segunda-feira, novembro 20, 2006

Palavras de silêncio

No início de Outubro, fiz uma descoberta única: apercebi-me de que as minhas mãos falam, tão eloquentemente como o som que ecoa da minha voz. Passo a explicar: desde Outubro comecei a frequentar um curso de Língua Gestual Portuguesa, no IPJ, em Viseu. E de repente, as minhas mãos soltaram-se, adquiriram vida e vontade próprias, desafiando-me a interiorizar e a desbravar outras formas de comunicação. E eu lá vou a reboque das minhas próprias mãos, rendida à lógica dessa língua que me cativou desde o primeiro instante.
Sempre quis aprender todas as línguas possíveis e imaginárias, talvez com o objectivo inconsciente de viver numa qualquer Torre de Babel, em que conseguisse comunicar com todas as pessoas e, docemente, deambulasse por todo esse conjunto infindável de signos e sinais, com uma leveza desarmante.
A Língua Gestual Portuguesa é muito motivada pelos ícones do mundo exterior. Cada gesto, cada palavra parecem fazer todo o sentido, o que não significa que seja uma língua fácil. De todo! Creio que o mais árduo é ler as palavras com a mesma destreza com que soletramos as letras. Ficamos deslumbrados por dizer o nosso nome em LGP, mas quando tentamos ler o que a outra pessoa nos está a dizer, aí a questão adensa-se.
Na primeira aula de LGP, desfizeram-se alguns equívocos geralmente associados a esta língua:
- LGP é uma língua e não uma linguagem, como se assume habitualmente;
- Não existem surdos-mudos, pois uma pessoa surda tem capacidade, a nível do aparelho fonológico, de vocalizar e de proferir sons e, consequentemente, palavras;
- A expressão facial equivale a um 1/3 da comunicação;
Nessas aulas, aprendemos a ouvir o silêncio, o que no meio do tamanho ruído ensurdecedor do quotidiano, é uma verdadeira catarse, um exercício de purificação. E, entretanto, as mãos lá vão falando, encaminhando-nos para trilhos ocultos que a voz ainda não tinha descoberto…
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