quarta-feira, janeiro 17, 2007

Uma questão de peso



Será para este ideal de beleza que caminhamos? Onde estão as mulheres balzaquianas ou as musas de Ticciano de carnes fartas e formas voluptuosas? As notícias sobre mulheres que sucumbem fatalmente à anorexia, à bulimia e a todo um rol de graves perturbações alimentares sucedem-se a um ritmo alarmante. E este preocupante fenómeno não atinge apenas modelos e profissionais da moda, mas as cidadãs comuns que se vêem forçadas a emagrecer de forma compulsiva.

Não obstante, surgem blogs em defesa deste estilo de vida doentio e desesperado. No fundo, o que se propõe é toda uma vida de abstinência, num eterno Ramadão ilógico e, inevitavelmente, fatal.

Lembro-me de ter lido algures que a palavra preferida de Jorge Amado, na língua portuguesa, era (nem mais nem menos) do que "bunda". Pelos casos de anorexia que têm surgido no Brasil, nos últimos tempos, e que tantas vidas de jovens ceifaram, parece que também aí, país sobejamente conhecido pela beleza das formas femininas e pelo culto do corpo bem delineado, se começa a ceder a este estranho apelo do emagrecimento desenfreado. Donde já não restam "bundinhas", apenas solidão, carência e, no final da linha, a morte, sempre à espreita.

Não deixa de ser irónico que, nos países desenvolvidos, se abdique voluntariamente de alimentos que escasseiam nos países em que se (sobre)vive abaixo do limiar da pobreza...

In the morning


Há dias assim, em que pensamos que esta névoa se vai prolongar até ao final dos tempos e resvalamos para um pessimismo sem sentido.
De súbito, recebemos um sinal de amigos geograficamente distantes, mas próximos o suficiente para permanecerem em nós.
A maior riqueza de todas não se traduz em números, mas no poder da memória e na certeza de que seremos sempre imortais para alguém.

El cielo gira

Até ao final de Fevereiro, decorrerá um ciclo de cinema do Cine Clube de Viseu com o leitmotiv: “As cidades e as serras”, onde passarão filmes como: “Volver” de Almodôvar, “Rebeldes de Bairro” de Larry Clark (realizador do polémico “Kids”) ou “Através das oliveiras” do consagrado realizador iraniano Abbas Kiarostami.
Ontem foi a vez do documentário da realizadora espanhola Mercedes Alvarez: “El cielo gira” que se centra na observação meticulosa e prolongada da vida de uma aldeia remota, Aldealseñor, com os ses 14 habitantes, em que o número de mortos suplanta o dos vivos.
Esteticamente, este documentário oferece imagens de incontornável beleza, detendo-se no poder do pormenor - o sol a irromper pela manhã gélida, o fascínio de uma paisagem natural despojada e particularmente convidativa a momentos de introspecção, o deleite que se retira de uma sesta num dia de calor – tudo isto envolto numa aura de serena contemplação, numa aurea mediocritas que parecia já extinta nos tempos frenéticos da contemporaneidade.
Pelo filme perpassa uma noção muito interessante (já tematizada por Kundera) que é a da lentidão. Tudo se processa a um ritmo muito pausado (por vezes, quase desesperante), parecendo mesmo que nada de relevante ocorre.
No entanto, o silêncio da paisagem envolvente é rompido pelas conversas espirituosas dos habitantes envelhecidos que destilam a sua ironia corrosiva em cada frase. Encaram a morte com absoluta naturalidade, convivem com os mortos como se estes fossem ainda vivos (há um “personagem” que confessa ter encontrado a cabeça de um morto nas suas escavações e de lhe ter tocado no cabelo!).
Vêem passar as caravanas políticas do PSOE e do PP que lá deixam apenas dois cartazes de propaganda, mas ressentem-se por não falarem com eles directamente, por não os interepelarem, num estado de manifesta invisibilidade. No entanto, os habitantes de Aldealseñor discutem com tremenda perspicácia os temas quentes da política internacional, condenando a invasão do Iraque (o filme data de 2003) e a política (sempre) ambígua dos Estados Unidos, os eternos dois pesos e duas medidas com que fazem valer a sua hegemonia mundial (a verdade é tão óbvia).
O passar dos anos, o despojamento, o isolamento cruel, a cortina de silêncio despertou neles uma lucidez desarmante. Não há nada que os inquiete, nem mesmo a morte.
O tempo é um luxo a que poucos se podem dar. E aqui, nesta aldeia longínqua da região de Castela, ele parece ainda subsistir…

terça-feira, janeiro 09, 2007

Do teatro para a vida

No sábado, assisti à apresentação pública de um workshop de “Teatro do Oprimido” que decorreu no IPJ de Viseu, sob a orientação de José Soeiro (Teatro Rivoli). Esta corrente de teatro nasceu no Brasil pela mão de Augusto Boal, tendo emergido originariamente no seio das comunidades bolivianas. O teatro do oprimido, como o próprio nome indica, é direccionado para as camadas mais desfavorecidas e centra-se nos temas mais pungentes da sociedade, numa tentativa de transformar comportamentos e mentalidades por meio do teatro e da encenação de situações-limite que, em teoria, deveriam levar o cidadão comum à acção.
Neste caso concreto, havia 4 personagens em palco, dois casais de gerações distintas, todavia que partilhavam modos de vida extremamente semelhantes. As mulheres, mãe e filha, eram vítimas de opressão e de violência doméstica, num dilacerante mimetismo de destinos que conduzia ao mesmo beco sem saída. Os homens, sempre autoritários e brutais, sempre implacáveis e opacos em termos de partilha de afectos.
É certo que se retratava um quadro extremo de violência que, no entanto, se faz sentir em milhares de lares portugueses, essa absoluta negação da máxima “país de brandos costumes”. Esse cancro silencioso e letal que está tão entranhado no quotidiano das vítimas que se multiplicam a cada instante.
Num segundo momento, a peça era representada ao sabor do gosto do público que ocupava o palco e que, com um bater de palmas, tinha o poder de mudar os fados dos personagens, qual “deus ex machina” que detinha a chave do mais inesperado volte-face e que podia interagir com os personagens em palco. É curioso verificar que, até mesmo no domínio da ficção, a mudança era lenta e os personagens avessos a esta. Qualquer desenlace parecia improvável, tão arreigados eram os comportamentos, as atitudes, as mentalidades.
Porém, a peça acabou por ser coroada com um “happy end” que, por mais convencional que pareça, se assume como o único desfecho lógico num contexto desprovido de qualquer lógica, envolto na mais pura brutalidade.
Das palavras à acção, do teatro para a vida. O teatro do oprimido prova que isso é mais do que uma mera probabilidade.
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