sábado, abril 28, 2007

Memorável


Comecei há dias a ler compulsivamente (como deveria ser sempre o acto da leitura, por essência, com sofreguidão e na vertigem da finitude) o livro de memórias de Rosado Fernandes, com o sugestivo e apetitoso título: Memórias de um rústico erudito - Viagem à volta de lentes, terras e políticos.
Numa noite de insónias (as mais produtivas e interessantes, no fundo. A vida por uma sucessão de insónias iluminadas!), há alguns anos, assisti ao programa de Baptista Bastos Conversas Secretas (que ia para o ar a horas naturalmente impróprias, como todos os programas de qualidade da televisão portuguesa), cujo convidado era Rosado Fernandes, político, homem das Letras, fundador da CAP e, acima de tudo, irreverente por natureza.
Foi precisamente a ironia corrosiva desta figura quase renascentista, pela imensidão de funções que desempenhara na sua vida, que me prendeu de imediato. É muito raro, sobretudo em Portugal, país de pergaminhos empoeirados e de vénias submissas, encontrar uma voz completamente diferente (ainda por cima de direita, historicamente mais propensa ao cultivo do convencionalismo) que se mune de um sarcasmo acutilante para pôr o dedo na ferida e contestar o estado de coisas actual.
Esta autobiografia é um convite a entrar no universo particular deste político notável, atravessando todo o século XX português e quiçá, concluindo, que este Portugal continua a ser muito pequeno e tacanho para acolher personalidades como esta, que fazem da provocação uma saudável forma de estar na vida e de manter a sanidade, num país que parece ter perdido a noção de qualquer lógica.
Vou ainda no início de uma viagem que se prevê memorável, sob o signo do humor e da ironia, os meios mais eloquentes de reflexão.

domingo, abril 15, 2007

Por detrás das palavras


Na passada sexta-feira, assisti no Teatro Viriato a umas peças de teatro que, seguramente, mais me marcou, porque declaradamente avessa à lógica da palavra.
Por detrás dos montes, levada a cena pelo Teatro Meridional, retrata vários frescos do quotidiano no Nordeste Transmontano e, durante cerca de uma hora, somos enleados nessa teia quase indizível feita de sons e de sentidos, em que a palavra parece quase supérfula. E, de facto, um dos grandes pilares desta peça assenta precisamente na ausência de palavras, numa oralidade quase reduzida ao mínimo, à essência primordial. Há diálogos que se tentam estabelecer, mas que não passam da intenção ao acto de verbalizar.
A envolver todos os cenários da vida privada e comunitária de Trás-os-Montes - a religiosidade fervorosa, os pauliteiros, as crenças e mitos - ouvem-se os sons locais, os chocalhos das ovelhas, os instrumentos ancestrais. E nesta profusão de sensações, acreditamos mesmo que as palavras não são imprescindíveis, nem que tão pouco precisamos delas como fio condutor.
Outro aspecto muito interessante consiste no objectivo fulcral deste projecto - Províncias - que pretende revelar um Portugal quase oculto e esquecido, mas que também integra a identidade colectiva. Por vezes, damos connosco a observar essas manifestações de cariz popular e regional como se fossem fenómenos essencialmente exóticos e distantes. A verdade, porém, tem outros contornos e todo esse Portugal longínquo está indelevelmente próximo de nós e da herança genética.
Em poucas décadas, Portugal sofreu uma metamorfose imensa e, inebriado pela euforia do consumismo desenfreado e da suposta aproximação ao nível de vida da União Europeia, foi-se distanciando irremediavelmente das raízes - com tudo o que têm de enriquecedor e de esclarecedor - que ajudam a compor a noção de identidade e de pertença a um universo cultural específico.
Esta peça de teatro leva esse Portugal primordial ao palco. Sem palavras. Apenas com a eloquência dos sentidos que têm o poder de revelar o intraduzível. Uma verdadeira epifania.

sábado, abril 07, 2007

A vida dos outros

Imagine um Estado que perscrutasse os seus movimentos mais ínfimos, mais íntimos e que registasse, com precisão de relojoeiro suíço, todas as suas conversas, desabafos, discussões e diálogos, actuando até como uma qualquer entidade divina que despoleta acontecimentos inesperados e com desenlace irremediavelmente trágico.
No filme “Das Leben der anderen” (A vida dos outros), acompanhamos o percurso de um fanático agente da Stasi (a polícia política da ex-RDA) que assenta arraiais num sótão inóspito por cima do apartamento de um potencial “inimigo do socialismo”, um poeta e dramaturgo cuja luta individual se centra somente na procura incessante de liberdade artística.
O agente da Stasi fica assim encarregue de vigiar a vida privada de Georg Dreyman e de redigir relatórios diários em torno do seu quotidiano e da sua intimidade, não descurando qualquer pormenor.
Georg Dreyman vivia com uma actriz algo etérea e neurótica, Christa-Maria Sieland, acossada pelo medo tremendo de se ver privada de não poder exercer a sua arte, tornando-se presa fácil do assédio de um Ministro da Cultura, obscuro e abjecto, que ordenou o processo de vigilância sobre Georg Dreyman.
Christa-Maria vivia num permanente movimento pendular entre o amor alucinado a Georg e o amor à arte da representação, o que a conduziu, como seria previsível, a um beco em que não se vislumbrava qualquer saída possível que não a morte.

Paradoxalmente, à medida que a vigilância se adensava, o agente da Stasi imiscuía-se com mais intensidade na vida de Georg e de Christa-Maria, acabando por se enlear nessa doce teia feita de amor e de desejo de liberdade, por contraponto a Estado castrador e implacável que reprimia o indivíduo e toda a sua força criativa. Criara-se, assim, um território de profunda empatia fundada na noção de humanidade que obrigou a uma escolha por parte do carrasco, porém também vítima da prepotência de um socialismo que se queria impor à força, por meio da ditadura do pensamento único.

Após o suicídio de um realizador conceituado, Albert Jerska, a quem tinha sido vetado o exercício da sua profissão, Georg Dreyman elabora uma lista polémica de intelectuais que cometeram suicídio na ex-RDA, sentindo pender sobre eles o espectro da “morte da esperança”. Essa lista foi publicada no Ocidente na revista Spiegel, provocando um autêntico cataclismo político na Alemanha de Leste.

O agente da Stasi optou por silenciar este acto de Georg Dreyman, mercê dessa proximidade que se entreteceu entre eles (de forma unilateral, obviamente), sensível ao verdadeiro drama quotidiano experienciado pelos cidadãos da ex-RDA, que nem sequer eram donos e senhores da sua intimidade.

“Das Leben der anderen”, ainda que retrate uma realidade de
contornos trágicos, constitui um sinal de esperança e de crença na humanidade que irá sempre unir os indivíduos, em qualquer ponto do globo, em qualquer época, sob qualquer regime, por mais cerceador da liberdade que seja.
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