quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Como disse?

O Estado da Sérvia foi inocentado, pelo Tribunal Internacional de Justiça da ONU, do crime de genocídio de cerca de 8.000 muçulmanos, em Sbrenica, na Bósnia.
Não querendo traçar paralelismos, a priori contestáveis e até descabidos, porque em dimensões completamente diversas, em termos do (não) funcionamento da Justiça, tema recorrente em Portugal, creio que há sempre aquela noção remota de que a Justiça acaba por ser feita e que os algozes serão exemplarmente punidos pelos seus crimes.
Porém, neste caso concreto, o Tribunal da ONU deliberou pela não punição da Sérvia aquando do genocídio perpetrado na Bósnia em 1995. Os líderes deste massacre em Sbrenica, Radovan Karadzic e o comandante militar Ratko Mladic, continuam a monte.
E longínqua continua também a crença num ideal consistente de justiça. Já não sei de quem é a autoria da seguinte citação: "Um morto é uma tragédia, um milhão de mortos uma estatística", que encerra uma clarividência aterradora, mas, lamentavelmente, muito real.
Imagem retirada daqui

domingo, fevereiro 25, 2007

Babel(izando)

Confesso que estava com imensas expectativas em relação ao último filme do realizador mexicano Iñarritú, sobretudo depois de 21 Gramas, que para além das representações irrepreensíveis de Naomi Watts e Sean Penn, surpreendia pela temática (o peso da alma) e pela construção do enredo. Babel não diverge muito do filme anterior em termos de lógica de elaboração das histórias, em forma de puzzle, por meio de um invisível fio condutor que, no final, vem à superfície e se restabelece a ordem circular.
Egipto, fronteira EUA/México e Japão, três mundos antagónicos à partida, cujas tramas e seus protagonistas acabam por estar indelevelmente ligados, num denominador comum: a vertigem da intraduzibilidade.
Há um disparo em pleno Egipto profundo, longe dos grandes chamarizes turísticos e da civilização, um verdadeiro no man’s land, que é, verdadeiramente (ironias à parte), o tiro de partida para a trama que se vai tecendo, com recuos e avanços temporais, em Babel. O facto de a vítima desse disparo ser norte-americana não é, de todo, inocente, criando desde logo um imbróglio de questões políticas que, incompreensivelmente, complexificam o que deveria ser simples: salvar uma vida humana. No deserto, um homem em desespero que tenta desvendar as palavras estranhas e ver para além desse manto negro de incompreensibilidade.
Na fronteira entre os EUA e México, as históricas tensões entre estes povos levam a uma situação extrema em que saem lesadas as vítimas do costume, sempre suspeitas. Nesta parte do puzzle, evoca-se o drama dos imigrantes ilegais nos EUA que, apesar de contribuírem com sangue, suor e lágrimas para a economia norte-americana, têm sempre a pairar sobre eles o fantasma da suspeição.
No Japão, mais concretamente na metrópole fervilhante que é Tóquio, retrata-se a solidão extrema de uma surda que luta também (tal como todos os personagens deste filme) por veicular a sua carência extrema, através das mãos, a boca da alma.
A actriz que desempenha este papel – Rinko Kikuchi – é, sem dúvida, a grande revelação de Babel, pois consegue transmitir na plenitude o desespero do isolamento e a busca incessante, porém dolorosa, de afecto, através da expressão facial e dos seus dedos ávidos de diálogo.
Babel prendeu-me mais pela forma - como por exemplo aquele que, para mim, foi o ponto alto (mais uma vez regresso a Tóquio e à magnetizante representação de Rinko Kikuchi): a cena filmada na discoteca vista da perspectiva de uma pessoa com surdez em que o som frenético alterna com a sua total ausência, numa total orgia de luzes, em que se desenha uma dança (infrutífera) de sedução – do que propriamente pelo conteúdo.
Há uma insistência desconfortável, em meu entender, no olhar sobre a agonia, uma abordagem demasiado obcecada com a dor, com o sangue a escorrer, omnipresente, a tal ponto que perde credibilidade e o espectador só quer libertar-se desse colete de forças.
Creio que talvez seja por isso que Babel suscitou posições tão extremadas por parte da crítica cinematográfica. Não é, de todo, um filme de consensos, mas é, claramente, uma obra grandiosa (mais pela forma do que pelo conteúdo, insisto), que pisca o olho à Academia. Veremos hoje de madrugada se a Academia acede a esta tentativa aberta de sedução.
Vale a pena entrar nesta Babel dos tempos modernos, sobretudo para descobrir a promissora Rinko Kikuchi que, seguramente, merece o Óscar de Melhor Actriz Secundária.

