sexta-feira, dezembro 21, 2007

Exercício(s) de saudosimo(s)




A pedido do meu grande amigo Júlio, publico aqui neste meu pechisbeque um texto que nos transporta aos saudosos tempos do Liceu, numa fase em que se experienciava a doce "insustentável leveza do ser". Nada será como dantes e esta constatação tem tanto de verdadeira como de penosa. Custa regressar, voltar a trilhar os mesmos caminhos, olhar à nossa volta e ver que tudo mudou. Sobretudo nós próprios. Aqui fica o texto. E já agora Feliz Natal!

7:30 da manhã e eu já fora da cama...
45 minutos para me arranjar.
15 minutos de viagem pois moro longe...
8:30...o super irritante toque de campainha!
110 minutos mal contados de aulas, sem cadernos, sem caneta, sem paciência, sem juízo!
10:15 finalmente!
120 intermináveis minutos de matemática que passaram e corro freneticamente em direcção ao Infante.
15 minutos de intervalo, estou longe de ouvir a irritante campainha tocar novamente!
3 cigarros e 1 café para ver se acordo, mas mesmo assim não está fácil!
2 horas, mais coisa menos coisa, que faltam para o almoço.
90 minutos que ainda aí vêm de geometria descritiva...
1 manhã difícil.

domingo, novembro 18, 2007

Mind the gap

Pode parecer algo provinciano regressar de uma viagem e correr para o portátil para relatar os momentos mais marcantes ou os olhares que se desenham sobre uma cidade até então desconhecida. Estive pela primeira vez em Londres e foi, de certa forma, emocionante calcorrear os cantos e os recantos da História e Cultura inglesas que estudei na Faculdade e, no fundo, constatar in loco a veracidade (ou não) daqueles conceitos comummente associados à civilização britânica.

Há alguns anos, li um livro muito interessante do aclamado jornalista inglês Jeremy Paxman intitulado The English, em que o autor analisa e disseca, ao pormenor, a imagem típica do Inglês e as suas obsessões de eleição: o desporto, os jardins, o apego à tradição e à monarquia, uma certa aversão à diferença e a crença inabalável na perenidade de um (já extinto) Império. É um livro que usa o humor como fio condutor e que propõe uma visão sempre controversa e provocadora sobre o que significa ser-se Inglês.
Durante esta semana em Londres, pensei imensas vezes neste livro e – ainda que uma semana não seja sequer tempo suficiente para concluir o que quer que seja de verdadeiramente substancial – tentei acrescentar o meu próprio olhar a essas ideias já previamente formuladas.

Um dos aspectos que mais me marcou (provavelmente, por ser proveniente de um país com grande défice de cultura cívica) foi a preocupação com os cidadãos. Convenhamos que os estratégicos avisos “look right” ou “look left” das passadeiras se revelam decisivos para os turistas que ficam completamente às avessas nos semáforos, sem saber para que lado olhar ao certo.
O sistema de transportes de Londres impressionou-me particularmente, pois denota-se uma constante vigilância e atenção para com os utentes. O “mind the gap” proferido por aquela voz cavernosa e algo autoritária pode ser entediante, sem dúvida, mas ninguém poderá alegar desconhecimento. No fundo, há sempre um “big brother” orwelliano (no bom sentido, porém) a olhar pelos comuns mortais e a avisar-nos permanentemente de tudo, mesmo quando tudo funciona com normalidade. Ora, para quem vem de Portugal – em que ainda nem sequer acertámos na sinalização – esta é uma diferença abissal e sente-se um certo desalento, pois o nosso país ainda de terá evoluir muito em termos de mentalidade e de cultura cívica. Se atingíssemos esse estádio com a mesma sofreguidão e rapidez com que chegámos ao consumo desenfreado, seria excelente, mas bem sabemos que essas mudanças subterrâneas demoram tempo a entrar em marcha.

And now for something completely different, como diriam os geniais Monty Python:
Já há muito que queria visitar a Tate Modern e fiquei completamente em êxtase com essa experiência. O que mais me impressiona na arte contemporânea é o facto de esta ser profundamente incompreensível.
Haverá decerto uma bibliografia infinita de análises de obras, de instalações, de esculturas, de quadros, etc., mas o que me interessa é a forma como essas mesmas obras me co(movem) e me apelam à imaginação, ao sentido crítico e à interpretação sempre plural.
Na Tate Modern, para além das exposições temporárias, cada piso é votado a um tema, a um fio condutor, pelo que as obras não estão organizadas de acordo com a habitual ordem cronológica, o que encerra desde logo um sentido de desafio pela pluralidade de visões distintas e controversas que se entrecruzam. O espólio é verdadeiramente abrangente e diversificado: Pollock (um dos meus pintores favoritos pelo modo frenético como as tintas se cruzam na tela), Dali, Picasso, Miró, só para citar aqueles nomes “para turista ver”!

Como todas as histórias tendem a ser circulares, acabei por comprar o mais recente livro de Jeremy Paxman, esse autor que foi uma verdadeira luz que me conduziu por entre os meandros da identidade britânica, que se centra na questão da (in)utilidade da realeza nos dias que correm: On Royalty. Promete, indeed!

terça-feira, outubro 16, 2007

Caetanear


Electrizante. De todos os adjectivos que vêm à superfície para sintetizar o concerto de sábado passado no Coliseu de Lisboa, este parece-me o mais elucidativo.
O Caetano que se apresentou em palco nesse dia – completamente casual com os seus jeans rotos nos joelhos e acompanhado de um grupo de músicos claramente muito jovens – desarmou por completo o público e desfez lugares comuns. Desenganem-se os que pensam que Caetano iria dormir à sombra de um qualquer hit “telenovelesco” como sucedeu com o já tão mastigado “Sozinho”(adaptado, inclusivamente, para versões mais aceleradas de discoteca!) ou que se iria refastelar na segurança de ser uma referência obrigatória do panorama cultural brasileiro.
Neste último álbum – – Caetano enveredou por uma vertente marcadamente rock e por sonoridades bastante diversificadas, nos antípodas de qualquer ideia pré-concebida, chegando mesmo a pegar em clássicos da MPB e a dar-lhes surpreendentes roupagens de jazz.
Caetano é o símbolo do poder da permanente (re)invenção na música e na arte e também a prova de que mesmo quando já se atingiu o estatuto de verdadeiro ícone incontestável, é sempre possível refazer, surpreender, reformular, provocar, tendo por base a matéria-prima do culto das palavras. Caetano irá sempre derrubar pensamentos únicos e uniformizadores, contestando a (des)ordem da política internacional (“alguma coisa está fora da ordem na nova ordem mundial”, reza uma das músicas), as desigualdades sociais, a discriminação racial, as profundas clivagens entre poderosos e oprimidos, munindo-se para isso de uma arma mágica: a poesia. Porque criticar é preciso.

