quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Happy Valentine's! (a fictional journey)

No meio de todo aquele caos doméstico, com as crianças ranhosas a gritar a plenos pulmões, a cafeteira ao lume, o assado no forno (já quase a entrar em ebulição), a roupa a balançar num frenesim de toalhas e cuecas XXL entrelaçadas, o cão num rodopio alucinado a tentar alcançar a sua cauda fugidia, ela já não se conseguia encontrar, nem sabia sequer se existia.
Por vezes, costumava beliscar-se ou interpelar estranhos na rua sob o pretexto de querer saber as horas, só para se certificar de que ainda estava viva. Imaginava a morte como a total invisibilidade, em que tentava falar com as pessoas, em desespero absoluto, sem obter resposta. Pensamentos algo excêntricos para alguém como ela, prisioneira de uma vida recheada de afazeres, de correrias, de fardos, de gritos de crianças inquietas e de bibelots empoeirados que ela limpava com falso afinco enquanto trauteava melodias de épocas em fora (segundo consta) feliz.
E ele ali estava, perfeitamente patético naquele pijama de recluso. Só lhe faltava mesmo o número que os irmãos Metralha envergavam nas suas camisas às riscas. Mas esses, pelo menos, com o bom senso de não saltarem dos livros de banda desenhada para a realidade. As pantufas estavam já gastas de tantos quilómetros trilhados da cozinha-sala, sala-cozinha, sala-quarto, quarto-sala e, quando estava bem-disposto, sala-rua, rua-sala, para deitar fora o lixo, mas só mesmo se ocorresse um milagre ou qualquer outro fenómeno do domínio do sobrenatural.
Chegara a um ponto em que ela duvidava do seu próprio nome. Aliás, naquele mundo que habitava não fazia diferença alguma achar-se portadora de uma identidade autónoma. De que lhe servia essa certeza? Não era a consciência de ser única que lhe ia ajudar a limpar a porcaria do cão (particularmente estúpido - como o irmão Metralha ali esparramado no sofá de cabedal - pois passava o dia todo atrás da cauda) ou a aspirar.
O afecto é uma excentricidade de quem tem empregadas e muito dinheiro para esbanjar. Com toda aquela loucura diária, ela não conseguia definir o que sentia, excepto em relação aos filhos (o eterno mistério da maternidade). Tudo o resto se esbatera, desfizera-se em pó, num pó que talvez ela já tivesse varrido sem querer.
- Que dia é hoje?
- Sei lá que dia é hoje… espera…14 de Fevereiro.
Numa ironia sem fim, o barulho cavernoso do aspirador abafara por completo a resposta dele.
Follow my blog with Bloglovin