segunda-feira, julho 28, 2008

Divinos remédios


Sorvi o último romance de Mia Couto - Venenos de Deus, Remédios do Diabo - de um só trago e fiquei sequiosa da imensa poesia que habita a escrita deste autor.
Sidónio Rosa, médico português, apaixonara-se pela bela Deolinda que conhecera num congresso em Lisboa e que, entretanto, se esfumara por entre as memórias de um amor fugaz mas ao mesmo tempo perene.
Decide então viajar até Vila Cacimba na demanda de Deolinda e enquanto espera pelo seu regresso dá assistência ao pai de Deolinda, o moribundo e hilariante Bartolomeu Sozinho, marido da eloquente Dona Munda que tinha sempre uma resposta poética na ponta da língua e que sabia decifrar com perspicácia os insondáveis mistérios da existência e dos afectos.
Todavia, em Vila Cacimba tudo é etéreo e indefinido como a neblina que separa esta vila do mundo e da realidade palpável. É uma espécie de Macondo, palco dos acontecimentos mais inverosímeis, pincelados ao sabor de um realismo mágico que atravessa todas as latitudes. Ali as flores depositadas nas jarras transformam-se em mãos humanas e as flores do esquecimento abatem-se pela vila, numa ameaça de desaparecimento iminente, riscando para todo o sempre as estórias que aí se desenham e se entrecruzam.
Percorremos sofregamente as páginas na demanda de Deolinda, de respostas, mas surgem sempre mais dúvidas e cedo se percebe que a verdade se faz de ardilosas mentiras, numa teia interminável. Nada é o que parece. Poderá a realidade não passar de um sonho fugaz? Terá tido essa viagem de Sidónio um ponto de partida?...

Não poderia deixar de registar aqui umas das passagens mais belas do livro, em que se define a essência do Amor:

Nessa noite se solveram, mãos de oleiro, salvando o outro de ter peso. Nessa noite, o corpo de um foi o lençol do outro. E ambos foram pássaros porque o tempo deles foi antes de haver terra. E quando ela gritou de prazer, o mundo ficou cego: um moinho de braços se desfez ao vento. E mais nenhum destino havia.


Mestre da reinvenção da língua (em minha opinião autor intraduzível, porque a beleza da língua que ele criou só faz sentido com o Português como pano de fundo), Mia Couto joga com as palavras e redescobre a pureza e o mistério original das palavras. Utilizando um adjectivo por si criado, é uma escrita “abensonhada”...

sexta-feira, julho 25, 2008

"Ich bin Berliner"

Berlim é um ponto crucial no contexto da geoestratégia mundial. Todos os analistas políticos o sabem e Barak Obama não podia deixar de imprimir a sua marca inconfundível nesta metrópole tão decisiva no plano europeu, tão carregada de História e de memórias. O discurso de Barak Obama é notável e denota uma aproximação à Europa, dominada pelo papel determinante do gigante alemão. O périplo internacional de Obama é, por si só, um sinal de abertura e de esperança, num mundo dominado pela ameaça global do terrorismo e de fundamentalismos extremados. Ele é, sem sombra de dúvida, "um cidadão do mundo", como ele próprio se define no início deste discurso, e é de líderes dessa envergadura política e intelectual de que estamos profundamente sedentos.

segunda-feira, julho 21, 2008

É branco!


É branco e é simplesmente irresistível! Sinto-me uma autêntica criança inebriada pela magia e a estranheza de um brinquedo novo!

sábado, julho 19, 2008

Infosaudosismo


O meu portátil ACER, volvidos 5 anos, finou-se. Subitamente, o ecrã assumiu uma tonalidade branca e não era uma mensagem celestial de qualquer espécie, era, muito provavelmente, o prenúncio da finitude ou a imagem do fim em si.
A matéria é finita, por natureza, mas teimamos em acreditar na eternidade de todas as coisas. Este portátil acompanhou-me em inúmeras viagens de comboio, rumo a Lisboa, rumo a Viseu, e nele escrevia, meditava, ouvia música, via filmes (inevitavelmente comédias) que me ajudavam a combater a lenta passagem do tempo, trabalhava horas infindáveis, até quase não conseguir distinguir a nitidez dos caracteres, nem tão pouco das ideias...
Não deixa de ser absolutamente patético sentir saudades de matéria moribunda, mas, enfim, somos animais de hábitos e quando o inesperado, de facto, acontece, é todo um universo que se desmorona.
Já nenhum portátil vai ter aquela carga de memórias, nem que o próximo venha vestido de cor-de-rosa;)...
P.S. Era o modelo ACER Travelmate e este portátil era, sem dúvida, o melhor dos companheiros de viagem e hoje a viagem dele chegou ao fim. Ironias...
Ainda acredito, porém, que ele vai ressuscitar!...