sábado, setembro 22, 2007

(In)traduzível


A tradução é uma viagem, umas vezes mais curta, outras mais longa, umas vezes mais pacífica, outras mais conturbada, mas sempre uma viagem, incerta, enigmática. E eu acabei de chegar de uma dessas longas viagens pelas palavras em que se tenta com ardor conciliar dois universos, duas culturas e duas perspectivas do mundo que se pretendem harmoniosas e fluidas. Durante essa viagem, é impossível fazer interrupções ou pausas para mergulhar numa outra realidade. Não há outra realidade possível que não aquela que se nos apresenta perante os olhos. Já sentia saudades, porém, de escrever as minhas próprias palavras, de me abandonar ao sabor das frases, do atropelo de pensamentos e de emoções, e de tentar escrever o texto que traduza por completo o que sinto, aquele que me habita e que anseia ser verbalizado e posto a nu, sem pudor. Mas nunca consigo reler o que escrevo, acho sempre que ainda não foi dessa ou desta que esse texto saiu das entranhas e ganhou vida própria. Como é árdua a tarefa de traduzir...sem trair!

segunda-feira, agosto 13, 2007

O direito à evasão


Parece cada vez mais um luxo a que poucos se podem dar. Não será certamente um pensamento original, mas nem por isso menos perturbador. Hoje em dia, a evasão absoluta é uma rotunda impossibilidade. Paradoxalmente, a voraz mecânica da vida quotidiana cada vez o exige mais.
Haverá sensação melhor do que fazermos do cérebro uma agradável tábua rasa e fixarmos o nosso olhar no horizonte, no mar, no aconchegante ulular das ondas que nos acolhem no seu regaço? E despirmos a mente de preocupações, de inquietações (quantas vezes desnecessárias porque feitas do nada e do vazio), fruindo uma sucessão de instantes que se queriam eternos?
A tecnologia também não ajuda muito neste (e em tantos outros) aspectos. Os telemóveis, cada vez mais complexos e intrincados (só falta mesmo cozerem o pão ou aspirarem a sala), ditaram o fim do direito à evasão e à vontade de isolamento, sem a necessidade de estarmos sempre contactáveis e termos de opinar sobre o que quer que seja. O silêncio tornou-se uma jóia raríssima nos ruidosos tempos que correm.

Agora surgem os GPS que, com precisão de relojoeiro suíço, nos levam (pela mão, como se fôssemos criancinhas) da porta de nossa casa até ao destino que traçámos. Já não há margem para desvios, atalhos sinuosos, mapas riscados até à exaustão, ruelas percorridas com o fervor da descoberta.
Já não há espaço para nos perdermos. Não quero chegar a um destino, cuja rota é definida por um instrumento tecnológico despojado de alma que, ditatorialmente, me guia pelo emaranhado de estradas, ruas e artérias. Quero fazer do percurso o destino e sentir nos lábios o doce sabor da total ausência de norte. Porque só quando nos perdemos é que nos encontramos verdadeiramente.

domingo, julho 08, 2007

O homo philosophicus


Eu não acredito em estereótipos, mas que os há, há. Na semana passada, li uma entrevista muito interessante a um dos meus autores favoritos de literatura de expressão portuguesa, José Eduardo Agualusa, a propósito do lançamento da sua nova obra: “As mulheres de meu pai” (cujo apetecível título convida logo a mergulhar em universos plurais e culturalmente electrizantes). Este livro será depois convertido ao cinema, a propos.
Nessa mesma entrevista, o autor referia um aspecto (que embora possa parecer de somenos) me levou a escrever este texto: o facto de nunca ter sido um atleta ou, já não indo tão longe, de não ter a mínima propensão para as lides desportivas, contrariando, assim, a veia olímpica da família.
Os Gregos proclamavam alto e a bom som as vantagens da “mente sã em corpo são”, é um facto, mas devo dizer que eu, fiel partidária do cultivo da mente, nunca fui propriamente um ás na parte do exercício do corpo. Isto mesmo para não dizer que era um desastre completo nas aulas de Educação Física e que só não tinha negativa a esta disciplina, porque tinha boas notas em tudo o resto e que, desta forma, me redimia da minha falta de jeito para o assunto.
Haverá, assim, um denominador comum a todas as pessoas de Letras? Partindo do óbvio desinteresse ou falta de jeito para o exercício físico, tentei encontrar outros pontos de convergência que poderão unir esta grande massa de gente, que se mune das pernas para caminhar e, quanto muito, para correr timidamente, sem se aventurar em grandes exibições de destreza física.
Todos os estereótipos são contestáveis (e condenáveis) à partida, mas, ainda assim, poderei aventurar-me a enumerar algumas características que distinguem esta nobre prole das Letras (este será um estereótipo completamente inofensivo):

- uma tendência para descrever as questões mais corriqueiras da forma mais eloquente possível (não é snobismo, é mesmo incapacidade de recorrer ao léxico mais trivial);
- uma aversão a tudo o que tenha a ver com bancos, certificados de aforro, prestações, taxas de juro e afins, que, simplesmente, não se encaixam numa concepção e leitura do mundo que se quer poética e despojada de quaisquer algarismos;
- a procura incessante do adjectivo certo e quase sempre o mais erudito (mais uma vez repito, não é sobranceria, mas sim o facto de se falar uma outra língua);
- uma total indiferença perante os temas vazios que dominam as conversas de café do quotidiano
- a convicção de que uma casa cheia de livros é bem mais interessante do que qualquer topo de gama da marca x (que nem sequer se distinguem - a total ignorância em relação ao mundo automóvel é outra característica!)
- uma ironia corrosiva que, por vezes, pode ser muito contundente e até mal interpretada, mas sempre necessária

É um pouco como no filme de Woody Allen “As faces de Harry”, em que um dos personagens aparece desfocado e, desde logo, demarcado dos demais. A família só o conseguiu ver quando colocou as lentes adequadas. No fundo, as gentes das Letras só esperam que o mundo os veja com a graduação certa. E sem alimentarem qualquer esperança de um dia virem a ganhar a medalha de ouro em Atletismo!

quinta-feira, junho 28, 2007

Home sweet home

Sempre acreditei que, na vida, era possível virar a página em definitivo e esperar pelo que o próximo capítulo nos reservava, com todos os seus enredos intrincados e, sobretudo, inesperados.
E continuo a perseguir essa crença que só cai por terra quando passo pela casa que testemunhou o meu crescimento e me abrigou quantas e quantas vezes nos momentos mais conturbados, erguendo-se como um porto seguro, imune a qualquer intempérie. Ao vislumbrá-la, abandonada e solitária, definhando a cada instante, numa lenta agonia, sinto-me impotente. Tento estender-lhe a mão, mas ela já perdeu as forças por completo. Ainda lhe digo adeus. Em vão.
Mas como acredito no virar de página, sei que haverá sempre outra casa e outro cenário que nos vai habitando e que, lentamente, vai fechando as portas entreabertas e acolhendo-nos no seu seio, num acto de comovente doçura.
Ainda que uma parte de mim continue a correr desenfreadamente pelos jardins e a subir as escadas num frenesim de impaciência, como o fazia no tempo em que acreditamos que tudo é eterno...