domingo, fevereiro 18, 2007

Das melodias da (per)/(di)versão

O subconsciente consegue urdir enredos fantásticos e construir, assim, verdadeiras obras-primas do non-sense e da inversão/transgressão de todas as lógicas. Na passada sexta-feira, assisti a um espectáculo, levado a cena no Teatro Viriato, que poderia ser a perfeita transposição do mundo onírico para a realidade.
“Variações sobre a perversão”, da autoria de António Durães (voz) e Luís Pipa (piano), é um recital profundamente provocador, no qual pululam canções dos mais diversos (e aparentemente antagónicos) quadrantes: chanson française, música popular e pimba (!) portuguesa e brasileira, girando em torno do mote aglutinador da perversão.
Como enquadramento, um cenário em tons quentes e aveludados, dominado pelo vermelho-luxúria, a media luz (como não poderia deixar de ser), onde despontam (sempre perplexas) bonecas insufláveis, parte integrante do espectáculo.
O riso e o prazer sensual andam, sem dúvida, de mãos dadas e talvez não seja por acaso que, em Português do Brasil, o verbo “gozar” abrace estas duas dimensões.
O espectáculo de António Durães e Luís Pipa – numa produção do Teatro Nacional de S. João – é um convite aberto ao riso despudorado e à reflexão sobre as pequenas grandes perversões que habitam o ser humano e que ainda hoje são tabu. É notório um certo pudor do público em soltar uma gargalhada, sobretudo tratando-se, por exemplo, de um hit de Marco Paulo, com o sugestivo (e perfeitamente enquadrado) título de Taras e Manias, porém “vestido”de forma arrojada, intimista e até (quase) aceitável.
No entanto, é interessante constatar como este recital se baseia mais no poder da transgressão do que na noção da perversão propriamente dita. Clássicos da chanson française são apropriados e envoltos em roupagens diversas, convivendo, numa mesma música, a língua francesa e a língua portuguesa, o que resulta de forma hilariante.
O mesmo se aplica aos “clássicos” do repertório pimba nacional – de palavras gastas e desgastadas – capazes, neste espectáculo, de surpreender, não só fruto do desarmante virtuosismo musical de António Durães e de Luís Pipa, mas pela estranha sensação de se ouvir estas músicas pela primeira vez. Nunca me tinha ocorrido, por exemplo, que estas fossem escritas e pensadas em Português do Brasil, com os cómicos “me morde”, “me arranha”, “se mostra”, entre outras pérolas.
“Variações sobre a perversão” é um genial exercício de transgressão que convoca o riso sem tabus. Despudoradamente. Comme il faut.
Perversão obrigatória.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Happy Valentine's! (a fictional journey)

