segunda-feira, dezembro 22, 2008

Multi-funções


Será que vou chegar a tempo? Já não falta tudo, já não falta tudo. Esta crise estende os seus tentáculos demolidores sem dó nem piedade. É uma forma poética de lidar com a dura realidade dos números que é sempre enfadonha. Chegou um sms. Quem será? Ainda é cedo para ser o Sr. K., a debitar tarefas urgentíssimas, mais urgentes do que o próprio acto de respirar. É indiferente se aparecer completamente extenuada, em dolorosa antecipação do stress quotidiano que se adivinha. Ai, o Euromilhões. E eu nem sou nada excêntrica, bastava-me um quíntuplo apenas daquele número extenso. Estou a adorar aquele livro. Os autores africanos falam-nos ao coração, através das suas palavras melodiosas ecoa uma música ancestral, um mistério insondável que se perpetua pelo Tempo e nos afaga com ternura. Esqueci-me de ir levantar as botas que estavam a compor pela milésima vez. Lembrete. Deve ser da idade. Qualquer dia coloco um lembrete para não me esquecer de colocar lembretes. Não vá o diabo tecê-las! Um mafarrico qualquer. Outro sms? Estou quase a acabar o ritual da pintura matinal, como se pertencesse a uma tribo qualquer e tivesse de participar numa qualquer dança em que seria um completo desastre e a manifesta vergonha da tribo. Acabaria expulsa. Tantas coisas para digerir logo de manhã. Um beijo fugidio. Este frio inviabiliza qualquer tipo de raciocínio lógico. Apresso o passo e lembro-me do lembrete que ainda não coloquei. Aproveito e faço as compras para a noite. Não consigo lidar com os imponderáveis. Serei finlandesa e não o saberei? Não, a cor dos olhos não engana ninguém. Pertenço a uma estranha tribo, de facto. Desculpe, Sr. K. não consegui chegar mais cedo. Este frio, sabe? Sim, o fax. Não sei se teve oportunidade de verificar, mas já o enviei ontem. (Ah, sabe bem usar a luva branca de vez em quando!) E a crise, tema inevitável de conversa que veio substituir o do tempo. Pelo menos agora todos parecemos grandes intelectuais ou potenciais Nobel da Economia a dissertar sobre fenómenos cuja amplitude nem sequer percebemos, mas enfim, vale pelo diálogo, ainda que de surdos. Mais um sms, desta vez sou eu que envio, para me redimir de um beijo fugidio que se queria eterno.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Resultado do amigo secreto/oculto virtual



A minha amiga secreta(PT)/oculta (BR) é a Sibelle:)

Conheçam aqui o blog da Sibelle: Estória Estranha e entranhem-se neste blog!
Escolhi como presente um chocolate, ideal para qualquer época do ano. Virtual ou não, é sempre delicioso!...E ideal para uma mulher...

terça-feira, dezembro 09, 2008

Amigo secreto/oculto virtual

Participe nesta iniciativa!

gestualizando


Às vezes, foge-me a mão para a verdade e começo a divagar. Faço gestos (aparentemente incompreensíveis ao olhar do observador mais incauto) e dou ao dedo. Esta experiência de aprender Língua Gestual Portuguesa (já quase há 3 anos) está a ser tão marcante que creio bem ter-se já entranhado em mim, com a mesma naturalidade com que sonho em Alemão. E já sonhei em Gestual!Segundo dizem, a partir do momento em que sonhamos numa língua, é indício de que esta já nos habita. Como é gratificante poder dar voz às mãos e, com elas, criar laços e pontes e comunicar! Tal como o mundo não é a preto e branco, mas composto de tonalidades múltiplas, há também inúmeras e fascinantes formas de chegar ao outro e de dar as mãos!...

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Onde há fumo...


Deixava os cabelos repousar, serenos, nas costas e balançava a cadeira, para trás e para a frente, para trás e para a frente, num movimento que tinha tanto de monótono, como de reconfortante, numa doce languidez. Depois de ter folheado (demasiados) livros, decidira-se, por fim, por um de título apelativo, que se adequava (aparentemente) aos matizes da sua própria vida. Parecia que os livros saltavam das estantes e ganhavam vida, dançando freneticamente perante o seu olhar curioso, e reclamando atenção e quiçá um pouco de ternura. Dominara o caos interior e resolvera pôr cobro a uma indecisão crónica. Não poderia jamais ler todos os livros do mundo. A escolha recaía agora sobre este e ponto final.
Parágrafo.
Sempre se riu das pessoas que sentenciavam com altivez o carácter definitivo das coisas, afirmando: "ponto final, parágrafo", como se os enredos da existência pudessem ser assim tão simples e sintéticos, passíveis de serem definidos pelas nossas imposições ou caprichos. Talvez por olhar para o mundo através da fina lente da ironia, nunca se levou muito a sério, tendo por certas apenas as incertezas. E os afectos.
A lenha crepitava e libertava uma magia indizível, uma melodia única que ecoava para além dos sonhos e se prolongavam indefinidamente...
Como um navio que navegava à volta do mundo, por oceanos intrépidos e agitados, por mares de tormentas infinitas, mas que acabava sempre por chegar a bom porto, assim se sentia ela, ao observar, como que hipnotizada, o lento esmorecer da lenha que se deixava consumir pelo fogo, numa perigosa dança de sedução.
Naqueles instantes de pura magia, de insondável mistério, o tempo parecia uma dimensão longínqua, a realidade parara, sentindo apenas o aconchego dos caracteres que, aos poucos, formavam palavras, frases, parágrafos, em estonteantes linhas de sentido que a deixavam sem fôlego. Atracara em bom porto.

segunda-feira, novembro 17, 2008

Olhares de Londres

Chapéu e luvas Marks & Spencer! My British alter ego!


Natural History Museum

London By Night Sightseeing Tour: 2h30 a bordo de um típico autocarro londrino, com um guia carismático que nos conduz aos grandes ícones da cidade, embalando-nos com o seu discurso pontuado de brilhantes tiradas cómicas, num tom absolutamente impávido e sereno, como é, aliás, apanágio dos súbditos de Sua Majestade;)

Oxford Street com iluminações natalícias
South Kensington

Na senda de Darwin


Na semana passada, estive em Londres, em trabalho, e, apesar de já não ter sido propriamente o impacto do primeiro olhar, sempre mais marcante e denso, nunca deixamos de nos sentir assolados por uma irresistível contradição que une cosmopolitismo e uma peculiar sensação de aconchego.
O tempo livre é invariavelmente escasso e é nessas etéreas fracções de segundo que tentamos absorver um resquício que seja, um olhar para levar bem arrumadinho na mala da(s) memória(s). Desta vez não consegui ir à Waterstone's (só consegui comprar um livro no emblemático Natural History Museum: The Secret Life of The Natural History Museum), porque me perdi provincianamente no Marks & Spencer (mea culpa, mea culpa!) e quando dei pelo tempo, já não havia tempo para mergulhar nesse oceano de livros. Ficam aqui alguns olhares, algumas memórias dignas de registo. Calcorreei os trilhos de Darwin e desembarquei no Museu de História Natural que retrata exemplarmente a evolução das espécies, com especial destaque para a fascinante era dos dinossauros. E o T-Rex ali tão perto...

