domingo, março 23, 2008

"As tartarugas podem voam"

Já há muito que não desfrutava do prazer de acordar a um domingo de manhã, bem cedo, e ver um daqueles filmes que adoro, neste caso de um cineasta iraniano. E como o Irão é profícuo em cineastas de topo e em filmes absolutamente memoráveis: Abbas Kiarostami, Samira Makmalbaf, Bahman Gobadi, Massoud Bakhshi, só para mencionar alguns.
Ao percorrer a (lamentavelmente) reduzida secção dedicada ao cinema de autor, no clube de vídeo, deparei com este filme "As tartarugas podem voar" e não houve qualquer instante de hesitação. Era aquele que teria de ver hoje de manhã. E assim foi.
Digamos que não é, de todo, um filme de fácil digestão, nem tão pouco o mais adequado para um domingo de Páscoa com os seus tradicionais almoços familiares e em que temos de estar isentos de quaisquer preocupações.
Mas hoje foi-me deveras difícil afastar o pensamento daquela região de fronteira entre Irão e o Iraque e deixar de pensar em todas aquelas crianças que protagonizam o filme e que são, de facto, os habitantes desse ponto remoto do globo, permanentemente assolado pela ameaça da guerra, num xadrez geopolítico verdadeiramente devastador.
Numa era de cinema anestesiante, dominado pelo poderio norte-americano, numa lógica de pensamento único e uniformizador, há cineastas que resistem e que espalham pelo mundo uma inquietação necessária que conduz à reflexão séria e ao questionar das verdades que pretendem vender-nos como absolutas.
O filme desenrola-se na fustigada zona de fronteira entre o Irão e o Iraque, num campo de refugiados habitado unica e exclusivamente por crianças que de crianças já não têm absolutamente nada, que têm de recolher minas terrestres para vender e, assim, conseguir sobreviver nesse mundo hostil. Não lhes é permitido conhecer a normalidade da vida em clima de paz, nem tão pouco viver em casas, mas sim em tendas, tendo como pano de fundo os sons crus da guerra. São eles os órfãos das guerras que se sucedem naquela zona e que parecem não ter fim...
Apesar de todo este ambiente hostil, ainda há poesia e ainda se acredita no poder dos afectos e das relações entre os seres humanos e essa centelha, ainda que ínfima de esperança, confere ao filme a sua força maior.
5 anos volvidos sobre a insana guerra do Iraque, que já fez cerca de meio milhão de mortos (!), convém pensar na loucura dos líderes mundiais. As vítimas são sempre as mesmas. E quer no filme "As tartaruras podem voar", quer na realidade, não há espaço para "happy endings"...

4 comentários:

ritanery disse...

Domingo? De manhã? Filme? E tão pesado? Está louca a mulher!!:)Não consegues mesmo desfrutar do prazer de não fazer nada;)E ainda bem!!

Beijinhos Miga!

Dalaiama disse...

Assisti há uns anos a um ciclo do Abbas Kiarostami na Cinemateca. Não o achei brilhante mas sim, apreciei bastante o contacto com um olhar culturalmente distinto. É enriquecedor. É algo que ensina sobre a nossa modesta condição neste enorme planeta tão próximo.
A sua descrição sobre o filme 'As tartarugas também voam' abriu-me o apetite. Hei-de o procurar.
Eu sempre fui contra a invasão criminosa do Iraque. Coincidentemente, enquanto você assistia ao filme oficialmente morria o 4000º soldado norte-americano no Iraque.
Já agora, gosto das missanguinhas coloridas no cabeçalho do seu blog! :-)
Felicidades para si.

Dalaiama disse...

Só venho acrescentar que este parágrafo merecia estar num jornal, na secção crítica de cinema:
«Numa era de cinema anestesiante, dominado pelo poderio norte-americano, numa lógica de pensamento único e uniformizador, há cineastas que resistem e que espalham pelo mundo uma inquietação necessária que conduz à reflexão séria e ao questionar das verdades que pretendem vender-nos como absolutas.»

Vica disse...

Parece bem bom, vou ver se encontro por aqui. Beijos.

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