domingo, abril 15, 2007

Por detrás das palavras


Na passada sexta-feira, assisti no Teatro Viriato a umas peças de teatro que, seguramente, mais me marcou, porque declaradamente avessa à lógica da palavra.
Por detrás dos montes, levada a cena pelo Teatro Meridional, retrata vários frescos do quotidiano no Nordeste Transmontano e, durante cerca de uma hora, somos enleados nessa teia quase indizível feita de sons e de sentidos, em que a palavra parece quase supérfula. E, de facto, um dos grandes pilares desta peça assenta precisamente na ausência de palavras, numa oralidade quase reduzida ao mínimo, à essência primordial. Há diálogos que se tentam estabelecer, mas que não passam da intenção ao acto de verbalizar.
A envolver todos os cenários da vida privada e comunitária de Trás-os-Montes - a religiosidade fervorosa, os pauliteiros, as crenças e mitos - ouvem-se os sons locais, os chocalhos das ovelhas, os instrumentos ancestrais. E nesta profusão de sensações, acreditamos mesmo que as palavras não são imprescindíveis, nem que tão pouco precisamos delas como fio condutor.
Outro aspecto muito interessante consiste no objectivo fulcral deste projecto - Províncias - que pretende revelar um Portugal quase oculto e esquecido, mas que também integra a identidade colectiva. Por vezes, damos connosco a observar essas manifestações de cariz popular e regional como se fossem fenómenos essencialmente exóticos e distantes. A verdade, porém, tem outros contornos e todo esse Portugal longínquo está indelevelmente próximo de nós e da herança genética.
Em poucas décadas, Portugal sofreu uma metamorfose imensa e, inebriado pela euforia do consumismo desenfreado e da suposta aproximação ao nível de vida da União Europeia, foi-se distanciando irremediavelmente das raízes - com tudo o que têm de enriquecedor e de esclarecedor - que ajudam a compor a noção de identidade e de pertença a um universo cultural específico.
Esta peça de teatro leva esse Portugal primordial ao palco. Sem palavras. Apenas com a eloquência dos sentidos que têm o poder de revelar o intraduzível. Uma verdadeira epifania.

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