quinta-feira, junho 28, 2007

Home sweet home

Sempre acreditei que, na vida, era possível virar a página em definitivo e esperar pelo que o próximo capítulo nos reservava, com todos os seus enredos intrincados e, sobretudo, inesperados.
E continuo a perseguir essa crença que só cai por terra quando passo pela casa que testemunhou o meu crescimento e me abrigou quantas e quantas vezes nos momentos mais conturbados, erguendo-se como um porto seguro, imune a qualquer intempérie. Ao vislumbrá-la, abandonada e solitária, definhando a cada instante, numa lenta agonia, sinto-me impotente. Tento estender-lhe a mão, mas ela já perdeu as forças por completo. Ainda lhe digo adeus. Em vão.
Mas como acredito no virar de página, sei que haverá sempre outra casa e outro cenário que nos vai habitando e que, lentamente, vai fechando as portas entreabertas e acolhendo-nos no seu seio, num acto de comovente doçura.
Ainda que uma parte de mim continue a correr desenfreadamente pelos jardins e a subir as escadas num frenesim de impaciência, como o fazia no tempo em que acreditamos que tudo é eterno...

terça-feira, junho 12, 2007

A ordem natural das coisas


Antes de começar a escrever um novo texto, tento desesperadamente encontrar o título para a partir daí poder deambular sem angústias e ao sabor das palavras que aguardam em fila indiana, numa ânsia de supremacia.
Acredito que cada coisa tem um lugar único e intransmissível, daí a minha obsessão em querer atribuir um abrigo seguro ao papelinho mais ínfimo, em caixas que se amontoam cheias de tudo e de nada ao mesmo tempo, mas que fazem todo o sentido num universo microcósmico muito próprio.
Não consigo deitar fora palavras que escrevi, mesmo que à distância temporal pareçam absolutamente ridículas e até risíveis.
Não consigo livrar-me de um exército de papéis que me persegue desde sempre e que eu cultivo com um amor, no mínimo, estranho: bilhetes de cinema, bilhetes de metro, de Carris, cartões de restaurantes, mapas já datados, cartas, bilhetes, recados...
Para onde quer que vá, levo todos esses pedacinhos de mim que contrariam a minha essência nómada. Esses vestígios quase paleolíticos fixam-me, de certa forma, e através deles, ainda que por vezes já danificados e amarelecidos pelo tempo (o que encerra em si uma magia indizível), posso ler nas entrelinhas do que sou.
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