domingo, outubro 08, 2006

Em Português

É um comportamento muito típico dos portugueses procurar, na panóplia de notícias da actualidade, nomes, factos ou protagonistas que falem em Português ou que, pelo menos, tenham algum vínculo a Portugal. Trata-se de um traço curioso que não se coaduna minimamente com a secular falta de auto-estima lusa.
Por um lado, estamos sempre sedentos de ver um Português em qualquer cargo de prestígio ou a gozar de fama internacional (daí o fascínio causado pela Nelly Furtado e afins que conservam – nem que não seja no apelido – a marca lusitana), mas por outro lado, desenvolveu-se já na consciência colectiva a convicção de que Portugal é um país condenado que, basicamente, nada de mais interessante fez desde as longínquas Descobertas. E já passaram uns valentes séculos…
(Em Fevereiro, assisti a uma discussão muito interessante sobre a tradução de Shakespeare em Português e constatei que são parcas, ou quase esbatidas, as referências deste grande dramaturgo a este “cantinho à beira-mar plantado” no todo da sua obra. O que causa sempre um suspiro de desilusão, pois o português está sempre esperançoso de se ver retratado em qualquer lado, um pouco como aqueles japoneses insistentes que, munidos das suas máquinas fotográficas, se fazem sempre à fotografia, nela inculcando a sua marca eterna.)
Não sendo excepção à regra, confesso que fiquei muito curiosa por saber mais sobre o Prémio Nobel (“Nóbél”, como corrigiria Saramago) da Medicina deste ano: Craig Mello. Ainda antes de desvendarem a ascendência portuguesa deste eminente cientista, desde logo me detive no apelido (mais uma vez o fascínio do apelido e este com consoante dupla!), questionando-me interiormente: “Será?”…
E, de facto, Craig Mello, conforme pude apurar no Expresso deste sábado, que lhe dedica um extenso e fascinante artigo, tinha um avô português de São Miguel e ainda não veio a Portugal. Claro que mais importante do que estas curiosidades genealógicas, é o facto de Craig Mello (Universidade de Massachusetts), em parceria com Andrew Fire (lamentavelmente, não tão bonito como o nosso Craig! Grandes genes!), ter feito uma crucial descoberta de um mecanismo para o controlo da informação genética: o IRAN – interferência de ácido ribonucleico – que trará grandes benefícios ao nível do combate às doenças cancerígenas e que, em 2007, será já aplicada em medicamentos.
Isto, sim, é um contributo vital para a Humanidade e não outras questões de somenos que, no entanto, sempre irão fascinar… os portugueses!
(Vê-se, porém, pela divertida reacção de Craig Mello ao relatar o momento em que a Academia Nobel lhe ligou a anunciar a vitória, em que ele disse: “You got to be kidding!”, que de Portugal só conserva mesmo o apelido, pois o académico típico português padece de uma doença incurável que se reflecte em elevados índices de soberba, de falta de humildade e de sentido de humor!)
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