domingo, outubro 26, 2008

Nobel da Literatura 08


Este ano o Prémio Nobel da Literatura foi atribuído a um autor francês: Jean-Marie Gustave Le Clezio. Já estão traduzidas para Português as seguintes obras: O Deserto (considerada a sua obra-prima pela crítica literária), O Processo de Adão Pollo, O Caçador de Tesouros, Estrela Errante, Diego e Frida e Índio Branco. Inevitavelmente, a atribuição do Nobel aguça a curiosidade em relação às obras dos autores premiados. Confesso que desconhecia, por completo, este escritor, mas será, sem dúvida, (mais) uma obra a desbravar.
(todos os anos, porém, anseio que o prémio maior da Literatura seja finalmente! atribuído a Kundera...mas ainda não foi desta!...)

quelq'un m'a dit...

les petits plaisirs


Adoro reencontrar amigos de longa data e as recordações que pontuam todas as conversas, numa doce inevitabilidade. Adoro saber que nada muda, apenas os contornos das vidas, mas que a essência das coisas se perpetua. Adoro estas manhãs solarengas em que posso ter todo o tempo do mundo ao meu dispor, em que percorro os escaparates das livrarias e, irreversivelmente, acabo por comprar mais um livro, delirando com a antecipação do prazer que daí advirá. Parece, todavia, que só ao fim-de-semana podemos fruir daqueles pequenos grandes prazeres que preenchem a existência e lhe conferem tonalidades (sempre) surpreendentes...

segunda-feira, outubro 13, 2008

ironias do destino


Creio que esta imagem, pela irresistível ironia que encerra, revela bem o tremendo paradoxo em que vivem os EUA, no quadro da actual crise financeira que estende os seus poderosos tentáculos ao mundo e que acabará, inevitavelmente, por fazer sentir os seus efeitos nos nossos bolsos, nos bolsos do cidadão comum que acaba por ser sempre o principal lesado. 
Para aqueles que anunciavam, quais profetas da modernidade, o "fim da História", é tempo de séria reflexão sobre a espiral alucinada em que caiu o capitalismo e sobre a total desregulação dos mercados. 
E agora - aqui del rey! - emergem as nacionalizações e o Estado assume-se, em primeira e última instância, como o garante da estabilidade financeira e da confiança dos cidadãos. 
Estes conturbados tempos - que levam, inclusivamente, alguns especialistas em falar em "depressão" e não em mera recessão - são a prova de que o Estado não se pode demitir de funções e de papéis absolutamente vitais, porque, afinal de contas, o capitalismo também tem telhados de vidro...

quarta-feira, setembro 24, 2008

Um exército de desiludidos


Contrariamente ao que muitos "iluminados" proclamam, a base do progresso de uma nação reside na formação e na qualificação dos seus profissionais. Daí que o número elevado de licenciados que todos os anos saem das universidades portuguesas não possa ser perspectivado como uma fatalidade, mas como uma inequívoca mais-valia.
O que é realmente trágico nesta questão é o facto de a esmagadora maioria desses mesmos licenciados não poder vir a exercer sequer a profissão que esteja consonante com a sua formação, acabando por ingressar na fileira de trabalhos precários, temporários e francamente desmotivadores e pouco estimulantes para o intelecto.
Obviamente, nestas matérias é fácil cair em generalizações e tomar por uniforme uma questão que tem muitas, e por vezes, insondáveis nuances.
Não podemos partir do pressuposto de que todos os estabelecimentos de ensino universitário estão ao mesmo nível, em termos de qualidade de ensino e de formação, daí que a frequência da universidade x possa marcar a diferença, em termos de perspectivas de futuro e de materialização de projectos, em relação à universidade y.
Porém, parece-me que há certos denominadores comuns: por um lado, a dificuldade que as universidades manifestam de implementarem uma complementariedade entre teoria e prática e, por outro lado, a desconfiança com que (ainda) se olha para o ensino de cariz profissional e de vertente mais especializada, que também é absolutamente imprescindível em qualquer sociedade avançada.
Num mundo perfeito, todos nós estaríamos completamente realizados e, sobretudo, completamente estimulados do ponto de vista intelectual.
Olho à minha volta e só vejo desilusão, um amplo e crescente exército de desiludidos que tem de suportar as profissões mais medíocres e lidar com pessoas ainda mais medíocres e vazias, em prol de uma sobrevivência necessária. Uma geração suspensa que adia permanentemente os seus planos e projectos.
Olho à minha volta e só vejo os mais incapazes a serem favorecidos por saberem jogar como ninguém o jogo das cunhas em que só a menoridade é premiada.
Num mundo perfeito, não nos questionaríamos permanentemente: e agora o que faço de Marx, de Freud e de Kafka que tanto gozo me deram?...

sábado, setembro 06, 2008

Livros, livros, livros


Apesar da dilacerante constatação de que uma vida só não seria suficiente para ler todos os livros que habitam as minhas estantes, gosto de senti-los bem perto, de afagá-los, de adivinhar-lhes os cheiros e as histórias múltiplas. Porque cada um deles tem um enredo próprio, não apenas o que foi criado pelo autor, mas aquele que eu mesma delineei. 
Este livro foi comprado numa feira do livro, ou numa livraria emblemática, ou num alfarrabista e, ao reconstruir a história que cada um deles me revela, sou enleada na minha própria teia de memórias, num ritual mágico que insisto em perpetuar.
Eles vão-se apoderando dos espaços vazios e a ordem inicial dá lugar a um caos inevitável: pilhas de livros que se erguem e desafiam os céus ou a lei da gravidade, numa visão de pura beleza...

"Encher de vãs palavras muitas páginas e de mais confusão as prateleiras
Tropeçavas nos astros desastrada,
Mas para mim foste a estrela entre as estrelas"

"Livros", Caetano Veloso

sexta-feira, agosto 22, 2008

viagem ao tempo


a música ecoava ao longe, num ponto remoto demais para sequer ser credível a sua existência. sons aparentemente indefinidos que, aos poucos, ganhavam consistência como um raciocínio que se vai entretecendo de permissas lógicas e irrefutáveis. era o tirano despertador que a transportava abruptamente para a realidade e lá fora as tílias balançavam ao sabor do vento suave de uma primavera que se insinuava em pequenos sinais.
era tempo de saltar da cama, num movimento que se queria audaz e atlético. as aulas começavam daí a pouco e a correria até ao liceu parecia já inevitável. bebericava-se um leite com chocolate e, munida de um pão com queijo preparado em frenesim, lá se atirava pela avenida e desatava a correr, como um atleta que luta pelo primeiro lugar no pódio. por entre acenos casuais e sorrisos fugazes, encaminhava-se para a porta da sala de aula, onde as amigas a aguardavam para darem início a conversas intermináveis e gargalhadas insanas.
dentro dela vive ainda essa miúda que luta por fazer-se ouvir e que teima em ser mais do que uma mera recordação na pré-história da memória. fontes (muito suspeitas, porque demasiado próximas e com a visão turva pelo afecto) asseguravam-na de que ela continuava a ser essa miúda e que o tempo não deixara qualquer marca, como se ela permanecesse incólume a toda e qualquer modificação.
ela retribuía com um sorriso meigo, mas aquele suspiro involuntário denunciara uma certa nostalgia latente, um desconforto indisfarçável.
tinha de se ir deitar, sentia-se extenuada com tanto trabalho, demasiado consumida pelas infindáveis tarefas que tinha de desempenhar exemplarmente, com toda a maturidade e perfeccionismo que se exige.
sonhava que no dia seguinte voltaria a ser essa miúda que, de mochila às costas, e um sorriso rasgado, enfrentava o tempo que prometia ser meigo com ela...