No meio de todo aquele caos doméstico, com as crianças ranhosas a gritar a plenos pulmões, a cafeteira ao lume, o assado no forno (já quase a entrar em ebulição), a roupa a balançar num frenesim de toalhas e cuecas XXL entrelaçadas, o cão num rodopio alucinado a tentar alcançar a sua cauda fugidia, ela já não se conseguia encontrar, nem sabia sequer se existia.
Por vezes, costumava beliscar-se ou interpelar estranhos na rua sob o pretexto de querer saber as horas, só para se certificar de que ainda estava viva. Imaginava a morte como a total invisibilidade, em que tentava falar com as pessoas, em desespero absoluto, sem obter resposta. Pensamentos algo excêntricos para alguém como ela, prisioneira de uma vida recheada de afazeres, de correrias, de fardos, de gritos de crianças inquietas e de bibelots empoeirados que ela limpava com falso afinco enquanto trauteava melodias de épocas em fora (segundo consta) feliz.
E ele ali estava, perfeitamente patético naquele pijama de recluso. Só lhe faltava mesmo o número que os irmãos Metralha envergavam nas suas camisas às riscas. Mas esses, pelo menos, com o bom senso de não saltarem dos livros de banda desenhada para a realidade. As pantufas estavam já gastas de tantos quilómetros trilhados da cozinha-sala, sala-cozinha, sala-quarto, quarto-sala e, quando estava bem-disposto, sala-rua, rua-sala, para deitar fora o lixo, mas só mesmo se ocorresse um milagre ou qualquer outro fenómeno do domínio do sobrenatural.
Chegara a um ponto em que ela duvidava do seu próprio nome. Aliás, naquele mundo que habitava não fazia diferença alguma achar-se portadora de uma identidade autónoma. De que lhe servia essa certeza? Não era a consciência de ser única que lhe ia ajudar a limpar a porcaria do cão (particularmente estúpido - como o irmão Metralha ali esparramado no sofá de cabedal - pois passava o dia todo atrás da cauda) ou a aspirar.
O afecto é uma excentricidade de quem tem empregadas e muito dinheiro para esbanjar. Com toda aquela loucura diária, ela não conseguia definir o que sentia, excepto em relação aos filhos (o eterno mistério da maternidade). Tudo o resto se esbatera, desfizera-se em pó, num pó que talvez ela já tivesse varrido sem querer.
- Que dia é hoje?
- Sei lá que dia é hoje… espera…14 de Fevereiro.
Numa ironia sem fim, o barulho cavernoso do aspirador abafara por completo a resposta dele.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Quartos com vista para...as palavras

Imagine o que seria poder pernoitar num hotel completamente (de)votado ao culto dos livros e das palavras, em que cada andar corresponde a uma área do saber, recheado de livros e mais livros a perder de vista.
Em Nova Iorque (where else?), há um hotel assim: o Library Hotel que reúne (pasme-se!) mais de 6.000 volumes, à inteira disposição dos seus clientes / leitores compulsivos.
É certo e sabido que qualquer leitor frenético sofre da ânsia de querer ler todos os livros do universo, mesmo sabendo que para concretizar esse sonho alucinado, teria de viver vidas infindáveis e que, ainda assim, uma eternidade não bastaria...
Trocava, sem pestanejar, um quarto com "sea view" por um quarto com "book view".

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Is a pipe really a pipe?

A língua inglesa tem a grande vantagem de conseguir definir a essência das coisas em palavras objectivas, diria mesmo straight to the point. O Português, por seu lado perde-se num labirinto infindável e denso de frases aparentemente intermináveis, submersas num mar de divagações e devaneios. Não sei se serão reflexos ou ainda resquícios de um certo sebastianismo, deste nosso carácter fatalmente lírico que tenta perder-se nas palavras. O Inglês encontra-se e racionaliza-se nelas e por meio delas.
Há momentos em que somos, de súbito, acordados para a omnipresença dos nossos medos que julgávamos há muito enterrados. Acreditamos sempre que somos donos e senhores do nosso destino e que todos os fantasmas ficaram bem guardados num qualquer baú poeirento que nos habita. Mas de repente tudo vem à tona e acabamos mesmo por naufragar nesse oceano implacável que se adensa a cada instante. É nesses momentos que precisamos mesmo de focus upon ourselves e de discernir um raio, ainda que ténue, de luz para nos evadirmos de nós mesmos.
Não passará tudo de uma questão linguística? Anseio por aprender uma língua que me defina e que consiga exprimir cada nuance dos meus compartimentos secretos. Pelo menos em Inglês, há um rumo delineado em que para cada questão, espreita sempre uma resposta, ávida de se extravasar.
Talvez a solução resida numa qualquer Torre de Babel com línguas a digladiarem-se ferozmente e que, no final (há sempre um happy end inevitável), emerge a verdade, como um cristal de múltiplas faces que se deixa penetrar pela luz, numa epifania libertadora. Até lá, resta apenas a certeza de se caminhar pelas trevas, na ilusão da lucidez.
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