verdade sangrenta do enredo da tragédia.
Com escassos adereços em palco, os quatro brilhantes protagonistas – Leonor Keil, Marta Cerqueira, Jorge Cruz e José Carlos Garcia - recriam o ambiente dessa Grécia antiga, ouvindo-se sonoridades contemporâneas e o Rei Egeu a falar sobre o seu “apartamento na zona histórica de Atenas”! Com quatro tábuas apenas se reconstrói um navio que ruma a Cólquida, numa missão "quase impossível" de obtenção do Velo de Ouro.
Esta peça tem uma forte componente física, denotando-se o primado do corpo sobre a palavra e das suas múltiplas possibilidades. Os diálogos são consistentes e o encadeamento genial.
Esta Medeia revisitada é um apelo à imaginação e à reflexão que se prolonga para além do riso.
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