segunda-feira, março 19, 2007

Olhares sobre Berlim


Ironias do destino capitalista
Este bonequinho que aparece na fotografia é o famosíssimo Ampelmann de Berlim, outrora sinónimo do regime comunista da RDA que, na obsessão do detalhe, achou por bem criar um símbolo diferente e, naturalmente, inscrito nas classes trabalhadoras.
(É delicioso o pormenor do chapéu de camponês.)
Ironia das ironias, hoje em dia este inocente Ampelmann é alvo de um merchandising imenso e pode, assim, ser encontrado em carteiras, estojos, porta-chaves, t-shirts e demais souvenirs identificativos da cidade. O capitalismo apropria-se de forma implacável de um ícone do poderio comunista, expandindo-o a todo o país.
Anda um espectro pela Europa… é o do Ampelmann!

O novo Museu da DDR
Abriu recentemente o Museu da RDA / DDR, na Ilha dos Museus, o qual segue uma linha absolutamente interactiva e de profundo diálogo com o público que o visita. Neste museu, é possível entrar em cenários típicos do quotidiano na República Federal Alemã, nas cozinhas, passeando o olhar pelos produtos que se vendiam então e até mesmo entrar a bordo de um icónico Trabant. Fica aqui a sugestão para desbravar um museu diferente que se centra numa época histórica plena de densidade e que continua a fazer sentir o seu magnetismo único.

A vida dos outros
Numa incursão pela Dussmann (na Friedrichstrasse), que é um verdadeiro centro comercial cultural - leia-se uma tentação a cujas insinuações é completamente impossível resistir - comprei alguns livros e filmes, entre eles o oscarizado (não que esse facto tenha qualquer influência na minha escolha) Das Leben der anderen. Este filme foi premiado este ano com o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro e constitui um retrato do policiamento da vida privada pelo Estado da ex-RDA, que nega terminantemente o direito à individualidade.

Berlim não é passível de se sintetizar em poucos ângulos. Ficam aqui três olhares sobre esta metrópole plural que firma com aqueles que a visitam um pacto de sedução eterna. Evocando Kennedy, todos nós acabamos por ser um pouco "berlinenses".
No coração da Europa, Berlim exibe, de forma magistral, a força colossal da regeneração e do impulso vital da criação. Ainda há, de facto, um muro mental entre a parte ocidental e a parte oriental. Nos rostos das pessoas da zona leste da cidade, sente-se o travo amargo de uma grande nostalgia ou da tal "Ostalgie", como a definem brilhantemente os próprios berlinenses. No leste, ainda há electrizantes lojas "kitsch", a par de uma certa resistência ao "modus vivendi" ocidental que uniformiza os indivíduos. A magia espraia-se por Berlim e vem de leste...

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