(... e ainda há quem diga que "a crise dos 30" não passa de uma miragem?...)

segunda-feira, julho 28, 2008

Divinos remédios


Sorvi o último romance de Mia Couto - Venenos de Deus, Remédios do Diabo - de um só trago e fiquei sequiosa da imensa poesia que habita a escrita deste autor.
Sidónio Rosa, médico português, apaixonara-se pela bela Deolinda que conhecera num congresso em Lisboa e que, entretanto, se esfumara por entre as memórias de um amor fugaz mas ao mesmo tempo perene.
Decide então viajar até Vila Cacimba na demanda de Deolinda e enquanto espera pelo seu regresso dá assistência ao pai de Deolinda, o moribundo e hilariante Bartolomeu Sozinho, marido da eloquente Dona Munda que tinha sempre uma resposta poética na ponta da língua e que sabia decifrar com perspicácia os insondáveis mistérios da existência e dos afectos.
Todavia, em Vila Cacimba tudo é etéreo e indefinido como a neblina que separa esta vila do mundo e da realidade palpável. É uma espécie de Macondo, palco dos acontecimentos mais inverosímeis, pincelados ao sabor de um realismo mágico que atravessa todas as latitudes. Ali as flores depositadas nas jarras transformam-se em mãos humanas e as flores do esquecimento abatem-se pela vila, numa ameaça de desaparecimento iminente, riscando para todo o sempre as estórias que aí se desenham e se entrecruzam.
Percorremos sofregamente as páginas na demanda de Deolinda, de respostas, mas surgem sempre mais dúvidas e cedo se percebe que a verdade se faz de ardilosas mentiras, numa teia interminável. Nada é o que parece. Poderá a realidade não passar de um sonho fugaz? Terá tido essa viagem de Sidónio um ponto de partida?...

Não poderia deixar de registar aqui umas das passagens mais belas do livro, em que se define a essência do Amor:

Nessa noite se solveram, mãos de oleiro, salvando o outro de ter peso. Nessa noite, o corpo de um foi o lençol do outro. E ambos foram pássaros porque o tempo deles foi antes de haver terra. E quando ela gritou de prazer, o mundo ficou cego: um moinho de braços se desfez ao vento. E mais nenhum destino havia.


Mestre da reinvenção da língua (em minha opinião autor intraduzível, porque a beleza da língua que ele criou só faz sentido com o Português como pano de fundo), Mia Couto joga com as palavras e redescobre a pureza e o mistério original das palavras. Utilizando um adjectivo por si criado, é uma escrita “abensonhada”...

sexta-feira, julho 25, 2008

"Ich bin Berliner"

Berlim é um ponto crucial no contexto da geoestratégia mundial. Todos os analistas políticos o sabem e Barak Obama não podia deixar de imprimir a sua marca inconfundível nesta metrópole tão decisiva no plano europeu, tão carregada de História e de memórias. O discurso de Barak Obama é notável e denota uma aproximação à Europa, dominada pelo papel determinante do gigante alemão. O périplo internacional de Obama é, por si só, um sinal de abertura e de esperança, num mundo dominado pela ameaça global do terrorismo e de fundamentalismos extremados. Ele é, sem sombra de dúvida, "um cidadão do mundo", como ele próprio se define no início deste discurso, e é de líderes dessa envergadura política e intelectual de que estamos profundamente sedentos.

segunda-feira, julho 21, 2008

É branco!


É branco e é simplesmente irresistível! Sinto-me uma autêntica criança inebriada pela magia e a estranheza de um brinquedo novo!

sábado, julho 19, 2008

Infosaudosismo


O meu portátil ACER, volvidos 5 anos, finou-se. Subitamente, o ecrã assumiu uma tonalidade branca e não era uma mensagem celestial de qualquer espécie, era, muito provavelmente, o prenúncio da finitude ou a imagem do fim em si.
A matéria é finita, por natureza, mas teimamos em acreditar na eternidade de todas as coisas. Este portátil acompanhou-me em inúmeras viagens de comboio, rumo a Lisboa, rumo a Viseu, e nele escrevia, meditava, ouvia música, via filmes (inevitavelmente comédias) que me ajudavam a combater a lenta passagem do tempo, trabalhava horas infindáveis, até quase não conseguir distinguir a nitidez dos caracteres, nem tão pouco das ideias...
Não deixa de ser absolutamente patético sentir saudades de matéria moribunda, mas, enfim, somos animais de hábitos e quando o inesperado, de facto, acontece, é todo um universo que se desmorona.
Já nenhum portátil vai ter aquela carga de memórias, nem que o próximo venha vestido de cor-de-rosa;)...
P.S. Era o modelo ACER Travelmate e este portátil era, sem dúvida, o melhor dos companheiros de viagem e hoje a viagem dele chegou ao fim. Ironias...
Ainda acredito, porém, que ele vai ressuscitar!...

quinta-feira, julho 17, 2008

Wake up alone

It's okay in the day I'm staying busy
Tied up enough so I don't have to wonder where is he
Got so sick of crying
So just lately
When I catch myself I do a 180

I stay up clean the house
At least I'm not drinking
Run around just so I don't have to think about thinking
That silent sense of content
That everyone gets
Just disappears soon as the sun sets

This face in my dreams seizes my guts
He floods me with dread
Soaked in soul
He swims in my eyes by the bed
Pour myself over him
Moon spilling in
And I wake up alone

If I was my heart I'd rather be restless
The second I stop the sleep catches up and I'm breathless
This ache in my chest
As my day is done now
The dark covers me and I cannot run now
My blood running cold I stand before him
It's all I can do to assure him
When he comes to me I drip for him tonight
Drowning in me we bathe under blue light

His face in my dreams seizes my guts
He floods me with dread
Soaked in soul
He swims in my eyes by the bed
Pour myself over him
Moon spilling in

And I wake up alone
And I wake up alone
And I wake up alone
And I wake up alone

Amy Winehouse

quarta-feira, julho 16, 2008

A sul


Fico completamente a leste se pensar no sul... Há um je ne sais quoi no sul, não sei se advém daquela luz única e envolvente que nos afaga e nos acolhe no seu ventre terno ou do azul das águas, quentes e calmas, que se movem languidamente, como se não houvesse amanhã sequer...A parte mais entusiasmante das férias é a preparação, o frenesim da noite da véspera, aquela doce insónia da expectativa. E passear pela imensidão do areal e sentir as areias finas e trémulas a fundirem-se na nossa pele ávida de sol. Risco os dias como um prisioneiro de Alcatraz, num countdown frenético e alucinado, na esperança de que um dia engula o outro e logo o outro, para que chegue o momento tão aguardado e...rumar a sul...

"Drowning in me, we bathe under blue light."
Wake up alone, Amy Winehouse

(Não é de admirar que as letras de AW sejam estudadas em Oxford. São habitadas por uma poesia única que nos comove e nos persegue ao longo do dia...Já não se faz música assim! Hoje em dia, os tempos são demasiado acelerados para as pessoas se deterem na beleza das palavras.)

segunda-feira, julho 07, 2008

Spread the word


Mais um grande passo no sentido da afirmação e consolidação da Língua Gestual. Na semana passada, foi apresentado o interessante projecto "Spread the Sign" na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação do Porto, e que resultou do envolvimento de seis equipas europeias com vista à elaboração de um dicionário multilingue de Língua Gestual, que reúne mais de 2.000 palavras, afirmando-se como um instrumento de trabalho poderosíssimo para todos aqueles que se movem no universo da Língua Gestual.
A pouco e pouco, vai-se reforçando a crença de que os muros com que as pessoas com deficiências auditivas se defrontam no dia-a-dia terão se esbater forçosamente e que a comunicação irá ganhando contornos mais definidos e eficazes.
Esta é, sem dúvida, uma excelente notícia que merece o nosso vivo aplauso!

