domingo, maio 11, 2008

Lucidez precisa-se!


Mais devastadora do que qualquer catástrofe natural é a junta militar que, tiranicamente, governa a Birmânia de há 46 anos a esta parte. O mundo parou de pasmo e de consternação ao constatar que um grupo de dirigentes políticos déspotas recusou conceder vistos de entrada a peritos em salvamento da ONU e a jornalistas estrangeiros que iriam fazer a cobertura dos efeitos dramáticos do ciclone Nargis. Tal nunca havia acontecido, o que só demonstra que, de facto, a crueldade humana não conhece limites. Não percebo como é possível sacrificar toda uma população em nome de um ideal político tirano e completamente alucinado, negando-lhe cuidados básicos de saúde, alimentos e assistência. A comunidade internacional deveria tomar uma posição activa contra este exemplo tristemente eloquente de tirania extrema (como o são sempre todas as ditaduras) e, acima de tudo, de total insensibilidade perante uma tragédia de tais dimensões que já ceifou a vida de cerca de 100.000 pessoas e que se acredita que seja ainda mais letal do que o tsunami de 2004. E, em plena tragédia humanitária, a junta militar vai brincando aos referendos!
Já é suficientemente dramático viver numa zona do globo tão propensa a este tipo de catástrofes naturais. Mais dramático ainda é saber que se está nas mãos de quem jamais nos dará a mão em nosso auxílio...

5 comentários:

Jaymz disse...

Este link http://bp2.blogger.com/_zyfruvceb6U/SCMv4frYe3I/AAAAAAAACBI/_WCy3f60A0E/s1600-h/ciclone.png comporta duas imagens disponibilizadas pela NASA, antes e depois da passagem do ciclone, dá-nos assim a possibilidade de ficarmos com uma noção da grandiosidade da catástrofe e em simultâneo da estupidez daquela junta militar.

Dalaiama disse...

Já cá vim outras vezes e releio sempre o teu post sem saber bem o que dizer, Ana. Porque na minha opinião o assunto é complexo...
É claro que concordo contigo, que a vida humana (e a dos bichinhos também) é valiosa, que na Birmânia não se respeita a necessidade de prestar auxílio e apoiar socialmente as povoações afectadas pela calamidade! Concordo sim.
Por outro lado, pessoalmente nunca estive na Birmânia; tudo o que sei é-me transmitido pelos media.
Sei também que há uma série de outras injustiças a afectar milhares e milhões por esse mundo fora, mas algumas são divulgadas pelos media e outras não.
Dentro da nossa Europa dita democrática e solidária, há populações inteiras reprimidas, como é o caso dos bascos em Espanha e sul de França, bem como das incompatibilidades entre letónios e russos todos a partilhar o mesmo território no norte da Europa, ou as crises étnicas que golpeiam a ex-Jugoslávia (de que a declaração unilateral de independência do Kosovo é apenas mais um (tenso) capítulo recente), só para citar alguns. Não precisamos de calamidades naturais para se saber o quanto são discriminadas estas populações, porque no seu dia-a-dia elas já tristemente enfrentam tensões sociais e discriminações.
No outro lado do Atlântico, no centro do «mundial império democrático e solidário», tivemos há pouco tempo a catástrofe que afectou Nova Orleãs, em que foi problemático o apoio prestado às populações (refira-se NEGROS e POBRES). Milhares morreram ou ficaram desalojados. Sem escrúpulos, houve ainda aproveitamentos por parte da especulação imobiliária no momento da reconstrução, o que gerou novas discriminações, novas desigualdades e autênticas faltas de solidariedade.
Neste contexto, penso logo que a nossa legitimidade para criticar outros povos é muito relativa. (Embora me apeteça fazê-lo.)
Sei também que a China é a potência emergente mais capaz de fazer frente ao império norte-americano. Por isso tudo o que esteja relacionado com ela é propagandeado negativamente. Portugal está sob a influência dos EUA, a Birmânia está sob a influência da China. Fica sempre bem para uma determinada tendência política massacrar a Birmânia, porque indirectamente está-se a criticar a China. Até pela implantação do budismo no país. A Birmânia é um dos países com maior percentagem de budistas, se não for o mais budista de todos, e como se sabe o Dalai Lama é a referência do budismo, saiu do Tibet que foi ocupado pela... China. O mau da fita, em última análise, é a China, a quem os EUA há anos vêm fazendo o cerco.
Enfim. O mundo é complexo. Eu tenho muitas dúvidas e tenho pena de as ter. Uma coisa é certa: qualquer povo, inclusive o birmanês, merece a solidariedade dos demais em situações de crise.
Ana, a tua preocupação é generosa, a tua solidariedade é sempre bonita e autêntica.
Não me leves a mal, eu é que desconfio das informações que nos dão sobre os factos do planeta. A gritar contra as injustiças, são sempre tantas, que apetece logo gritar contra todas, desmascarando a parcialidade dos media, desejando sempre um mundo melhor.
Felicidadese um abraço para ti.
:-)