quinta-feira, julho 17, 2008

Wake up alone

It's okay in the day I'm staying busy
Tied up enough so I don't have to wonder where is he
Got so sick of crying
So just lately
When I catch myself I do a 180

I stay up clean the house
At least I'm not drinking
Run around just so I don't have to think about thinking
That silent sense of content
That everyone gets
Just disappears soon as the sun sets

This face in my dreams seizes my guts
He floods me with dread
Soaked in soul
He swims in my eyes by the bed
Pour myself over him
Moon spilling in
And I wake up alone

If I was my heart I'd rather be restless
The second I stop the sleep catches up and I'm breathless
This ache in my chest
As my day is done now
The dark covers me and I cannot run now
My blood running cold I stand before him
It's all I can do to assure him
When he comes to me I drip for him tonight
Drowning in me we bathe under blue light

His face in my dreams seizes my guts
He floods me with dread
Soaked in soul
He swims in my eyes by the bed
Pour myself over him
Moon spilling in

And I wake up alone
And I wake up alone
And I wake up alone
And I wake up alone

Amy Winehouse

quarta-feira, julho 16, 2008

A sul


Fico completamente a leste se pensar no sul... Há um je ne sais quoi no sul, não sei se advém daquela luz única e envolvente que nos afaga e nos acolhe no seu ventre terno ou do azul das águas, quentes e calmas, que se movem languidamente, como se não houvesse amanhã sequer...A parte mais entusiasmante das férias é a preparação, o frenesim da noite da véspera, aquela doce insónia da expectativa. E passear pela imensidão do areal e sentir as areias finas e trémulas a fundirem-se na nossa pele ávida de sol. Risco os dias como um prisioneiro de Alcatraz, num countdown frenético e alucinado, na esperança de que um dia engula o outro e logo o outro, para que chegue o momento tão aguardado e...rumar a sul...

"Drowning in me, we bathe under blue light."
Wake up alone, Amy Winehouse

(Não é de admirar que as letras de AW sejam estudadas em Oxford. São habitadas por uma poesia única que nos comove e nos persegue ao longo do dia...Já não se faz música assim! Hoje em dia, os tempos são demasiado acelerados para as pessoas se deterem na beleza das palavras.)

segunda-feira, julho 07, 2008

Spread the word


Mais um grande passo no sentido da afirmação e consolidação da Língua Gestual. Na semana passada, foi apresentado o interessante projecto "Spread the Sign" na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação do Porto, e que resultou do envolvimento de seis equipas europeias com vista à elaboração de um dicionário multilingue de Língua Gestual, que reúne mais de 2.000 palavras, afirmando-se como um instrumento de trabalho poderosíssimo para todos aqueles que se movem no universo da Língua Gestual.
A pouco e pouco, vai-se reforçando a crença de que os muros com que as pessoas com deficiências auditivas se defrontam no dia-a-dia terão se esbater forçosamente e que a comunicação irá ganhando contornos mais definidos e eficazes.
Esta é, sem dúvida, uma excelente notícia que merece o nosso vivo aplauso!

Aurea Mediocritas


Há qualquer coisa de mágico no entardecer de Verão, nesse manto que se abate, lânguido e lento, sobre nós e que nos devolve uma sensação de alegria primordial, de uma doce inocência e, sobretudo, de quase imortalidade.
O olhar vai perseguindo o cair do sol que lentamente sai de cena, pé ante pé, e ao mesmo tempo que assistimos a esse verdadeiro milagre, sentimos o cheiro típico do Verão que, por vezes, nos arrebata e nos transporta a tempos longínquos, em que ficávamos a brincar na rua até tarde e em que acreditávamos ser brindados pelo sopro da eternidade.
Hoje vêem-se cada vez menos crianças nas ruas. É esta geração playstation que jamais sentirá os cheiros e os sabores estivais e que permanece enclausurada numa muralha virtual, em mundos assépticos e paralelos.
O eminente poeta grego Horácio, numa das suas odes, evocou a "aurea mediocritas", que consiste na capacidade de nos comprazermos nas pequenas coisas do dia-a-dia e de nos deixarmos invadir pela poesia e não pela ganância desmesurada ou pelo apego aos bens materiais.
Não seria muito diferente do humor de Seinfeld que se baseava, precisamente, naqueles episódios risíveis e universais do quotidiano, fazendo deles a sua matéria-prima cómica. O humor é uma das principais fontes de felicidade, senão mesmo a maior...
São estes fugazes instantes quotidianos que preenchem a noção de felicidade. Não são as casas, nem os carros topos de gama, nem os telemóveis de última geração que só lhes falta aspirar a sala empoeirada.
É esta etérea contemplação de um entardecer de Verão, cuja poesia se derrama sobre a nossa pele e que, pasme-se!, é grátis!
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