segunda-feira, março 26, 2007

Grande? Português

Confesso que foi com grande indignação que assisti ontem à vitória inequívoca de António de Oliveira Salazar, no programa “Os Grandes Portugueses”. É certo que, antes de mais, se trata de um concurso e, nessa óptica, não deve constituir motivo para alarmismos exacerbados. O universo de participantes perfaz pouco mais de 5% da população portuguesa, daí que não seja totalmente legítimo extrapolar e tirar ilações precipitadas.
Toda a polémica que se criou em torno deste concurso, brilhantemente liderado por Maria Elisa, relativamente à integração de Salazar na lista dos elegíveis poderá não passar de, citando Shakespeare, “much ado about nothing”. No entanto, e mesmo que este programa se inscreva no domínio do entretenimento, a vitória rotunda de Salazar ontem à noite é, sem dúvida, mote para uma reflexão aturada sobre a real percepção do período obscuro e cinzento da ditadura fascista.
Quais são, assim, as leituras possíveis deste voto maciço em Salazar (41%)?
1. Voto da provocação
Numa primeira fase, Salazar não fazia parte da lista de candidatos, pelo que se gerou toda uma onda de protesto, no sentido de o incluir. Há nesta votação uma grande dose de provocação e é sabido que, nestas questões, as figuras mais nefastas levam sempre a melhor e as minorias se mobilizam em massa para concretizar os seus objectivos mais perversos.
2. Voto do descontentamento
Para além do sentido provocatório, poderá ler-se também nesta adesão alucinada à figura sinistra de Salazar uma quota-parte de descontentamento em relação à corrupção que assola a vida política portuguesa e as classes dirigentes, em todo o historial da jovem democracia portuguesa.
Salazar foi sempre associado a um ideal de despojamento, de honestidade e de incorruptibilidade, funcionando, desta feita, como um contraponto a um país de “sacos azuis” e afins, numa onda de corrupção que grassa na política portuguesa (e não só).
O ideal democrático é ainda muito ténue em Portugal, pelo que é urgente criar uma educação para a democracia e para o pleno exercício da cidadania. Salazar dominou o país durante décadas sem fim, num longo Inverno de mordaças e de opressão, mas a memória desses tempos parece ter-se desvanecido por completo, o que não pode deixar de causar sérias preocupações.
3. Voto da ignorância
O sistema educativo português falha a vários níveis e no que respeita ao ensino da História do séc. XX, falha rotundamente. O Estado Novo é abordado pela rama, por assim dizer, nunca se apostando no estudo aprofundado (e necessário) de todas as características deste regime fascista e ditatorial. Há um maior insistência ao nível das demais ditaduras congéneres europeias do que ao nível do caso português.
Por outro lado, a imagem de Salazar e, por extensão, da sua ditadura baseia-se numa série de equívocos que resulta e redunda numa total ignorância, num declarado desconhecimento de causa que urge esclarecer com consistência.
Na verdade, só muito recentemente é que começam a surgir as primeiras investigações acerca do período do fascismo e da tortura, da opressão e da violência exercida por este, contrariando a noção errónea e perigosa de um fascismo de “brandos costumes”. Uma boa sugestão de leitura neste âmbito: As vítimas de Salazar – Estado Novo e Violência Política, da autoria de João Madeira, Luís Farinha e Irene Pimentel, que nos propõem um roteiro detalhado e documentado pela violência do regime salazarista.
No genial “Herman Enciclopédia”, havia um sketch intitulado “Um Salazar em cada esquina”, em que aparecia um Presidente do Conselho metade ditador, metade prostituta, numa qualquer esquina anónima. O que a imagem tem de hilariante também tem de lamentavelmente real. Ainda há uma grande fatia de saudosistas do regime fascista que gostariam de ver, de facto, “um Salazar em cada esquina”…
No Reino Unido, ganhou Churchill. Em França, De Gaulle. Na Alemanha, Adenauer. Em Portugal, Salazar. Um bom mote para a reflexão e para a educação.
"A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento." Milan Kundera