Aurea Mediocritas


Há qualquer coisa de mágico no entardecer de Verão, nesse manto que se abate, lânguido e lento, sobre nós e que nos devolve uma sensação de alegria primordial, de uma doce inocência e, sobretudo, de quase imortalidade.
O olhar vai perseguindo o cair do sol que lentamente sai de cena, pé ante pé, e ao mesmo tempo que assistimos a esse verdadeiro milagre, sentimos o cheiro típico do Verão que, por vezes, nos arrebata e nos transporta a tempos longínquos, em que ficávamos a brincar na rua até tarde e em que acreditávamos ser brindados pelo sopro da eternidade.
Hoje vêem-se cada vez menos crianças nas ruas. É esta geração playstation que jamais sentirá os cheiros e os sabores estivais e que permanece enclausurada numa muralha virtual, em mundos assépticos e paralelos.
O eminente poeta grego Horácio, numa das suas odes, evocou a "aurea mediocritas", que consiste na capacidade de nos comprazermos nas pequenas coisas do dia-a-dia e de nos deixarmos invadir pela poesia e não pela ganância desmesurada ou pelo apego aos bens materiais.
Não seria muito diferente do humor de Seinfeld que se baseava, precisamente, naqueles episódios risíveis e universais do quotidiano, fazendo deles a sua matéria-prima cómica. O humor é uma das principais fontes de felicidade, senão mesmo a maior...
São estes fugazes instantes quotidianos que preenchem a noção de felicidade. Não são as casas, nem os carros topos de gama, nem os telemóveis de última geração que só lhes falta aspirar a sala empoeirada.
É esta etérea contemplação de um entardecer de Verão, cuja poesia se derrama sobre a nossa pele e que, pasme-se!, é grátis!

domingo, junho 29, 2008

Viver para trabalhar


Não é possível ficar indiferente às actuais discussões sobre o novo Código do Trabalho e, sobretudo, à possibilidade, engendrada pelos iluminados senhores de Bruxelas, de a semana de trabalho passar de 40 para 65 horas! Parece evidente que o caminho traçado por esta Europa a 27 não se revela particularmente auspicioso e, no plano social, se este projecto das insanas 65 horas semanais passar pelo Parlamento Europeu e for, de facto, avante, os tempos vindouros afiguram-se conturbados e marcados pela forte contestação social.
Com esta medida polémica, pretende-se, unica e exclusivamente, cortar no pagamento das horas extraordinárias, levando os trabalhadores aos limites da exaustão física e psicológica, para além de inviabilizar, quase por completo, qualquer possibilidade de se ter vida pessoal e espaço para a individualidade no domínio extra-laboral.
Se se enveredar por este rumo, não só a produtividade irá baixar drasticamente, como também a própria qualidade do trabalho em si, pois não é humanamente possível fazer essa verdadeira maratona de trabalho e atingir o mesmo grau de perfeccionismo e de eficácia que se atingiria em moldes normais, com uma carga horária adequada. Por outro lado, a motivação e o empenho dos próprios trabalhadores irão sofrer um decréscimo evidente, ao constatarem que o espaço destinado à esfera pessoal e dos afectos se torna cada vez mais confinado, podendo trazer sérias consequências ao nível do equilíbrio do indivíduo.
Esta realidade pode afectar todos aqueles que habitam esta Europa a 27. Não se trata, assim, de uma mera discussão filosófica sobre os retrocessos da política social, mas de uma ameaça real efectiva que paira sobre todo nós enquanto cidadãos europeus.
Nesta mesma Europa que parece negligenciar o "Não" Irlandês ao Tratado de Lisboa e que não convoca os seus cidadãos para a participação cívica e que pouco se importa com o nosso voto. O Tratado de Lisboa, cujos conteúdos não são alvo de uma explanação exaustiva por parte das classes dirigentes, para que as pessoas possam compreender o alcance e dimensão real do mesmo, nem tão pouco é objecto de referendo, tal como sucedeu (e muito bem) na Irlanda.
O que fazer após o "Não" irlandês? Que rumo tomará esta Europa que parece cada vez mais divorciada dos seus próprios cidadãos? E da própria noção de democracia...
Os senhores de Bruxelas continuam a governar, do alto dos seus gabinetes assépticos, de uma forma completamente desfasada da realidade social, concentrando-se apenas nos números e esquecendo, por completo, a questão humana.
Terá sido por esta Europa que os pais fundadores do sonho europeu se bateram?...

sábado, junho 14, 2008

"Coisas maravilhosas" de Tiago Guedes


As coisas maravilhosas são, por norma, difíceis de definir. Sentem-se apenas e revelam-se como epifanias fugazes que desejaríamos, porém, perpetuar.
Ontem assisti no Teatro Viriato à última criação do coreógrafo Tiago Guedes intitulada "Coisas Maravilhosas" que, curiosamente, nasceu de um vídeo "Egyptian Regae" (Jonathan Richman & Modern Lovers) e que se afirmou e consolidou como mote para um espectáculo único, enigmático e primordial.
Durante o espectáculo, somos guiados a um tempo sem tempo, a um espaço sem espaço, com o seu "je ne sais quoi" de tribal e de primitivo, porque revelador da essência mais genuína do ser humano.
Ali se espelham os encontros, os desencontros, a solidão, a amizade e tantos outros fenómenos da existência.
Os corpos enleiam-se, num estado de semi-nudez, sem qualquer motivo aparente, para logo se afastarem, procurando rumos distintos que acabam sempre por desaguar num mesmo caminho.
É, sem dúvida, um espectáculo que se presta a infinitas interpretações e que encerra em si o mistério da condição humana, revelado através dos cânticos, das palavras que se balbuciam e que mal se compreendem e da dança dos sentidos com que somos brindados.
Em suma, uma sucessão de momentos maravilhosos!

sexta-feira, junho 13, 2008

Porque sim...


Quando passo muito tempo sem escrever, sinto um bichinho irrequieto dentro de mim que quer obrigar as palavras a saltar cá para fora. Pode não haver qualquer leitmotiv (por vezes, o cansaço imposto pelo quotidiano é tão cruel que faz esgotar as motivações para a escrita), mas a vontade anda por aqui, impaciente, incontida, inabalável. Quantas vezes nos submetemos às imposições do dia-a-dia e logo nos esquecemos do que realmente nos move e preenche por completo. Porque o quotidiano é, por vezes, desesperadamente cinzento, a escrita e a dança frenética das palavras dão sentido e vida à própria vida. Como diria Lobo Antunes, "a escrita é uma forma de combater o absurdo". Concordo na medida da minha insignificância, mas nem por isso posso dizer que sou imune a esse vício tão saudável de escrever (ou de "escrevinhar"!). Porque sim...

quinta-feira, maio 22, 2008

A meio gás


É certo que as especulações valem o que valem, mas por vezes valem muito e o preço a pagar por elas é demasiado elevado. Entremos então no reino das especulações. Se no país de "nuestros hermanos" o preço dos combustíveis aumentasse pela (pasme-se!) vigésima vez consecutiva, já teria havido uma revolução ou, na pior das hipóteses, uma forte paralisação da sociedade civil em prol da redução dos preços indecentemente elevados dos combustíveis.
Não sou propriamente perita nesta matéria, mas, pela lógica, e ainda que a escalada do preço do barril do petróleo seja uma realidade, a desvalorização do dólar face ao euro também o é, daí que esta subida atroz dos combustíveis encerre em si muita especulação e uma arbitrariedade inadmissível, à qual nem o próprio governo parece fazer face.
Ora, a atitude normal da sociedade civil seria a de manifestação, em peso, e de reacção perante o poder arbitrário destas empresas que dominam o país por completo.
O aumento dos combustíveis - e não é preciso ser um Nobel da Economia para percebê-lo - faz sentir os seus efeitos devastadores sobre todos os domínios: alimentação, transportes, e por daí em diante.
Parece que, de repente, nos transformámos numa espécie de Roménia ou de Argentina, completamente sujeitos à arbitrariedade e a critérios ambíguos e altamente penalizantes para os cidadãos.
Estamos a meio do ano e os combustíveis já aumentaram 20 vezes! Porque não se passa da palavra à acção? Andam a circular e-mails e sms apelando à mobilização da sociedade e à luta pela redução do preço dos combustíveis, mas parecem não surtir qualquer efeito, nem tão pouco se traduzem na prática. Basta de um país a meio gás!
E que melhor protesto do que deixar o carro na garagem e passar a ir de bicicleta para o trabalho? O planeta agradece! E o Al Gore também!:)

Chove chuva...


