segunda-feira, agosto 13, 2007

O direito à evasão


Parece cada vez mais um luxo a que poucos se podem dar. Não será certamente um pensamento original, mas nem por isso menos perturbador. Hoje em dia, a evasão absoluta é uma rotunda impossibilidade. Paradoxalmente, a voraz mecânica da vida quotidiana cada vez o exige mais.
Haverá sensação melhor do que fazermos do cérebro uma agradável tábua rasa e fixarmos o nosso olhar no horizonte, no mar, no aconchegante ulular das ondas que nos acolhem no seu regaço? E despirmos a mente de preocupações, de inquietações (quantas vezes desnecessárias porque feitas do nada e do vazio), fruindo uma sucessão de instantes que se queriam eternos?
A tecnologia também não ajuda muito neste (e em tantos outros) aspectos. Os telemóveis, cada vez mais complexos e intrincados (só falta mesmo cozerem o pão ou aspirarem a sala), ditaram o fim do direito à evasão e à vontade de isolamento, sem a necessidade de estarmos sempre contactáveis e termos de opinar sobre o que quer que seja. O silêncio tornou-se uma jóia raríssima nos ruidosos tempos que correm.

Agora surgem os GPS que, com precisão de relojoeiro suíço, nos levam (pela mão, como se fôssemos criancinhas) da porta de nossa casa até ao destino que traçámos. Já não há margem para desvios, atalhos sinuosos, mapas riscados até à exaustão, ruelas percorridas com o fervor da descoberta.
Já não há espaço para nos perdermos. Não quero chegar a um destino, cuja rota é definida por um instrumento tecnológico despojado de alma que, ditatorialmente, me guia pelo emaranhado de estradas, ruas e artérias. Quero fazer do percurso o destino e sentir nos lábios o doce sabor da total ausência de norte. Porque só quando nos perdemos é que nos encontramos verdadeiramente.
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