domingo, fevereiro 25, 2007

Babel(izando)

Confesso que estava com imensas expectativas em relação ao último filme do realizador mexicano Iñarritú, sobretudo depois de 21 Gramas, que para além das representações irrepreensíveis de Naomi Watts e Sean Penn, surpreendia pela temática (o peso da alma) e pela construção do enredo. Babel não diverge muito do filme anterior em termos de lógica de elaboração das histórias, em forma de puzzle, por meio de um invisível fio condutor que, no final, vem à superfície e se restabelece a ordem circular.
Egipto, fronteira EUA/México e Japão, três mundos antagónicos à partida, cujas tramas e seus protagonistas acabam por estar indelevelmente ligados, num denominador comum: a vertigem da intraduzibilidade.
Há um disparo em pleno Egipto profundo, longe dos grandes chamarizes turísticos e da civilização, um verdadeiro no man’s land, que é, verdadeiramente (ironias à parte), o tiro de partida para a trama que se vai tecendo, com recuos e avanços temporais, em Babel. O facto de a vítima desse disparo ser norte-americana não é, de todo, inocente, criando desde logo um imbróglio de questões políticas que, incompreensivelmente, complexificam o que deveria ser simples: salvar uma vida humana. No deserto, um homem em desespero que tenta desvendar as palavras estranhas e ver para além desse manto negro de incompreensibilidade.
Na fronteira entre os EUA e México, as históricas tensões entre estes povos levam a uma situação extrema em que saem lesadas as vítimas do costume, sempre suspeitas. Nesta parte do puzzle, evoca-se o drama dos imigrantes ilegais nos EUA que, apesar de contribuírem com sangue, suor e lágrimas para a economia norte-americana, têm sempre a pairar sobre eles o fantasma da suspeição.
No Japão, mais concretamente na metrópole fervilhante que é Tóquio, retrata-se a solidão extrema de uma surda que luta também (tal como todos os personagens deste filme) por veicular a sua carência extrema, através das mãos, a boca da alma.
A actriz que desempenha este papel – Rinko Kikuchi – é, sem dúvida, a grande revelação de Babel, pois consegue transmitir na plenitude o desespero do isolamento e a busca incessante, porém dolorosa, de afecto, através da expressão facial e dos seus dedos ávidos de diálogo.
Babel prendeu-me mais pela forma - como por exemplo aquele que, para mim, foi o ponto alto (mais uma vez regresso a Tóquio e à magnetizante representação de Rinko Kikuchi): a cena filmada na discoteca vista da perspectiva de uma pessoa com surdez em que o som frenético alterna com a sua total ausência, numa total orgia de luzes, em que se desenha uma dança (infrutífera) de sedução – do que propriamente pelo conteúdo.
Há uma insistência desconfortável, em meu entender, no olhar sobre a agonia, uma abordagem demasiado obcecada com a dor, com o sangue a escorrer, omnipresente, a tal ponto que perde credibilidade e o espectador só quer libertar-se desse colete de forças.
Creio que talvez seja por isso que Babel suscitou posições tão extremadas por parte da crítica cinematográfica. Não é, de todo, um filme de consensos, mas é, claramente, uma obra grandiosa (mais pela forma do que pelo conteúdo, insisto), que pisca o olho à Academia. Veremos hoje de madrugada se a Academia acede a esta tentativa aberta de sedução.
Vale a pena entrar nesta Babel dos tempos modernos, sobretudo para descobrir a promissora Rinko Kikuchi que, seguramente, merece o Óscar de Melhor Actriz Secundária.
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