domingo, fevereiro 18, 2007

Das melodias da (per)/(di)versão

O subconsciente consegue urdir enredos fantásticos e construir, assim, verdadeiras obras-primas do non-sense e da inversão/transgressão de todas as lógicas. Na passada sexta-feira, assisti a um espectáculo, levado a cena no Teatro Viriato, que poderia ser a perfeita transposição do mundo onírico para a realidade.
“Variações sobre a perversão”, da autoria de António Durães (voz) e Luís Pipa (piano), é um recital profundamente provocador, no qual pululam canções dos mais diversos (e aparentemente antagónicos) quadrantes: chanson française, música popular e pimba (!) portuguesa e brasileira, girando em torno do mote aglutinador da perversão.
Como enquadramento, um cenário em tons quentes e aveludados, dominado pelo vermelho-luxúria, a media luz (como não poderia deixar de ser), onde despontam (sempre perplexas) bonecas insufláveis, parte integrante do espectáculo.
O riso e o prazer sensual andam, sem dúvida, de mãos dadas e talvez não seja por acaso que, em Português do Brasil, o verbo “gozar” abrace estas duas dimensões.
O espectáculo de António Durães e Luís Pipa – numa produção do Teatro Nacional de S. João – é um convite aberto ao riso despudorado e à reflexão sobre as pequenas grandes perversões que habitam o ser humano e que ainda hoje são tabu. É notório um certo pudor do público em soltar uma gargalhada, sobretudo tratando-se, por exemplo, de um hit de Marco Paulo, com o sugestivo (e perfeitamente enquadrado) título de Taras e Manias, porém “vestido”de forma arrojada, intimista e até (quase) aceitável.
No entanto, é interessante constatar como este recital se baseia mais no poder da transgressão do que na noção da perversão propriamente dita. Clássicos da chanson française são apropriados e envoltos em roupagens diversas, convivendo, numa mesma música, a língua francesa e a língua portuguesa, o que resulta de forma hilariante.
O mesmo se aplica aos “clássicos” do repertório pimba nacional – de palavras gastas e desgastadas – capazes, neste espectáculo, de surpreender, não só fruto do desarmante virtuosismo musical de António Durães e de Luís Pipa, mas pela estranha sensação de se ouvir estas músicas pela primeira vez. Nunca me tinha ocorrido, por exemplo, que estas fossem escritas e pensadas em Português do Brasil, com os cómicos “me morde”, “me arranha”, “se mostra”, entre outras pérolas.
“Variações sobre a perversão” é um genial exercício de transgressão que convoca o riso sem tabus. Despudoradamente. Comme il faut.
Perversão obrigatória.

1 comentário:

ritanery disse...

Um patamar invejável!
O de poder fazer o que nos vai na alma sem ter a preocupação se vai ou não agradar!E é quando agrada mais...mas até se chegar lá tem de se fazer mil vénias e continências...valerá a pena? VALE!!!Quem ri por último...
Beijinhos e venham mais cantorias com vozes cavernosas!Nós cá gostamos!Pelo menos como público já estamos nesse patamar, com a vantagem de não fazer as ditas vénias, apenas com a consequência de passarmos por pseudo-intelectuais!O que até me dá um certo gozo;)

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