sábado, abril 07, 2007

A vida dos outros

Imagine um Estado que perscrutasse os seus movimentos mais ínfimos, mais íntimos e que registasse, com precisão de relojoeiro suíço, todas as suas conversas, desabafos, discussões e diálogos, actuando até como uma qualquer entidade divina que despoleta acontecimentos inesperados e com desenlace irremediavelmente trágico.
No filme “Das Leben der anderen” (A vida dos outros), acompanhamos o percurso de um fanático agente da Stasi (a polícia política da ex-RDA) que assenta arraiais num sótão inóspito por cima do apartamento de um potencial “inimigo do socialismo”, um poeta e dramaturgo cuja luta individual se centra somente na procura incessante de liberdade artística.
O agente da Stasi fica assim encarregue de vigiar a vida privada de Georg Dreyman e de redigir relatórios diários em torno do seu quotidiano e da sua intimidade, não descurando qualquer pormenor.
Georg Dreyman vivia com uma actriz algo etérea e neurótica, Christa-Maria Sieland, acossada pelo medo tremendo de se ver privada de não poder exercer a sua arte, tornando-se presa fácil do assédio de um Ministro da Cultura, obscuro e abjecto, que ordenou o processo de vigilância sobre Georg Dreyman.
Christa-Maria vivia num permanente movimento pendular entre o amor alucinado a Georg e o amor à arte da representação, o que a conduziu, como seria previsível, a um beco em que não se vislumbrava qualquer saída possível que não a morte.

Paradoxalmente, à medida que a vigilância se adensava, o agente da Stasi imiscuía-se com mais intensidade na vida de Georg e de Christa-Maria, acabando por se enlear nessa doce teia feita de amor e de desejo de liberdade, por contraponto a Estado castrador e implacável que reprimia o indivíduo e toda a sua força criativa. Criara-se, assim, um território de profunda empatia fundada na noção de humanidade que obrigou a uma escolha por parte do carrasco, porém também vítima da prepotência de um socialismo que se queria impor à força, por meio da ditadura do pensamento único.

Após o suicídio de um realizador conceituado, Albert Jerska, a quem tinha sido vetado o exercício da sua profissão, Georg Dreyman elabora uma lista polémica de intelectuais que cometeram suicídio na ex-RDA, sentindo pender sobre eles o espectro da “morte da esperança”. Essa lista foi publicada no Ocidente na revista Spiegel, provocando um autêntico cataclismo político na Alemanha de Leste.

O agente da Stasi optou por silenciar este acto de Georg Dreyman, mercê dessa proximidade que se entreteceu entre eles (de forma unilateral, obviamente), sensível ao verdadeiro drama quotidiano experienciado pelos cidadãos da ex-RDA, que nem sequer eram donos e senhores da sua intimidade.

“Das Leben der anderen”, ainda que retrate uma realidade de
contornos trágicos, constitui um sinal de esperança e de crença na humanidade que irá sempre unir os indivíduos, em qualquer ponto do globo, em qualquer época, sob qualquer regime, por mais cerceador da liberdade que seja.

1 comentário:

~*Vica*~ disse...

Muito interessante me pareceu esse filme, hoje em dia tem muita gente que persegue pessoas e as vigia através da internet.

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