segunda-feira, março 19, 2007

Olhares sobre Berlim


Ironias do destino capitalista
Este bonequinho que aparece na fotografia é o famosíssimo Ampelmann de Berlim, outrora sinónimo do regime comunista da RDA que, na obsessão do detalhe, achou por bem criar um símbolo diferente e, naturalmente, inscrito nas classes trabalhadoras.
(É delicioso o pormenor do chapéu de camponês.)
Ironia das ironias, hoje em dia este inocente Ampelmann é alvo de um merchandising imenso e pode, assim, ser encontrado em carteiras, estojos, porta-chaves, t-shirts e demais souvenirs identificativos da cidade. O capitalismo apropria-se de forma implacável de um ícone do poderio comunista, expandindo-o a todo o país.
Anda um espectro pela Europa… é o do Ampelmann!

O novo Museu da DDR
Abriu recentemente o Museu da RDA / DDR, na Ilha dos Museus, o qual segue uma linha absolutamente interactiva e de profundo diálogo com o público que o visita. Neste museu, é possível entrar em cenários típicos do quotidiano na República Federal Alemã, nas cozinhas, passeando o olhar pelos produtos que se vendiam então e até mesmo entrar a bordo de um icónico Trabant. Fica aqui a sugestão para desbravar um museu diferente que se centra numa época histórica plena de densidade e que continua a fazer sentir o seu magnetismo único.

A vida dos outros
Numa incursão pela Dussmann (na Friedrichstrasse), que é um verdadeiro centro comercial cultural - leia-se uma tentação a cujas insinuações é completamente impossível resistir - comprei alguns livros e filmes, entre eles o oscarizado (não que esse facto tenha qualquer influência na minha escolha) Das Leben der anderen. Este filme foi premiado este ano com o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro e constitui um retrato do policiamento da vida privada pelo Estado da ex-RDA, que nega terminantemente o direito à individualidade.

Berlim não é passível de se sintetizar em poucos ângulos. Ficam aqui três olhares sobre esta metrópole plural que firma com aqueles que a visitam um pacto de sedução eterna. Evocando Kennedy, todos nós acabamos por ser um pouco "berlinenses".
No coração da Europa, Berlim exibe, de forma magistral, a força colossal da regeneração e do impulso vital da criação. Ainda há, de facto, um muro mental entre a parte ocidental e a parte oriental. Nos rostos das pessoas da zona leste da cidade, sente-se o travo amargo de uma grande nostalgia ou da tal "Ostalgie", como a definem brilhantemente os próprios berlinenses. No leste, ainda há electrizantes lojas "kitsch", a par de uma certa resistência ao "modus vivendi" ocidental que uniformiza os indivíduos. A magia espraia-se por Berlim e vem de leste...

domingo, março 04, 2007

Der Himmel über Berlin

O frenesim da expectativa que antecede qualquer viagem. Sinto-me sempre regredir à infância em que na véspera de qualquer passeio, passava a noite em claro (verdadeiras "noites brancas"à la Dostoievski), revirava-me e dava voltas e mais voltas infindáveis na cama e projectava essa minha ansiedade, imaginando como seria o dia seguinte que se desenhava memorável.
Depois de amanhã regresso a Berlim, por uma semana, cidade única, em que a História se revela em cada rua, a cada passo. Berlim não se envergonha dos momentos mais sombrios do seu percurso histórico e faz questão de o preservar e de o veicular a todos que a procuram.
O que mais me impressionou em Berlim - para além da verdadeira orgia de estilos arquitectónicos, em que cada edifício se ergue em forma de provocação, numa harmonia entre tradição e contemporaneidade - o impacto causado, sobretudo, pelo parlamento alemão, o Reichstag, imponente e grandioso, que nos convoca a uma irresistível viagem pela História. Ainda no Reichstag, a ousada cúpula de Norman Foster merece um especial destaque. Daí se avista Berlim em toda a sua extensão, em toda a sua beleza, cinzenta, é certo, mas Berlim detém aquele fascínio de diva triste, que, embora triste, sabe que será sempre bela.
O filme de Wim Wenders - Der Himmel über Berlin (Wings of Desire) - é uma boa iniciação a esta cidade que, no fundo, concentra em si várias cidades e diferentes microcosmos. Melhor do que ver esta obra-prima de Wim Wenders, a preto e branco, só mesmo partir rumo a Berlim. A cores.
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