Não, não é por falta de tema que escrevo sobre a chuva. "Chover", verbo impessoal de sujeito basicamente indefinido, que se entranha em nós, espraiando-se um insuportável cinzento sobre a alma. Sou tão permeável a este fenómeno atmosférico que chega a roçar os limites do ridículo ou do cómico, das duas uma. Fico indescritivelmente impaciente, deprimida, viro e reviro os olhos e o pensamento e não encontro nada que me mova e me cative. Espero ansiosamente por alguns tímidos raios de sol que, em acto contínuo, me devolvam um sorriso. Chuva oblíqua de Pessoa ou simplesmente chuva. Entediante. Cinzenta. É bom ouvi-la, mas trocaria o prazer deste som aconchegante por uma chuva de raios de sol, quentes e que não cessassem nunca!
Como diria Jorge Ben, "chove, chuva/ chove sem parar/ pois eu vou fazer uma prece pra Deus Nosso Senhor/ prá chuva parar/ de molhar meu divino amor"...
Nem com preces lá vamos. Esta chuva veio mesmo para ficar...

domingo, maio 18, 2008

(Ainda) o (des)acordo ortográfico


Esta tem sido, sem dúvida, uma das minhas obsessões de eleição dos últimos tempos, mas é por uma boa causa!
Ontem comprei este livro na FNAC e creio que será, certamente, uma enriquecedora sugestão de leitura para todos os que, como eu, têm sérias reservas em relação à viabilidade de um acordo que pretende unificar a língua portuguesa, mas que irá contribuir para um caos linguístico sem precedentes, aniquilando, sem dó nem piedade, a beleza da multiplicidade e, no fundo, das inúmeras variantes do Português que se pensa, se fala e se escreve nos quatro cantos do mundo.
Vasco Graça Moura dá o eloquente exemplo do Inglês de Inglaterra que não sucumbiu perante o poderio do Inglês falado nos EUA e no resto do mundo. Dá que pensar, sem dúvida!
A língua é um território bem mais vasto, bem mais poético, que ultrapassa as limitadas mentes dos "iluminados" que brincam à política e que se julgam detentores de uma verdade que nem sequer percebem!
Recordo as palavras de Mia Couto:
"Não tem de haver acordo, a riqueza está em encontrar diferentes sabores nas grafias."

sábado, maio 17, 2008

Sei de um fado



Com o último álbum de Camané (para mim, o maior fadista português) - Sempre de mim - como banda sonora deste texto, não pude deixar de sentir uma forte comoção que veio à superfície pela terna poesia das letras, pela crueza da voz quente e pela nostalgia que, invariavelmente, salpica qualquer fado.
Nacionalismos à parte, o fado espelha, na perfeição, a essência da identidade portuguesa: a ânsia de uma felicidade que partiu e que já não se poderá reaver; a saudade infinita e lírica de memórias passadas, de instantes de fugaz contentamento, de um sofrimento que paira sobre nós como um fantasma que insiste em permanecer no baú empoeirado; da nostalgia que languidamente nos consome e em cuja angústia sentimos um estranho prazer e da saudade, a eterna saudade, do que foi e já não volta a ser.
Há, de facto, uma nova geração de fadistas que enveredam por registos ora mais inovadores, introduzindo instrumentos diferentes e sonoridades ousadas, ora mais ortodoxos, seguindo o trilho do fado mais conservador. Por mais diversas que sejam as roupagens, o fado será sempre a expressão eloquente de um estado de alma muito peculiar e de uma tendência muito portuguesa e não menos masoquista para uma certa auto-comiseração, como se a dor fosse mesmo inescapável.
Há dias, na viagem de regresso de Lisboa, ouvia a conversa de umas senhoras no autocarro que vieram, literalmente, o caminho todo a falar de doenças, desgraças e afins. Essa é, lamentavelmente, uma característica muito portuguesa. As pessoas nunca dizem que estão bem-dispostas, que o dia está a ser fantástico. "Vão andando como Deus quer" e nunca tomam as rédeas do próprio destino, nem sequer tentam ver a realidade com optimismo e espírito positivo.
A saudade, o fado, o messianismo, a nostalgia, enfim, todos estes vectores ajudam a moldar a identidade nacional, mesmo que habitem os confins subterrâneos do nosso sub-consciente colectivo.
Se assim não fosse, não estaria a ouvir fado e a sentir um prazer indescritível em toda esta poesia que por aqui anda à solta. Não sou sueca, ora bolas!:)

domingo, maio 11, 2008

Lucidez precisa-se!


Mais devastadora do que qualquer catástrofe natural é a junta militar que, tiranicamente, governa a Birmânia de há 46 anos a esta parte. O mundo parou de pasmo e de consternação ao constatar que um grupo de dirigentes políticos déspotas recusou conceder vistos de entrada a peritos em salvamento da ONU e a jornalistas estrangeiros que iriam fazer a cobertura dos efeitos dramáticos do ciclone Nargis. Tal nunca havia acontecido, o que só demonstra que, de facto, a crueldade humana não conhece limites. Não percebo como é possível sacrificar toda uma população em nome de um ideal político tirano e completamente alucinado, negando-lhe cuidados básicos de saúde, alimentos e assistência. A comunidade internacional deveria tomar uma posição activa contra este exemplo tristemente eloquente de tirania extrema (como o são sempre todas as ditaduras) e, acima de tudo, de total insensibilidade perante uma tragédia de tais dimensões que já ceifou a vida de cerca de 100.000 pessoas e que se acredita que seja ainda mais letal do que o tsunami de 2004. E, em plena tragédia humanitária, a junta militar vai brincando aos referendos!
Já é suficientemente dramático viver numa zona do globo tão propensa a este tipo de catástrofes naturais. Mais dramático ainda é saber que se está nas mãos de quem jamais nos dará a mão em nosso auxílio...

domingo, maio 04, 2008

Quero ver!...