Ana Cota disse...

Olá Dalaiama!
Muito obrigada pelo teu extenso e profundo comentário que poderia muito bem ser outro post:)
Concordo plenamente contigo: devemos sempre desconfiar da "verdade" uniformizadora e unívoca que os media nos pretendem vender e que por detrás da qual reside uma tentativa de supremacia de uma dada potência mundial.
O que me levou a escrever este texto foi, sobretudo, a noção de perplexidade e o carácter inédito desta situação. Um regime político que deixa os seus próprios cidadãos órfãos de auxílio só poderá merecer o nosso mais veemente repúdio.
No entanto, tal como tão eloquentemente salientaste, poderia escrever sobre tantas outras situações dramáticas que se passam mesmo debaixo dos nossos olhos, no nosso próprio país.
Mas, por vezes, a força dos media é demasiado tremenda e acaba por condicionar a nossa própria perspectiva, por mais contestatários que sejamos.
De qualquer forma, o que importa é ter uma visão o mais abrangente possível e ir mais além. Para que as nossas preocupações não se limitem à qualificação da Selecção Portuguesa no Euro'2008;)
Há todo um mundo para além disso...

Beijinhos e mais uma vez obrigada pela tua contribuição!
Ana Cota

Rita Nery disse...

Gostei da parte em que o Dalaiama diz e passo a citar:"...que a vida humana (e a dos bichinhos também)é valiosa..."
Bichinhos!ehehehehehe!!!
Desculpem-me, vocês a falarem de coisas tão sérias e eu a rir-me que nem uma maluca com os "bichinhos", que entretanto não sei bem explicar o porquê de me fazer rir, mas fez e faz:))

Pegando um pouco no que o Dalaiama disse, na verdade nunca estive pessoalmente na Birmânia, aliás eu nunca estive pessoalmente em lado nenhum!!:))))
Acho que o que acabei de dizer diz muito, ou melhor, diz tudo.É a verdade...

Beijinhos Mary

Rita DE Nery E Campos
Categoria!!!

Dalaiama disse...

Olá Ana!
Devo pedir-te desculpas porque de qualquer modo exagerei no meu comentário anterior, quer na extensão, quer no conteúdo do que disse. Especulei um bocado, porque como te disse, sinto muitas dúvidas sobre muitas coisas, e para quem tem tão poucas certezas eu devia estar mais vezes calado. Em especial sobre este assunto. Hoje, por exemplo, soube que na Birmânia a catástrofe seguinte é a ameaça de uma epidemia de cólera. Lembrei-me logo de ti e deste teu post. E que vida desgraçada a daquela gente!...
E sim, concordo outra vez contigo quando dizes que há mais vida para além da promoção da alienação em torno da selecção portuguesa!
Um abraço :-)

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