domingo, novembro 18, 2007

Mind the gap

Pode parecer algo provinciano regressar de uma viagem e correr para o portátil para relatar os momentos mais marcantes ou os olhares que se desenham sobre uma cidade até então desconhecida. Estive pela primeira vez em Londres e foi, de certa forma, emocionante calcorrear os cantos e os recantos da História e Cultura inglesas que estudei na Faculdade e, no fundo, constatar in loco a veracidade (ou não) daqueles conceitos comummente associados à civilização britânica.

Há alguns anos, li um livro muito interessante do aclamado jornalista inglês Jeremy Paxman intitulado The English, em que o autor analisa e disseca, ao pormenor, a imagem típica do Inglês e as suas obsessões de eleição: o desporto, os jardins, o apego à tradição e à monarquia, uma certa aversão à diferença e a crença inabalável na perenidade de um (já extinto) Império. É um livro que usa o humor como fio condutor e que propõe uma visão sempre controversa e provocadora sobre o que significa ser-se Inglês.
Durante esta semana em Londres, pensei imensas vezes neste livro e – ainda que uma semana não seja sequer tempo suficiente para concluir o que quer que seja de verdadeiramente substancial – tentei acrescentar o meu próprio olhar a essas ideias já previamente formuladas.

Um dos aspectos que mais me marcou (provavelmente, por ser proveniente de um país com grande défice de cultura cívica) foi a preocupação com os cidadãos. Convenhamos que os estratégicos avisos “look right” ou “look left” das passadeiras se revelam decisivos para os turistas que ficam completamente às avessas nos semáforos, sem saber para que lado olhar ao certo.
O sistema de transportes de Londres impressionou-me particularmente, pois denota-se uma constante vigilância e atenção para com os utentes. O “mind the gap” proferido por aquela voz cavernosa e algo autoritária pode ser entediante, sem dúvida, mas ninguém poderá alegar desconhecimento. No fundo, há sempre um “big brother” orwelliano (no bom sentido, porém) a olhar pelos comuns mortais e a avisar-nos permanentemente de tudo, mesmo quando tudo funciona com normalidade. Ora, para quem vem de Portugal – em que ainda nem sequer acertámos na sinalização – esta é uma diferença abissal e sente-se um certo desalento, pois o nosso país ainda de terá evoluir muito em termos de mentalidade e de cultura cívica. Se atingíssemos esse estádio com a mesma sofreguidão e rapidez com que chegámos ao consumo desenfreado, seria excelente, mas bem sabemos que essas mudanças subterrâneas demoram tempo a entrar em marcha.

And now for something completely different, como diriam os geniais Monty Python:
Já há muito que queria visitar a Tate Modern e fiquei completamente em êxtase com essa experiência. O que mais me impressiona na arte contemporânea é o facto de esta ser profundamente incompreensível.
Haverá decerto uma bibliografia infinita de análises de obras, de instalações, de esculturas, de quadros, etc., mas o que me interessa é a forma como essas mesmas obras me co(movem) e me apelam à imaginação, ao sentido crítico e à interpretação sempre plural.
Na Tate Modern, para além das exposições temporárias, cada piso é votado a um tema, a um fio condutor, pelo que as obras não estão organizadas de acordo com a habitual ordem cronológica, o que encerra desde logo um sentido de desafio pela pluralidade de visões distintas e controversas que se entrecruzam. O espólio é verdadeiramente abrangente e diversificado: Pollock (um dos meus pintores favoritos pelo modo frenético como as tintas se cruzam na tela), Dali, Picasso, Miró, só para citar aqueles nomes “para turista ver”!

Como todas as histórias tendem a ser circulares, acabei por comprar o mais recente livro de Jeremy Paxman, esse autor que foi uma verdadeira luz que me conduziu por entre os meandros da identidade britânica, que se centra na questão da (in)utilidade da realeza nos dias que correm: On Royalty. Promete, indeed!
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