My Blueberry Nights, o filme mais recente de Wong Kar-Wai, que abriu a 60ª edição do Festival de Cannes, bem como o Indie Lisboa, reúne um elenco de peso: Jude Law, Natalie Portman, Rachel Weisz, Tim Roth e Norah Jones, marcando a sua estreia em cinema e cuja interpretação foi já amplamente aclamada pela crítica. A cena do beijo (no cartaz) demorou 3 dias a ser filmada! Um perfeccionismo e um agudo sentido de minúcia próprio dos grandes cineastas. Do mesmo cineasta, aconselho vivamente o filme Disponível para Amar que nos prende desde o primeiro instante pela beleza da fotografia, pela luminosidade quente que percorre o filme e pela envolvência poética dos protagonistas. Por todos estes motivos, não irei perder este novíssimo My Blueberry Nights. Let's look at the trailer!

domingo, abril 27, 2008

Nem só as rosas têm espinhos

Mais um ano se assinalou sobre o 25 de Abril e sobre a instauração da liberdade e do regime democrático em Portugal, após a eternidade de ditadura e de opressão.
Já muita tinta correu sobre o 25 de Abril, mas não poderia deixar de tecer algumas considerações a este respeito.
A cada ano que passa se reforça a crença do afastamento dos cidadãos em relação à política, demitindo-se permanentemente dos seus deveres de cidadania. Como não poderia deixar de ser, o Presidente da República, no seu discurso deste ano aludiu, em concreto, à flagrante ignorância dos jovens nesta matéria. O estudo da Universidade Católica, encomendado pelo PR, poderá ser consultado neste link.
O 25 de Abril converteu-se assim em mais um feriado cujo significado passa despercebido aos jovens (e não só), uma espécie de longínquo 01 de Dezembro de 1640, que também ninguém conhece.
No entanto, a grande quota parte da culpa tem de se imputar à classe política e, sobretudo, aos partidos que desde 1974 governaram o país. Há um divórcio claro entre governantes e governados, sendo que estes últimos já desacreditaram a possibilidade de algum dia Portugal vir a ser liderado por classes políticas capazes, idóneas, com espírito de missão e, acima de tudo, com horizontes abrangentes e com audácia, que operem as reformas necessárias e estruturais de que o país tanto necessita. E não por uma sucessão de políticos que colocam, sistematicamente, os interesses pessoais à frente dos interesses de Estado.
Nos domínios vitais, ou seja, Saúde, Educação, Economia, Finanças, Segurança-Social, o país está completamente dilacerado e não se perspectivam cenários de mudança profunda, nem tão pouco se vislumbram dirigentes de grande estirpe moral e intelectual que façam essa mesma mudança de fundo. Aqui, tal como nos EUA, o mote deveria ser mesmo "to change", como se pode ler na campanha de Barak Obama.
Outro ponto muito preocupante prende-se com o facto de o exercício da democracia se ter resumido ao ritual do voto. Não nos pedem o nosso parecer sobre o Tratado de Lisboa, com medo de que a "populaça" acabasse por chumbá-lo. Este fenómeno, infelizmente, é extensível aos restantes países europeus que optaram por ratificar um Tratado à margem dos próprios cidadãos que os elegeram. É um exemplo tristemente eloquente que diz muito da alegada democracia em que vivemos.
Terá sido por esta noção de liberdade e por esta democracia por que tantas e tantas pessoas se bateram, sujeitando-se às maiores torturas físicas e psicológicas e chegando mesmo a pagar para tal com a vida?
A educação para a liberdade e para a democracia deveria começar na escola. No meu tempo de liceu, nem o Estado Novo, nem o 25 de Abril eram leccionados, com a clássica desculpa de que essa matéria "já não calhava no exame final". Se os formadores insistissem mais neste ponto, talvez o tom do discurso mudasse e nos pudéssemos congratular com os frutos dessa revolução pacífica que destronou a opressão e deu voz a todos, sem excepção.
34 anos volvidos sobre o 25 de Abril e já ninguém se lembra?!Um país sem memória não terá certamente um futuro risonho pela frente...

quarta-feira, abril 23, 2008

Afinal os óculos a 3D funcionam!

Quem não se lembra de uns óculos (supostamente a 3D) que eram distribuídos há imensos anos atrás com os jornais e que, com os quais, segundo nos afiançavam, poderíamos ver o temível monstro do Loch Ness? Não sei se era do sono ou da tremenda excitação que senti na altura – era uma criança ainda – mas o que é facto é que nunca consegui ver nada e a desilusão que se instalou desde então foi marcante…
Hoje consegui vencer esse trauma de infância e percebi que afinal há óculos a 3D que funcionam de facto! Fui ver o filme U2 3D que constitui uma experiência verdadeiramente alucinante. O concerto foi filmado na América Latina e, através daqueles óculos verdadeiramente irreais com um certo toque retro (que por si só são motivo de comédia), sentíamo-nos parte daquela multidão ondulante que entoava as canções que se converteram em autênticos hinos da mítica banda irlandesa.
Mesmo para quem não aprecie particularmente a música dos U2, não ficará indiferente à grandiosidade do espectáculo, aos efeitos visuais e sonoros, à envolvência daquelas músicas que nos fazem recuar no tempo e nos embalam ao sabor de letras que entoamos de cor e salteado.
O que mais me marcou, além de toda a alucinação visual que os tais óculos milagrosos proporcionaram, foi o poder da mensagem política veiculada: o entendimento entre as grandes religiões monoteístas; a defesa dos direitos humanos; o pacifismo e ainda que essa postura política possa ser confundida com oportunismo ou com uma atitude de certa forma politicamente correcta, é sem dúvida muito louvável que uma banda com tamanha força e projecção internacional contribua para o despertar das mentes adormecidas e desumanizadas, levando-as a pensar para além do seu próprio umbigo. Porque a realidade é muito mais vasta do que aquilo que nos pretendem vender.
E não é que os óculos funcionam mesmo?!...
Post Scriptum - Os óculos da imagem eram do género dos tais do Loch Ness...

terça-feira, abril 22, 2008

Dia Mundial do Livro


Li uma vez numa das geniais crónicas de Miguel Esteves Cardoso que uma das maiores vantagens da leitura era a possibilidade de poder mandar os outros à fava e de nos podermos enclausurar num mundo só nosso. Admito que seja uma posição algo extremista e não menos hilariante, mas também não posso de reconhecer um fundo de verdade nessas palavras, perpassadas por uma fina ironia.
Através do livro, esse instrumento mágico dotado de verdadeiros poderes sobrenaturais, passamos a habitar múltiplos cenários, a viver inúmeras vidas, egoisticamente desfasados da nossa realidade. Há livros que nos marcam para a vida. Ainda hoje me sinto a calcorrear as ruas da Praga de Kundera ou a percorrer as ruas de Salvador da Bahia magnificamente retratadas por Jorge Amado, um escritor que me leva sempre às lágrimas. E se fechar bem os olhos, sinto o vento a bater-me no rosto e acompanho a viagem de Fermina Daza e de Florentino Ariza no barco a vapor do Amor nos Tempos de Cólera que languidamente segue o seu rumo ao sabor das águas cálidas e tranquilas de lá para cá, de lá para cá até à eternidade...
Não acredito no fim do livro, como muitos vaticinam. Por mais tecnologias que coloquem ao nosso alcance, nada se compara ao cheiro do papel, à envolvência das páginas, ao contacto íntimo que criamos com o livro e que nos propicia momentos de evasão voluntária, em que literalmente mandamos o mundo...à fava!
E amanhã é Dia Mundial do Livro!