terça-feira, junho 12, 2007

A ordem natural das coisas


Antes de começar a escrever um novo texto, tento desesperadamente encontrar o título para a partir daí poder deambular sem angústias e ao sabor das palavras que aguardam em fila indiana, numa ânsia de supremacia.
Acredito que cada coisa tem um lugar único e intransmissível, daí a minha obsessão em querer atribuir um abrigo seguro ao papelinho mais ínfimo, em caixas que se amontoam cheias de tudo e de nada ao mesmo tempo, mas que fazem todo o sentido num universo microcósmico muito próprio.
Não consigo deitar fora palavras que escrevi, mesmo que à distância temporal pareçam absolutamente ridículas e até risíveis.
Não consigo livrar-me de um exército de papéis que me persegue desde sempre e que eu cultivo com um amor, no mínimo, estranho: bilhetes de cinema, bilhetes de metro, de Carris, cartões de restaurantes, mapas já datados, cartas, bilhetes, recados...
Para onde quer que vá, levo todos esses pedacinhos de mim que contrariam a minha essência nómada. Esses vestígios quase paleolíticos fixam-me, de certa forma, e através deles, ainda que por vezes já danificados e amarelecidos pelo tempo (o que encerra em si uma magia indizível), posso ler nas entrelinhas do que sou.

sábado, maio 26, 2007

Hotel Puerta America em Madrid

Deixo aqui algumas imagens de um hotel alucinado e arrojado que abriu recentemente em Madrid. Cada piso do hotel tem a assinatura de um decorador diferente, criando-se cenários simultaneamente oníricos, psicadélicos e futuristas. Todo o Hotel é uma espécie de "twilight zone" em que se perde a noção do tempo e da convencionalidade do espaço. Um verdadeiro hino ao poder do design e, sobretudo, da urgência da diferença. Hotel Puerta America. Ficam as portas abertas.

domingo, maio 20, 2007

sábado, maio 19, 2007

Last saturday



E agora para algo completamente inconfessável: no sábado passado fui ao concerto de George Michael em Coimbra e, mais inconfessável ainda, adorei! Foi um espectáculo memorável, ao mesmo tempo electrizante e muito comovente, afinal de contas as suas baladas inconfundíveis acompanharam toda uma geração que marcou presença neste concerto.
Eu era ainda "menina e moça" (como diria Bernardim) quando ouvia aquele que constitui já um clássico de canções de Natal - o "Last Christmas" - e desde então sempre me senti feliz ao ouvir essas músicas, sem qualquer razão aparente, apenas pela música em si, mesmo tratando-se de canções que abordavam a ruptura e a angústia da perda (era ainda demasiado nova para perceber os caminhos sinuosos do jogo dos afectos), esboçava um sorriso inesperado. E foi sempre assim, por mais inacreditável que seja e também desconcertante, pois não percebo como posso conciliar o amor à bossa nova, a Tom Jobim, a João Gilberto ou aos grandes ícones da MPB, como Chico ou Caetano, ao jazz, ao soul e ao mesmo tempo partilhar esse espaço com a música de George Michael, cujas letras e arranjos musicais radicam num certo (estarei a ser benevolente?) simplismo.
Há contradições não resolvidas dentro de todos nós que serão sempre uma verdadeira incógnita, um puzzle sem solução aparente. Quando vi os concertos de Caetano ou o de Chico, no ano passado, senti-me invadida por uma torrente de poesia que varre por completo a alma e a desnuda irremediavelmente, como se tivéssemos a absoluta convicção de aquele poema específico retrata a nossa vida.
No concerto de George Michael fui transportada para os tempos da infância e à memória vinham todas as imagens a ela associada, com uma nitidez desarmante e durante essas 3 horas, em que dancei, pulei e cantei a plenos pulmões, senti-me simplesmente feliz, sem ter de dissertar sobre os porquês ou sobre a legitimidade desse estado de espírito reconfortante. Como se não houvesse amanhã e, naquele momento, queria que aquela felicidade se estendesse para sempre. Por mais contraditório que pareça...ao som da voz inquebrantável e poderosíssima de George Michael!

A luz ao fund(ã)o do túnel

Descobri na passada quarta-feira um verdadeiro oásis de cultura, numa cidade inesperada e, teoricamente, votada a um eterno desconhecimento. No Fundão, nasceu em Fevereiro a Moagem - Cidade do Engenho e das Artes, que desde logo cativa pela originalidade do nome.
Neste reconvertido edifício que outrora albergava a Moagem do Fundão, e que durante a segunda guerra mundial alimentou - literalmente - a população local, apresentam-se exposições de cariz eminentemente contemporâneo, exibindo neste momento uma extensão da exposição da Gulbenkian "O estado do mundo / The state of the world".
Para além dos concertos e de originais workshops (como por exemplo um muito actualizado workshop sobre tratamento de bonsais) que decorrem na Moagem, este magnetizante edifício que conserva a traça original, abraçando em simultâneo (e sem ser sequer contraditório) os traços da arquitectura de cariz contemporâneo, oferece ainda um tranquilizante lounge com uma vista absolutamente encantadora sobre a Serra da Gardunha e desenha-se para breve a abertura do restaurante e de um núcleo museológico de arqueologia industrial, no qual figurarão as máquinas que habitavam a antiga Moagem do Fundão.
Haverá muitas "Moagens" por esse país fora que ainda permanecem na clandestinidade e, nos bastidores desses mesmos espaços, residem vontades inabaláveis e temerárias movidas pela crença de que as cidades de pequena e média dimensão podem ser núcleos de modernidade e de contemporaneidade e que - mais importante ainda - os seus habitantes poderão fruir das mais recentes produções artísticas, sem que para tal tenham de se deslocar aos "grandes centros".
O Teatro Municipal da Guarda, o Teatro Viriato, em Viseu, o Teatro de Vila Real, e a Moagem do Fundão constituem ecos de uma mudança que subtilmente se vai implementando e que, dessa forma, devolve o prazer de viver nas e as cidades. E pelo prazer é que vamos.
Deixo aqui algumas imagens para aguçar o apetite, numa cidade onde se degusta cultura e cerejas carnudas, de sabor inconfundível.

