sexta-feira, agosto 22, 2008

viagem ao tempo


a música ecoava ao longe, num ponto remoto demais para sequer ser credível a sua existência. sons aparentemente indefinidos que, aos poucos, ganhavam consistência como um raciocínio que se vai entretecendo de permissas lógicas e irrefutáveis. era o tirano despertador que a transportava abruptamente para a realidade e lá fora as tílias balançavam ao sabor do vento suave de uma primavera que se insinuava em pequenos sinais.
era tempo de saltar da cama, num movimento que se queria audaz e atlético. as aulas começavam daí a pouco e a correria até ao liceu parecia já inevitável. bebericava-se um leite com chocolate e, munida de um pão com queijo preparado em frenesim, lá se atirava pela avenida e desatava a correr, como um atleta que luta pelo primeiro lugar no pódio. por entre acenos casuais e sorrisos fugazes, encaminhava-se para a porta da sala de aula, onde as amigas a aguardavam para darem início a conversas intermináveis e gargalhadas insanas.
dentro dela vive ainda essa miúda que luta por fazer-se ouvir e que teima em ser mais do que uma mera recordação na pré-história da memória. fontes (muito suspeitas, porque demasiado próximas e com a visão turva pelo afecto) asseguravam-na de que ela continuava a ser essa miúda e que o tempo não deixara qualquer marca, como se ela permanecesse incólume a toda e qualquer modificação.
ela retribuía com um sorriso meigo, mas aquele suspiro involuntário denunciara uma certa nostalgia latente, um desconforto indisfarçável.
tinha de se ir deitar, sentia-se extenuada com tanto trabalho, demasiado consumida pelas infindáveis tarefas que tinha de desempenhar exemplarmente, com toda a maturidade e perfeccionismo que se exige.
sonhava que no dia seguinte voltaria a ser essa miúda que, de mochila às costas, e um sorriso rasgado, enfrentava o tempo que prometia ser meigo com ela...

(... e ainda há quem diga que "a crise dos 30" não passa de uma miragem?...)
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