domingo, abril 20, 2008

So eighties






Ontem à noite enquanto (re)via o “Crime na Pensão Estrelinha”, recentemente lançado pela Time Out e que constitui, sem dúvida, umas das grandes obras-primas de Herman José, o expoente máximo do humor em Portugal, não pude deixar de reparar no fantástico guarda-roupa que mostra bem as tendências que vigoravam na moda de então e que hoje nos fariam corar, no mínimo.
Aposto que, algures numa gaveta recôndita, ainda encontraremos vestígios dessa época de exageros em que tudo era disforme e profundamente desmesurado, em nome de uma estranha estética cuja lógica nos escapa por completo, mas que detem ainda um certo “je ne sais quoi”.
Atire a primeira pedra quem nunca usou...
− uma camisola com chumaços/ombreiras?
− um blusão de ganga XXL?
− um blusão de penas da Duffy?
− calças de ganga que quase chegavam ao pescoço?
− camisas larguíssimas ao xadrez e de preferência de flanela?
− calças de ganga rotas?
− blusas de ganga?
− botas de pedreiro ou de cowboy?
− blusões de cabedal pretos de motoqueiro? (já nem menciono as pulseiras de cabedal aos piquinhos…)
− cabelos desgrenhados, franjas com cabelos encaracolados?
− aqueles bodies bem justinhos?
− camisolas de lã enormes de gola redonda, bem justinha ao pescoço e que as nossas próprias mães criavam?
− corpetes?
− estranhas conjugações de padrões completamente diversos, mas cuja harmonia jamais se punha em causa?
And so on, and so on…
Por oposição, as tendências da moda e da beleza hoje em dia apontam no sentido do elogio e do endeusamento de corpos cadavéricos e esqueléticos, completamente insípidos e sem qualquer poder atractivo. Quanto mais débil e esguio, melhor. Até ao limite da sanidade.
Pelo menos nos excêntricos anos 80, havia sentido de humor na forma como as pessoas se apresentavam. Tudo era desmedido e alucinado, num peculiar XXL universal que nos unia nessa excentricidade não questionada. 80’s forever!!

quarta-feira, abril 16, 2008

M & M


Tique taque, tique taque…o tempo adensava-se e o seu manto de chumbo envolvia-o agora e não havia fuga possível. Já não sabia se ouvia mesmo esse tiquetaquear ou se não passava de uma mera invenção ou se já seria fruto de um estado de dormência que o pânico do reencontro criara. A atmosfera sombria, porém acolhedora, daquele bar que a Matilde tinha sugerido afagava-o de certa forma no seu corpo quente e macio. Sempre se sentira no habitat natural em bares de jazz de luzes ténues e trémulas. Conhecia a Matilde desde sempre, algures na Pré-História das memórias, quase desde que despontara a consciência de si. Ela era tão linda, ai como era lânguida e etérea, deambulando, indiferente, naqueles corredores agitados da escola. Mesmo com o passar do tempo, sempre implacável com o comum dos mortais, Matilde conservara aquela meninice nas feições, no olhar e em cada traço do rosto que se abria em gargalhadas primaveris.
Não sei bem que estranhas forças do destino me impeliram para aqui. Terá sido saudade? Mas como ter saudade de algo que nunca se teve? Com mil diabos, ela nem me conhece, ou por outra, conhece-me da mesma forma que eu. Foi o olhar que nos uniu, tão somente. Confesso, é lamechas, como não sê-lo nestas alturas? Já nem sei o que estou para aqui a balbuciar ou se calhar já estou a contar a minha história – a nossa história – em altos berros, numa espécie de sonambulismo de verdade.
Poderia ter escolhido outros sapatos mais cómodos, por exemplos aqueles vermelhos rasos e bicudos que até são de verniz…mas por que raio haveria de estar confortável, se me iria sentir desconfortável por não estar no meu melhor para o Mário? Só o conheço de longe, de muito, muito longe, desses tempos remotos em que se vivia em pleno estado de inocência. Nunca trocámos uma palavra, apenas olhares demorados que nos faziam corar. Não sei se ele é de direita (queira Deus que não!), de esquerda, de também costuma falar do tempo ou de futebol quando não há mais nenhum outro assunto, se é tímido, se é o centro das atenções…A calçada fazia ecoar os passos de Matilde que se tornavam cada vez mais vacilantes e curtos.
O burburinho de fundo, o fumo que se elevava em densas espirais e o som do saxofone abafavam por completo o ecoar dos corações já roucos. As melodias espraiavam-se e, por entre as palavras que se soltavam, numa ânsia alucinada, houve um beijo que se selou e, de súbito, fez-se silêncio…restara apenas aquele (fictício?) tique taque, tique taque…

segunda-feira, abril 14, 2008

domingo, abril 13, 2008

Naifa ou a beleza das coisas quotidianas

Monotone
Antes de saíres para o trabalho, arrumas à pressa o dia anterior

Para debaixo da cama.
Antes de saíres para o trabalho
Guardas o coração ainda adormecido bem dentro do teu corpo

E esqueces essa canção que já não passa na rádio
Mas que vive secretamente dentro de ti.
Fechas a porta à chave com duas voltas e sais.

Parada junto à passadeira, protegida num gesto ledo
Fixas o olhar na sombra dos carros que passam.
Esperas pelo sábado,
Pelo feriado e as suas pontes,
Pelas férias para ouvires as tuas canções.
Sentes-te longe, silenciosa de luz.

E esqueces essa canção que já não passa na rádio
Mas que vive secretamente dentro de ti.
Fechas a porta à chave com duas voltas e sais.

O concerto de Naifa ontem no Teatro Acert de Tondela foi absolutamente memorável, não só pelo ambiente de profunda partilha que se estabeleceu e pela voz avassaladora da vocalista, a par da qualidade de todos os músicos em palco, mas sobretudo, pelo poder electrizante das palavras e das poesias que se entretecem e se alimentam das coisas quotidianas: a rotina, os (des)encontros, as memórias, a dor da ausência e da perda, a tragédia do quotidiano, percorridas por uma ironia quase corrosiva e não menos cómica. Aqui fica uma música "ideal" para uma segunda-feira que se avizinha!...

Faltam 2 dias...


...para a abertura da FNAC Viseu, facto tanto mais relevante numa cidade em que (quase todos) os projectos de interesse cultural estão fadados a desaparecer. Espero que a FNAC seja uma excepção à regra e que, através da sua dinâmica agenda cultural, bem como da óbvia oferta de produtos culturais mais abrangentes e que pura e simplesmente não se encontravam em Viseu até à data, contribua para um despertar das mentes, insuflando-as de uma nova energia e de uma predisposição para as lides culturais.
É certo que estes espaços são também alvo de muitas críticas por se assemelharem a "centros comerciais culturais", perdendo-se, de certa forma, aquela ambiência intimista e de profunda cumplicidade entre o leitor e os livros que só se encontra nas boas livrarias.
Creio, no entanto, que a abertura deste espaço, sobretudo em Viseu, uma cidade que padece ainda de inquestionáveis lacunas culturais, só poderá ser sinónimo de evolução e quiçá crie salutares hábitos de consumo, de pesquisa, de interesse e de curiosidade intelectual pelos fenómenos culturais, decisivos para o progresso das mentalidades mais empoeiradas.
Como diria a outra do Rock in Rio, "eu vou"! E para tal basta tão somente descer a rua...