sábado, abril 28, 2007

Memorável


Comecei há dias a ler compulsivamente (como deveria ser sempre o acto da leitura, por essência, com sofreguidão e na vertigem da finitude) o livro de memórias de Rosado Fernandes, com o sugestivo e apetitoso título: Memórias de um rústico erudito - Viagem à volta de lentes, terras e políticos.
Numa noite de insónias (as mais produtivas e interessantes, no fundo. A vida por uma sucessão de insónias iluminadas!), há alguns anos, assisti ao programa de Baptista Bastos Conversas Secretas (que ia para o ar a horas naturalmente impróprias, como todos os programas de qualidade da televisão portuguesa), cujo convidado era Rosado Fernandes, político, homem das Letras, fundador da CAP e, acima de tudo, irreverente por natureza.
Foi precisamente a ironia corrosiva desta figura quase renascentista, pela imensidão de funções que desempenhara na sua vida, que me prendeu de imediato. É muito raro, sobretudo em Portugal, país de pergaminhos empoeirados e de vénias submissas, encontrar uma voz completamente diferente (ainda por cima de direita, historicamente mais propensa ao cultivo do convencionalismo) que se mune de um sarcasmo acutilante para pôr o dedo na ferida e contestar o estado de coisas actual.
Esta autobiografia é um convite a entrar no universo particular deste político notável, atravessando todo o século XX português e quiçá, concluindo, que este Portugal continua a ser muito pequeno e tacanho para acolher personalidades como esta, que fazem da provocação uma saudável forma de estar na vida e de manter a sanidade, num país que parece ter perdido a noção de qualquer lógica.
Vou ainda no início de uma viagem que se prevê memorável, sob o signo do humor e da ironia, os meios mais eloquentes de reflexão.

domingo, abril 15, 2007

Por detrás das palavras


Na passada sexta-feira, assisti no Teatro Viriato a umas peças de teatro que, seguramente, mais me marcou, porque declaradamente avessa à lógica da palavra.
Por detrás dos montes, levada a cena pelo Teatro Meridional, retrata vários frescos do quotidiano no Nordeste Transmontano e, durante cerca de uma hora, somos enleados nessa teia quase indizível feita de sons e de sentidos, em que a palavra parece quase supérfula. E, de facto, um dos grandes pilares desta peça assenta precisamente na ausência de palavras, numa oralidade quase reduzida ao mínimo, à essência primordial. Há diálogos que se tentam estabelecer, mas que não passam da intenção ao acto de verbalizar.
A envolver todos os cenários da vida privada e comunitária de Trás-os-Montes - a religiosidade fervorosa, os pauliteiros, as crenças e mitos - ouvem-se os sons locais, os chocalhos das ovelhas, os instrumentos ancestrais. E nesta profusão de sensações, acreditamos mesmo que as palavras não são imprescindíveis, nem que tão pouco precisamos delas como fio condutor.
Outro aspecto muito interessante consiste no objectivo fulcral deste projecto - Províncias - que pretende revelar um Portugal quase oculto e esquecido, mas que também integra a identidade colectiva. Por vezes, damos connosco a observar essas manifestações de cariz popular e regional como se fossem fenómenos essencialmente exóticos e distantes. A verdade, porém, tem outros contornos e todo esse Portugal longínquo está indelevelmente próximo de nós e da herança genética.
Em poucas décadas, Portugal sofreu uma metamorfose imensa e, inebriado pela euforia do consumismo desenfreado e da suposta aproximação ao nível de vida da União Europeia, foi-se distanciando irremediavelmente das raízes - com tudo o que têm de enriquecedor e de esclarecedor - que ajudam a compor a noção de identidade e de pertença a um universo cultural específico.
Esta peça de teatro leva esse Portugal primordial ao palco. Sem palavras. Apenas com a eloquência dos sentidos que têm o poder de revelar o intraduzível. Uma verdadeira epifania.

sábado, abril 07, 2007

A vida dos outros

Imagine um Estado que perscrutasse os seus movimentos mais ínfimos, mais íntimos e que registasse, com precisão de relojoeiro suíço, todas as suas conversas, desabafos, discussões e diálogos, actuando até como uma qualquer entidade divina que despoleta acontecimentos inesperados e com desenlace irremediavelmente trágico.
No filme “Das Leben der anderen” (A vida dos outros), acompanhamos o percurso de um fanático agente da Stasi (a polícia política da ex-RDA) que assenta arraiais num sótão inóspito por cima do apartamento de um potencial “inimigo do socialismo”, um poeta e dramaturgo cuja luta individual se centra somente na procura incessante de liberdade artística.
O agente da Stasi fica assim encarregue de vigiar a vida privada de Georg Dreyman e de redigir relatórios diários em torno do seu quotidiano e da sua intimidade, não descurando qualquer pormenor.
Georg Dreyman vivia com uma actriz algo etérea e neurótica, Christa-Maria Sieland, acossada pelo medo tremendo de se ver privada de não poder exercer a sua arte, tornando-se presa fácil do assédio de um Ministro da Cultura, obscuro e abjecto, que ordenou o processo de vigilância sobre Georg Dreyman.
Christa-Maria vivia num permanente movimento pendular entre o amor alucinado a Georg e o amor à arte da representação, o que a conduziu, como seria previsível, a um beco em que não se vislumbrava qualquer saída possível que não a morte.

Paradoxalmente, à medida que a vigilância se adensava, o agente da Stasi imiscuía-se com mais intensidade na vida de Georg e de Christa-Maria, acabando por se enlear nessa doce teia feita de amor e de desejo de liberdade, por contraponto a Estado castrador e implacável que reprimia o indivíduo e toda a sua força criativa. Criara-se, assim, um território de profunda empatia fundada na noção de humanidade que obrigou a uma escolha por parte do carrasco, porém também vítima da prepotência de um socialismo que se queria impor à força, por meio da ditadura do pensamento único.

Após o suicídio de um realizador conceituado, Albert Jerska, a quem tinha sido vetado o exercício da sua profissão, Georg Dreyman elabora uma lista polémica de intelectuais que cometeram suicídio na ex-RDA, sentindo pender sobre eles o espectro da “morte da esperança”. Essa lista foi publicada no Ocidente na revista Spiegel, provocando um autêntico cataclismo político na Alemanha de Leste.

O agente da Stasi optou por silenciar este acto de Georg Dreyman, mercê dessa proximidade que se entreteceu entre eles (de forma unilateral, obviamente), sensível ao verdadeiro drama quotidiano experienciado pelos cidadãos da ex-RDA, que nem sequer eram donos e senhores da sua intimidade.

