domingo, junho 29, 2008

Viver para trabalhar


Não é possível ficar indiferente às actuais discussões sobre o novo Código do Trabalho e, sobretudo, à possibilidade, engendrada pelos iluminados senhores de Bruxelas, de a semana de trabalho passar de 40 para 65 horas! Parece evidente que o caminho traçado por esta Europa a 27 não se revela particularmente auspicioso e, no plano social, se este projecto das insanas 65 horas semanais passar pelo Parlamento Europeu e for, de facto, avante, os tempos vindouros afiguram-se conturbados e marcados pela forte contestação social.
Com esta medida polémica, pretende-se, unica e exclusivamente, cortar no pagamento das horas extraordinárias, levando os trabalhadores aos limites da exaustão física e psicológica, para além de inviabilizar, quase por completo, qualquer possibilidade de se ter vida pessoal e espaço para a individualidade no domínio extra-laboral.
Se se enveredar por este rumo, não só a produtividade irá baixar drasticamente, como também a própria qualidade do trabalho em si, pois não é humanamente possível fazer essa verdadeira maratona de trabalho e atingir o mesmo grau de perfeccionismo e de eficácia que se atingiria em moldes normais, com uma carga horária adequada. Por outro lado, a motivação e o empenho dos próprios trabalhadores irão sofrer um decréscimo evidente, ao constatarem que o espaço destinado à esfera pessoal e dos afectos se torna cada vez mais confinado, podendo trazer sérias consequências ao nível do equilíbrio do indivíduo.
Esta realidade pode afectar todos aqueles que habitam esta Europa a 27. Não se trata, assim, de uma mera discussão filosófica sobre os retrocessos da política social, mas de uma ameaça real efectiva que paira sobre todo nós enquanto cidadãos europeus.
Nesta mesma Europa que parece negligenciar o "Não" Irlandês ao Tratado de Lisboa e que não convoca os seus cidadãos para a participação cívica e que pouco se importa com o nosso voto. O Tratado de Lisboa, cujos conteúdos não são alvo de uma explanação exaustiva por parte das classes dirigentes, para que as pessoas possam compreender o alcance e dimensão real do mesmo, nem tão pouco é objecto de referendo, tal como sucedeu (e muito bem) na Irlanda.
O que fazer após o "Não" irlandês? Que rumo tomará esta Europa que parece cada vez mais divorciada dos seus próprios cidadãos? E da própria noção de democracia...
Os senhores de Bruxelas continuam a governar, do alto dos seus gabinetes assépticos, de uma forma completamente desfasada da realidade social, concentrando-se apenas nos números e esquecendo, por completo, a questão humana.
Terá sido por esta Europa que os pais fundadores do sonho europeu se bateram?...

sábado, junho 14, 2008

"Coisas maravilhosas" de Tiago Guedes


As coisas maravilhosas são, por norma, difíceis de definir. Sentem-se apenas e revelam-se como epifanias fugazes que desejaríamos, porém, perpetuar.
Ontem assisti no Teatro Viriato à última criação do coreógrafo Tiago Guedes intitulada "Coisas Maravilhosas" que, curiosamente, nasceu de um vídeo "Egyptian Regae" (Jonathan Richman & Modern Lovers) e que se afirmou e consolidou como mote para um espectáculo único, enigmático e primordial.
Durante o espectáculo, somos guiados a um tempo sem tempo, a um espaço sem espaço, com o seu "je ne sais quoi" de tribal e de primitivo, porque revelador da essência mais genuína do ser humano.
Ali se espelham os encontros, os desencontros, a solidão, a amizade e tantos outros fenómenos da existência.
Os corpos enleiam-se, num estado de semi-nudez, sem qualquer motivo aparente, para logo se afastarem, procurando rumos distintos que acabam sempre por desaguar num mesmo caminho.
É, sem dúvida, um espectáculo que se presta a infinitas interpretações e que encerra em si o mistério da condição humana, revelado através dos cânticos, das palavras que se balbuciam e que mal se compreendem e da dança dos sentidos com que somos brindados.
Em suma, uma sucessão de momentos maravilhosos!

sexta-feira, junho 13, 2008

Porque sim...


Quando passo muito tempo sem escrever, sinto um bichinho irrequieto dentro de mim que quer obrigar as palavras a saltar cá para fora. Pode não haver qualquer leitmotiv (por vezes, o cansaço imposto pelo quotidiano é tão cruel que faz esgotar as motivações para a escrita), mas a vontade anda por aqui, impaciente, incontida, inabalável. Quantas vezes nos submetemos às imposições do dia-a-dia e logo nos esquecemos do que realmente nos move e preenche por completo. Porque o quotidiano é, por vezes, desesperadamente cinzento, a escrita e a dança frenética das palavras dão sentido e vida à própria vida. Como diria Lobo Antunes, "a escrita é uma forma de combater o absurdo". Concordo na medida da minha insignificância, mas nem por isso posso dizer que sou imune a esse vício tão saudável de escrever (ou de "escrevinhar"!). Porque sim...
Follow my blog with Bloglovin