domingo, abril 06, 2008

Hino ao saudosismo ou como sobreviver a MacGyver


Não consigo disfarçar um sorriso de satisfação quando ouço aquelas músicas que preencheram a minha adolescência e acho que daria um pulo de contentamento se, de repente, anunciassem na RTP1 que o MacGyver iria voltar aos ecrãs. A figura daquele herói dos anos 80 habitará para sempre o nosso imaginário pela destreza com que derrubava todos os obstáculos, fazendo uso do seu milagroso canivete suíço. MacGyver era um hino ao pragmatismo, um homem de carne e osso, sem quaisquer super poderes que nos fazem bocejar pela improbabilidade, que punha literalmente a mão na massa e que (pasme-se!) até despertava em nós o interesse pelo admirável (e não menos penoso) mundo novo da Físico-Química! Era uma verdadeira emoção acompanhar aquelas aventuras electrizantes e ainda hoje consigo trautear a melodia do genérico!
E se fosse possível (re)viver um desses dias remotos dos idos de 90? Como se de uma viagem no tempo se tratasse? Numa espécie de “Adeus Lenine” à portuguesa?
Gostaria de voltar a sentir aquele cheiro a Verão e a terra molhada que hoje já se perdeu por completo (chama-se a isto velhice, achar que já não há estações do ano decentes!); de ficar na rua até às tantas; de chegar a casa com os joelhos esmurrados; de ficar a falar ao telefone com as amigas horas a fio enquanto a minha mãe resmungava num doce pano de fundo; daqueles lanches intermináveis que eram a recompensa por longas tarde de estudo; de comer panikes no bar do liceu ou de ir ao Girassol comprar croissants de chocolate; de debater exaustivamente os porquês das desilusões de amor e de chorar baba e ranho como se não houvesse amanhã; de ir de autocarro para o Day After e de regressar mal o dia despontasse…
O tempo passa, amadurecemos, traçamos novos trilhos, a vida adquire novos contornos e já só falamos com os amigos de outrora através do Messenger ou por sms. Já não há lanches nem conversas intermináveis.
A distância pode instalar-se, mas as recordações e o poder dos afectos permanecerá agarrado à pele, como um sinal de nascença. E essa é a beleza de qualquer regresso ao passado, dessa viagem que termina sempre em “happy end”, num sorriso de indisfarçável satisfação.
E por que diabo me lembrei agora do MacGyver? Provavelmente porque hoje é domingo, dia muito propenso à terna doçura do saudosismo que se entranha em nós e teima em não querer sair.
Como é que o MacGyver resolveria isto?;)

domingo, março 30, 2008

A cor da esperança


Nunca como agora se discutiu tanto a questão racial nos Estados Unidos. A candidatura de Barak Obama está na génese do relançamento de um tema que continua a ser tabú, dando, por outro lado, um impulso muito positivo ao aprofundar das relações inter-raciais. Não se trata de uma simples candidatura, mas de um sinal de esperança a toda uma comunidade ou quiçá a outras comunidades ostracizadas e discriminadas, mostrando que é possível torná-la mais visível e tomando nas suas mãos o destino de uma nação.
Importa colocar a questão (em jeito de Carmen Miranda): "O que é que Obama tem?". E, de facto, há toda uma aura de carisma em torno de Obama que lhe granjeia toda a corrente de apoio, admiração e quase veneração, a par das suas qualidades intelectuais. Obama é herdeiro e porta-voz da comunidade negra que sofreu imensamente ao longo da história dos EUA e que, pela primeira vez, vislumbra a possibilidade de um dos seus poder ascender a presidente, o que constitui um feito notável!
Parece muito redutor reduzir as eleições presidenciais norte-americanas à questão da pigmentação da pele. Não nos podemos esquecer ainda que do outro lado (ainda que ideologicamente do mesmo lado da barricada), temos uma mulher a correr à presidência, o que levanta a questão do género e da importância da do determinante papel da mulher. No entanto, e não querendo entrar numa perigosa lógica de endeusamento de um político (como sucedeu, por exemplo, com a esperança tremenda que se colocou em Lula da Silva), acredito que a candidatura de Barak Obama se faz da cor da esperança!E espero mesmo que ele seja o próximo presidente dos EUA!

Conversa de cabeleireiro (ou uma mui duvidosa incursão pela ficção)


Toda a sua vida girara em torno de frascos de acetona, de verniz de cores múltiplas, de limas já desgastadas pelo tempo e pelo desencanto, de tesourinhas minúsculas e de toda a parafernália de instrumentos que transformam umas mãos rudes em mãos encantadoras, dignas da mais ilustre princesa.
(Nem mesmo ela percebia como se operavam esses milagres....)
Agora já não havia escapatória possível. Cansara-se daquelas conversas fúteis do salão, dos mexericos de sábado de manhã, das senhoras já quase autênticos dinoussauros que insistiam em pintar o cabelo de cores ridículas de fazer corar o próprio Picasso, do facto de não esperarem nada mais dela que não as tiradas corriqueiras:
"Vai arranjar a mão ou só pintar?"
"Vai ser manicure francesa?"
"Também vai arranjar o pézinho?"
Se ela abrisse a boca para discutir a crise petrolífera mundial ou a questão israelo-palestiniana (os temas que mais lhe interessavam...pensava até estudar Relações Internacionais um dia), o desfecho mais provável seria duvidarem da sua sanidade mental, abrirem a boca de estupefacção e, passado o choque inicial, continuarem a falar da prole das monarquias europeias e da condição muito duvidosa das plebeias.
Ainda lançou um último olhar sobre todo o kitsch em que se transformara a sua vida e deitou ao lixo todos os vestígios desse destino que queria por força esquecer, passando quiçá uma espécie de acetona milagrosa que eliminasse qualquer vínculo ao passado.
Iria partir - ainda sem rumo definido - mas com a convicção de que poderia ser muito mais do que um rótulo que insistiram em colocar-lhe.
Enquanto descia a rua não pôde deixar de sentir aquele calafrio da expectativa perante o desconhecido e, esquecendo-se de tudo o que aprendera até então, começou a roer as unhas.

domingo, março 23, 2008

O intemporal e sapiente Eça!

"Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações."
Eça de Queiroz, in 'Distrito de Évora (1867)

"As tartarugas podem voam"

Já há muito que não desfrutava do prazer de acordar a um domingo de manhã, bem cedo, e ver um daqueles filmes que adoro, neste caso de um cineasta iraniano. E como o Irão é profícuo em cineastas de topo e em filmes absolutamente memoráveis: Abbas Kiarostami, Samira Makmalbaf, Bahman Gobadi, Massoud Bakhshi, só para mencionar alguns.
Ao percorrer a (lamentavelmente) reduzida secção dedicada ao cinema de autor, no clube de vídeo, deparei com este filme "As tartarugas podem voar" e não houve qualquer instante de hesitação. Era aquele que teria de ver hoje de manhã. E assim foi.
Digamos que não é, de todo, um filme de fácil digestão, nem tão pouco o mais adequado para um domingo de Páscoa com os seus tradicionais almoços familiares e em que temos de estar isentos de quaisquer preocupações.
Mas hoje foi-me deveras difícil afastar o pensamento daquela região de fronteira entre Irão e o Iraque e deixar de pensar em todas aquelas crianças que protagonizam o filme e que são, de facto, os habitantes desse ponto remoto do globo, permanentemente assolado pela ameaça da guerra, num xadrez geopolítico verdadeiramente devastador.
Numa era de cinema anestesiante, dominado pelo poderio norte-americano, numa lógica de pensamento único e uniformizador, há cineastas que resistem e que espalham pelo mundo uma inquietação necessária que conduz à reflexão séria e ao questionar das verdades que pretendem vender-nos como absolutas.
O filme desenrola-se na fustigada zona de fronteira entre o Irão e o Iraque, num campo de refugiados habitado unica e exclusivamente por crianças que de crianças já não têm absolutamente nada, que têm de recolher minas terrestres para vender e, assim, conseguir sobreviver nesse mundo hostil. Não lhes é permitido conhecer a normalidade da vida em clima de paz, nem tão pouco viver em casas, mas sim em tendas, tendo como pano de fundo os sons crus da guerra. São eles os órfãos das guerras que se sucedem naquela zona e que parecem não ter fim...
Apesar de todo este ambiente hostil, ainda há poesia e ainda se acredita no poder dos afectos e das relações entre os seres humanos e essa centelha, ainda que ínfima de esperança, confere ao filme a sua força maior.
5 anos volvidos sobre a insana guerra do Iraque, que já fez cerca de meio milhão de mortos (!), convém pensar na loucura dos líderes mundiais. As vítimas são sempre as mesmas. E quer no filme "As tartaruras podem voar", quer na realidade, não há espaço para "happy endings"...
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