“Das Leben der anderen”, ainda que retrate uma realidade de
contornos trágicos, constitui um sinal de esperança e de crença na humanidade que irá sempre unir os indivíduos, em qualquer ponto do globo, em qualquer época, sob qualquer regime, por mais cerceador da liberdade que seja.

segunda-feira, março 26, 2007

Grande? Português

Confesso que foi com grande indignação que assisti ontem à vitória inequívoca de António de Oliveira Salazar, no programa “Os Grandes Portugueses”. É certo que, antes de mais, se trata de um concurso e, nessa óptica, não deve constituir motivo para alarmismos exacerbados. O universo de participantes perfaz pouco mais de 5% da população portuguesa, daí que não seja totalmente legítimo extrapolar e tirar ilações precipitadas.
Toda a polémica que se criou em torno deste concurso, brilhantemente liderado por Maria Elisa, relativamente à integração de Salazar na lista dos elegíveis poderá não passar de, citando Shakespeare, “much ado about nothing”. No entanto, e mesmo que este programa se inscreva no domínio do entretenimento, a vitória rotunda de Salazar ontem à noite é, sem dúvida, mote para uma reflexão aturada sobre a real percepção do período obscuro e cinzento da ditadura fascista.
Quais são, assim, as leituras possíveis deste voto maciço em Salazar (41%)?
1. Voto da provocação
Numa primeira fase, Salazar não fazia parte da lista de candidatos, pelo que se gerou toda uma onda de protesto, no sentido de o incluir. Há nesta votação uma grande dose de provocação e é sabido que, nestas questões, as figuras mais nefastas levam sempre a melhor e as minorias se mobilizam em massa para concretizar os seus objectivos mais perversos.
2. Voto do descontentamento
Para além do sentido provocatório, poderá ler-se também nesta adesão alucinada à figura sinistra de Salazar uma quota-parte de descontentamento em relação à corrupção que assola a vida política portuguesa e as classes dirigentes, em todo o historial da jovem democracia portuguesa.
Salazar foi sempre associado a um ideal de despojamento, de honestidade e de incorruptibilidade, funcionando, desta feita, como um contraponto a um país de “sacos azuis” e afins, numa onda de corrupção que grassa na política portuguesa (e não só).
O ideal democrático é ainda muito ténue em Portugal, pelo que é urgente criar uma educação para a democracia e para o pleno exercício da cidadania. Salazar dominou o país durante décadas sem fim, num longo Inverno de mordaças e de opressão, mas a memória desses tempos parece ter-se desvanecido por completo, o que não pode deixar de causar sérias preocupações.
3. Voto da ignorância
O sistema educativo português falha a vários níveis e no que respeita ao ensino da História do séc. XX, falha rotundamente. O Estado Novo é abordado pela rama, por assim dizer, nunca se apostando no estudo aprofundado (e necessário) de todas as características deste regime fascista e ditatorial. Há um maior insistência ao nível das demais ditaduras congéneres europeias do que ao nível do caso português.
Por outro lado, a imagem de Salazar e, por extensão, da sua ditadura baseia-se numa série de equívocos que resulta e redunda numa total ignorância, num declarado desconhecimento de causa que urge esclarecer com consistência.
Na verdade, só muito recentemente é que começam a surgir as primeiras investigações acerca do período do fascismo e da tortura, da opressão e da violência exercida por este, contrariando a noção errónea e perigosa de um fascismo de “brandos costumes”. Uma boa sugestão de leitura neste âmbito: As vítimas de Salazar – Estado Novo e Violência Política, da autoria de João Madeira, Luís Farinha e Irene Pimentel, que nos propõem um roteiro detalhado e documentado pela violência do regime salazarista.
No genial “Herman Enciclopédia”, havia um sketch intitulado “Um Salazar em cada esquina”, em que aparecia um Presidente do Conselho metade ditador, metade prostituta, numa qualquer esquina anónima. O que a imagem tem de hilariante também tem de lamentavelmente real. Ainda há uma grande fatia de saudosistas do regime fascista que gostariam de ver, de facto, “um Salazar em cada esquina”…
No Reino Unido, ganhou Churchill. Em França, De Gaulle. Na Alemanha, Adenauer. Em Portugal, Salazar. Um bom mote para a reflexão e para a educação.
"A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento." Milan Kundera

segunda-feira, março 19, 2007

Olhares sobre Berlim


Ironias do destino capitalista
Este bonequinho que aparece na fotografia é o famosíssimo Ampelmann de Berlim, outrora sinónimo do regime comunista da RDA que, na obsessão do detalhe, achou por bem criar um símbolo diferente e, naturalmente, inscrito nas classes trabalhadoras.
(É delicioso o pormenor do chapéu de camponês.)
Ironia das ironias, hoje em dia este inocente Ampelmann é alvo de um merchandising imenso e pode, assim, ser encontrado em carteiras, estojos, porta-chaves, t-shirts e demais souvenirs identificativos da cidade. O capitalismo apropria-se de forma implacável de um ícone do poderio comunista, expandindo-o a todo o país.
Anda um espectro pela Europa… é o do Ampelmann!

O novo Museu da DDR
Abriu recentemente o Museu da RDA / DDR, na Ilha dos Museus, o qual segue uma linha absolutamente interactiva e de profundo diálogo com o público que o visita. Neste museu, é possível entrar em cenários típicos do quotidiano na República Federal Alemã, nas cozinhas, passeando o olhar pelos produtos que se vendiam então e até mesmo entrar a bordo de um icónico Trabant. Fica aqui a sugestão para desbravar um museu diferente que se centra numa época histórica plena de densidade e que continua a fazer sentir o seu magnetismo único.

A vida dos outros
Numa incursão pela Dussmann (na Friedrichstrasse), que é um verdadeiro centro comercial cultural - leia-se uma tentação a cujas insinuações é completamente impossível resistir - comprei alguns livros e filmes, entre eles o oscarizado (não que esse facto tenha qualquer influência na minha escolha) Das Leben der anderen. Este filme foi premiado este ano com o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro e constitui um retrato do policiamento da vida privada pelo Estado da ex-RDA, que nega terminantemente o direito à individualidade.

Berlim não é passível de se sintetizar em poucos ângulos. Ficam aqui três olhares sobre esta metrópole plural que firma com aqueles que a visitam um pacto de sedução eterna. Evocando Kennedy, todos nós acabamos por ser um pouco "berlinenses".
No coração da Europa, Berlim exibe, de forma magistral, a força colossal da regeneração e do impulso vital da criação. Ainda há, de facto, um muro mental entre a parte ocidental e a parte oriental. Nos rostos das pessoas da zona leste da cidade, sente-se o travo amargo de uma grande nostalgia ou da tal "Ostalgie", como a definem brilhantemente os próprios berlinenses. No leste, ainda há electrizantes lojas "kitsch", a par de uma certa resistência ao "modus vivendi" ocidental que uniformiza os indivíduos. A magia espraia-se por Berlim e vem de leste...

domingo, março 04, 2007

Der Himmel über Berlin

O frenesim da expectativa que antecede qualquer viagem. Sinto-me sempre regredir à infância em que na véspera de qualquer passeio, passava a noite em claro (verdadeiras "noites brancas"à la Dostoievski), revirava-me e dava voltas e mais voltas infindáveis na cama e projectava essa minha ansiedade, imaginando como seria o dia seguinte que se desenhava memorável.
Depois de amanhã regresso a Berlim, por uma semana, cidade única, em que a História se revela em cada rua, a cada passo. Berlim não se envergonha dos momentos mais sombrios do seu percurso histórico e faz questão de o preservar e de o veicular a todos que a procuram.
O que mais me impressionou em Berlim - para além da verdadeira orgia de estilos arquitectónicos, em que cada edifício se ergue em forma de provocação, numa harmonia entre tradição e contemporaneidade - o impacto causado, sobretudo, pelo parlamento alemão, o Reichstag, imponente e grandioso, que nos convoca a uma irresistível viagem pela História. Ainda no Reichstag, a ousada cúpula de Norman Foster merece um especial destaque. Daí se avista Berlim em toda a sua extensão, em toda a sua beleza, cinzenta, é certo, mas Berlim detém aquele fascínio de diva triste, que, embora triste, sabe que será sempre bela.
O filme de Wim Wenders - Der Himmel über Berlin (Wings of Desire) - é uma boa iniciação a esta cidade que, no fundo, concentra em si várias cidades e diferentes microcosmos. Melhor do que ver esta obra-prima de Wim Wenders, a preto e branco, só mesmo partir rumo a Berlim. A cores.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Como disse?

O Estado da Sérvia foi inocentado, pelo Tribunal Internacional de Justiça da ONU, do crime de genocídio de cerca de 8.000 muçulmanos, em Sbrenica, na Bósnia.
Não querendo traçar paralelismos, a priori contestáveis e até descabidos, porque em dimensões completamente diversas, em termos do (não) funcionamento da Justiça, tema recorrente em Portugal, creio que há sempre aquela noção remota de que a Justiça acaba por ser feita e que os algozes serão exemplarmente punidos pelos seus crimes.
Porém, neste caso concreto, o Tribunal da ONU deliberou pela não punição da Sérvia aquando do genocídio perpetrado na Bósnia em 1995. Os líderes deste massacre em Sbrenica, Radovan Karadzic e o comandante militar Ratko Mladic, continuam a monte.
E longínqua continua também a crença num ideal consistente de justiça. Já não sei de quem é a autoria da seguinte citação: "Um morto é uma tragédia, um milhão de mortos uma estatística", que encerra uma clarividência aterradora, mas, lamentavelmente, muito real.
Imagem retirada daqui

domingo, fevereiro 25, 2007

Babel(izando)

Confesso que estava com imensas expectativas em relação ao último filme do realizador mexicano Iñarritú, sobretudo depois de 21 Gramas, que para além das representações irrepreensíveis de Naomi Watts e Sean Penn, surpreendia pela temática (o peso da alma) e pela construção do enredo. Babel não diverge muito do filme anterior em termos de lógica de elaboração das histórias, em forma de puzzle, por meio de um invisível fio condutor que, no final, vem à superfície e se restabelece a ordem circular.
Egipto, fronteira EUA/México e Japão, três mundos antagónicos à partida, cujas tramas e seus protagonistas acabam por estar indelevelmente ligados, num denominador comum: a vertigem da intraduzibilidade.
Há um disparo em pleno Egipto profundo, longe dos grandes chamarizes turísticos e da civilização, um verdadeiro no man’s land, que é, verdadeiramente (ironias à parte), o tiro de partida para a trama que se vai tecendo, com recuos e avanços temporais, em Babel. O facto de a vítima desse disparo ser norte-americana não é, de todo, inocente, criando desde logo um imbróglio de questões políticas que, incompreensivelmente, complexificam o que deveria ser simples: salvar uma vida humana. No deserto, um homem em desespero que tenta desvendar as palavras estranhas e ver para além desse manto negro de incompreensibilidade.
Na fronteira entre os EUA e México, as históricas tensões entre estes povos levam a uma situação extrema em que saem lesadas as vítimas do costume, sempre suspeitas. Nesta parte do puzzle, evoca-se o drama dos imigrantes ilegais nos EUA que, apesar de contribuírem com sangue, suor e lágrimas para a economia norte-americana, têm sempre a pairar sobre eles o fantasma da suspeição.
No Japão, mais concretamente na metrópole fervilhante que é Tóquio, retrata-se a solidão extrema de uma surda que luta também (tal como todos os personagens deste filme) por veicular a sua carência extrema, através das mãos, a boca da alma.
A actriz que desempenha este papel – Rinko Kikuchi – é, sem dúvida, a grande revelação de Babel, pois consegue transmitir na plenitude o desespero do isolamento e a busca incessante, porém dolorosa, de afecto, através da expressão facial e dos seus dedos ávidos de diálogo.
Babel prendeu-me mais pela forma - como por exemplo aquele que, para mim, foi o ponto alto (mais uma vez regresso a Tóquio e à magnetizante representação de Rinko Kikuchi): a cena filmada na discoteca vista da perspectiva de uma pessoa com surdez em que o som frenético alterna com a sua total ausência, numa total orgia de luzes, em que se desenha uma dança (infrutífera) de sedução – do que propriamente pelo conteúdo.
Há uma insistência desconfortável, em meu entender, no olhar sobre a agonia, uma abordagem demasiado obcecada com a dor, com o sangue a escorrer, omnipresente, a tal ponto que perde credibilidade e o espectador só quer libertar-se desse colete de forças.
Creio que talvez seja por isso que Babel suscitou posições tão extremadas por parte da crítica cinematográfica. Não é, de todo, um filme de consensos, mas é, claramente, uma obra grandiosa (mais pela forma do que pelo conteúdo, insisto), que pisca o olho à Academia. Veremos hoje de madrugada se a Academia acede a esta tentativa aberta de sedução.
Vale a pena entrar nesta Babel dos tempos modernos, sobretudo para descobrir a promissora Rinko Kikuchi que, seguramente, merece o Óscar de Melhor Actriz Secundária.

domingo, fevereiro 18, 2007

Das melodias da (per)/(di)versão

O subconsciente consegue urdir enredos fantásticos e construir, assim, verdadeiras obras-primas do non-sense e da inversão/transgressão de todas as lógicas. Na passada sexta-feira, assisti a um espectáculo, levado a cena no Teatro Viriato, que poderia ser a perfeita transposição do mundo onírico para a realidade.
“Variações sobre a perversão”, da autoria de António Durães (voz) e Luís Pipa (piano), é um recital profundamente provocador, no qual pululam canções dos mais diversos (e aparentemente antagónicos) quadrantes: chanson française, música popular e pimba (!) portuguesa e brasileira, girando em torno do mote aglutinador da perversão.
Como enquadramento, um cenário em tons quentes e aveludados, dominado pelo vermelho-luxúria, a media luz (como não poderia deixar de ser), onde despontam (sempre perplexas) bonecas insufláveis, parte integrante do espectáculo.
O riso e o prazer sensual andam, sem dúvida, de mãos dadas e talvez não seja por acaso que, em Português do Brasil, o verbo “gozar” abrace estas duas dimensões.
O espectáculo de António Durães e Luís Pipa – numa produção do Teatro Nacional de S. João – é um convite aberto ao riso despudorado e à reflexão sobre as pequenas grandes perversões que habitam o ser humano e que ainda hoje são tabu. É notório um certo pudor do público em soltar uma gargalhada, sobretudo tratando-se, por exemplo, de um hit de Marco Paulo, com o sugestivo (e perfeitamente enquadrado) título de Taras e Manias, porém “vestido”de forma arrojada, intimista e até (quase) aceitável.
No entanto, é interessante constatar como este recital se baseia mais no poder da transgressão do que na noção da perversão propriamente dita. Clássicos da chanson française são apropriados e envoltos em roupagens diversas, convivendo, numa mesma música, a língua francesa e a língua portuguesa, o que resulta de forma hilariante.
O mesmo se aplica aos “clássicos” do repertório pimba nacional – de palavras gastas e desgastadas – capazes, neste espectáculo, de surpreender, não só fruto do desarmante virtuosismo musical de António Durães e de Luís Pipa, mas pela estranha sensação de se ouvir estas músicas pela primeira vez. Nunca me tinha ocorrido, por exemplo, que estas fossem escritas e pensadas em Português do Brasil, com os cómicos “me morde”, “me arranha”, “se mostra”, entre outras pérolas.
“Variações sobre a perversão” é um genial exercício de transgressão que convoca o riso sem tabus. Despudoradamente. Comme il faut.
Perversão obrigatória.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Happy Valentine's! (a fictional journey)

No meio de todo aquele caos doméstico, com as crianças ranhosas a gritar a plenos pulmões, a cafeteira ao lume, o assado no forno (já quase a entrar em ebulição), a roupa a balançar num frenesim de toalhas e cuecas XXL entrelaçadas, o cão num rodopio alucinado a tentar alcançar a sua cauda fugidia, ela já não se conseguia encontrar, nem sabia sequer se existia.
Por vezes, costumava beliscar-se ou interpelar estranhos na rua sob o pretexto de querer saber as horas, só para se certificar de que ainda estava viva. Imaginava a morte como a total invisibilidade, em que tentava falar com as pessoas, em desespero absoluto, sem obter resposta. Pensamentos algo excêntricos para alguém como ela, prisioneira de uma vida recheada de afazeres, de correrias, de fardos, de gritos de crianças inquietas e de bibelots empoeirados que ela limpava com falso afinco enquanto trauteava melodias de épocas em fora (segundo consta) feliz.
E ele ali estava, perfeitamente patético naquele pijama de recluso. Só lhe faltava mesmo o número que os irmãos Metralha envergavam nas suas camisas às riscas. Mas esses, pelo menos, com o bom senso de não saltarem dos livros de banda desenhada para a realidade. As pantufas estavam já gastas de tantos quilómetros trilhados da cozinha-sala, sala-cozinha, sala-quarto, quarto-sala e, quando estava bem-disposto, sala-rua, rua-sala, para deitar fora o lixo, mas só mesmo se ocorresse um milagre ou qualquer outro fenómeno do domínio do sobrenatural.
Chegara a um ponto em que ela duvidava do seu próprio nome. Aliás, naquele mundo que habitava não fazia diferença alguma achar-se portadora de uma identidade autónoma. De que lhe servia essa certeza? Não era a consciência de ser única que lhe ia ajudar a limpar a porcaria do cão (particularmente estúpido - como o irmão Metralha ali esparramado no sofá de cabedal - pois passava o dia todo atrás da cauda) ou a aspirar.
O afecto é uma excentricidade de quem tem empregadas e muito dinheiro para esbanjar. Com toda aquela loucura diária, ela não conseguia definir o que sentia, excepto em relação aos filhos (o eterno mistério da maternidade). Tudo o resto se esbatera, desfizera-se em pó, num pó que talvez ela já tivesse varrido sem querer.
- Que dia é hoje?
- Sei lá que dia é hoje… espera…14 de Fevereiro.
Numa ironia sem fim, o barulho cavernoso do aspirador abafara por completo a resposta dele.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Quartos com vista para...as palavras

Imagine o que seria poder pernoitar num hotel completamente (de)votado ao culto dos livros e das palavras, em que cada andar corresponde a uma área do saber, recheado de livros e mais livros a perder de vista.
Em Nova Iorque (where else?), há um hotel assim: o Library Hotel que reúne (pasme-se!) mais de 6.000 volumes, à inteira disposição dos seus clientes / leitores compulsivos.
É certo e sabido que qualquer leitor frenético sofre da ânsia de querer ler todos os livros do universo, mesmo sabendo que para concretizar esse sonho alucinado, teria de viver vidas infindáveis e que, ainda assim, uma eternidade não bastaria...
Trocava, sem pestanejar, um quarto com "sea view" por um quarto com "book view".

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Is a pipe really a pipe?

A língua inglesa tem a grande vantagem de conseguir definir a essência das coisas em palavras objectivas, diria mesmo straight to the point. O Português, por seu lado perde-se num labirinto infindável e denso de frases aparentemente intermináveis, submersas num mar de divagações e devaneios. Não sei se serão reflexos ou ainda resquícios de um certo sebastianismo, deste nosso carácter fatalmente lírico que tenta perder-se nas palavras. O Inglês encontra-se e racionaliza-se nelas e por meio delas.
Há momentos em que somos, de súbito, acordados para a omnipresença dos nossos medos que julgávamos há muito enterrados. Acreditamos sempre que somos donos e senhores do nosso destino e que todos os fantasmas ficaram bem guardados num qualquer baú poeirento que nos habita. Mas de repente tudo vem à tona e acabamos mesmo por naufragar nesse oceano implacável que se adensa a cada instante. É nesses momentos que precisamos mesmo de focus upon ourselves e de discernir um raio, ainda que ténue, de luz para nos evadirmos de nós mesmos.
Não passará tudo de uma questão linguística? Anseio por aprender uma língua que me defina e que consiga exprimir cada nuance dos meus compartimentos secretos. Pelo menos em Inglês, há um rumo delineado em que para cada questão, espreita sempre uma resposta, ávida de se extravasar.
Talvez a solução resida numa qualquer Torre de Babel com línguas a digladiarem-se ferozmente e que, no final (há sempre um happy end inevitável), emerge a verdade, como um cristal de múltiplas faces que se deixa penetrar pela luz, numa epifania libertadora. Até lá, resta apenas a certeza de se caminhar pelas trevas, na ilusão da lucidez.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Uma questão de peso



Será para este ideal de beleza que caminhamos? Onde estão as mulheres balzaquianas ou as musas de Ticciano de carnes fartas e formas voluptuosas? As notícias sobre mulheres que sucumbem fatalmente à anorexia, à bulimia e a todo um rol de graves perturbações alimentares sucedem-se a um ritmo alarmante. E este preocupante fenómeno não atinge apenas modelos e profissionais da moda, mas as cidadãs comuns que se vêem forçadas a emagrecer de forma compulsiva.

Não obstante, surgem blogs em defesa deste estilo de vida doentio e desesperado. No fundo, o que se propõe é toda uma vida de abstinência, num eterno Ramadão ilógico e, inevitavelmente, fatal.

Lembro-me de ter lido algures que a palavra preferida de Jorge Amado, na língua portuguesa, era (nem mais nem menos) do que "bunda". Pelos casos de anorexia que têm surgido no Brasil, nos últimos tempos, e que tantas vidas de jovens ceifaram, parece que também aí, país sobejamente conhecido pela beleza das formas femininas e pelo culto do corpo bem delineado, se começa a ceder a este estranho apelo do emagrecimento desenfreado. Donde já não restam "bundinhas", apenas solidão, carência e, no final da linha, a morte, sempre à espreita.

Não deixa de ser irónico que, nos países desenvolvidos, se abdique voluntariamente de alimentos que escasseiam nos países em que se (sobre)vive abaixo do limiar da pobreza...

In the morning


Há dias assim, em que pensamos que esta névoa se vai prolongar até ao final dos tempos e resvalamos para um pessimismo sem sentido.
De súbito, recebemos um sinal de amigos geograficamente distantes, mas próximos o suficiente para permanecerem em nós.
A maior riqueza de todas não se traduz em números, mas no poder da memória e na certeza de que seremos sempre imortais para alguém.

El cielo gira

Até ao final de Fevereiro, decorrerá um ciclo de cinema do Cine Clube de Viseu com o leitmotiv: “As cidades e as serras”, onde passarão filmes como: “Volver” de Almodôvar, “Rebeldes de Bairro” de Larry Clark (realizador do polémico “Kids”) ou “Através das oliveiras” do consagrado realizador iraniano Abbas Kiarostami.
Ontem foi a vez do documentário da realizadora espanhola Mercedes Alvarez: “El cielo gira” que se centra na observação meticulosa e prolongada da vida de uma aldeia remota, Aldealseñor, com os ses 14 habitantes, em que o número de mortos suplanta o dos vivos.
Esteticamente, este documentário oferece imagens de incontornável beleza, detendo-se no poder do pormenor - o sol a irromper pela manhã gélida, o fascínio de uma paisagem natural despojada e particularmente convidativa a momentos de introspecção, o deleite que se retira de uma sesta num dia de calor – tudo isto envolto numa aura de serena contemplação, numa aurea mediocritas que parecia já extinta nos tempos frenéticos da contemporaneidade.
Pelo filme perpassa uma noção muito interessante (já tematizada por Kundera) que é a da lentidão. Tudo se processa a um ritmo muito pausado (por vezes, quase desesperante), parecendo mesmo que nada de relevante ocorre.
No entanto, o silêncio da paisagem envolvente é rompido pelas conversas espirituosas dos habitantes envelhecidos que destilam a sua ironia corrosiva em cada frase. Encaram a morte com absoluta naturalidade, convivem com os mortos como se estes fossem ainda vivos (há um “personagem” que confessa ter encontrado a cabeça de um morto nas suas escavações e de lhe ter tocado no cabelo!).
Vêem passar as caravanas políticas do PSOE e do PP que lá deixam apenas dois cartazes de propaganda, mas ressentem-se por não falarem com eles directamente, por não os interepelarem, num estado de manifesta invisibilidade. No entanto, os habitantes de Aldealseñor discutem com tremenda perspicácia os temas quentes da política internacional, condenando a invasão do Iraque (o filme data de 2003) e a política (sempre) ambígua dos Estados Unidos, os eternos dois pesos e duas medidas com que fazem valer a sua hegemonia mundial (a verdade é tão óbvia).
O passar dos anos, o despojamento, o isolamento cruel, a cortina de silêncio despertou neles uma lucidez desarmante. Não há nada que os inquiete, nem mesmo a morte.
O tempo é um luxo a que poucos se podem dar. E aqui, nesta aldeia longínqua da região de Castela, ele parece ainda subsistir…

terça-feira, janeiro 09, 2007

Do teatro para a vida

No sábado, assisti à apresentação pública de um workshop de “Teatro do Oprimido” que decorreu no IPJ de Viseu, sob a orientação de José Soeiro (Teatro Rivoli). Esta corrente de teatro nasceu no Brasil pela mão de Augusto Boal, tendo emergido originariamente no seio das comunidades bolivianas. O teatro do oprimido, como o próprio nome indica, é direccionado para as camadas mais desfavorecidas e centra-se nos temas mais pungentes da sociedade, numa tentativa de transformar comportamentos e mentalidades por meio do teatro e da encenação de situações-limite que, em teoria, deveriam levar o cidadão comum à acção.
Neste caso concreto, havia 4 personagens em palco, dois casais de gerações distintas, todavia que partilhavam modos de vida extremamente semelhantes. As mulheres, mãe e filha, eram vítimas de opressão e de violência doméstica, num dilacerante mimetismo de destinos que conduzia ao mesmo beco sem saída. Os homens, sempre autoritários e brutais, sempre implacáveis e opacos em termos de partilha de afectos.
É certo que se retratava um quadro extremo de violência que, no entanto, se faz sentir em milhares de lares portugueses, essa absoluta negação da máxima “país de brandos costumes”. Esse cancro silencioso e letal que está tão entranhado no quotidiano das vítimas que se multiplicam a cada instante.
Num segundo momento, a peça era representada ao sabor do gosto do público que ocupava o palco e que, com um bater de palmas, tinha o poder de mudar os fados dos personagens, qual “deus ex machina” que detinha a chave do mais inesperado volte-face e que podia interagir com os personagens em palco. É curioso verificar que, até mesmo no domínio da ficção, a mudança era lenta e os personagens avessos a esta. Qualquer desenlace parecia improvável, tão arreigados eram os comportamentos, as atitudes, as mentalidades.
Porém, a peça acabou por ser coroada com um “happy end” que, por mais convencional que pareça, se assume como o único desfecho lógico num contexto desprovido de qualquer lógica, envolto na mais pura brutalidade.
Das palavras à acção, do teatro para a vida. O teatro do oprimido prova que isso é mais do que uma mera probabilidade.
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