quarta-feira, setembro 24, 2008

Um exército de desiludidos


Contrariamente ao que muitos "iluminados" proclamam, a base do progresso de uma nação reside na formação e na qualificação dos seus profissionais. Daí que o número elevado de licenciados que todos os anos saem das universidades portuguesas não possa ser perspectivado como uma fatalidade, mas como uma inequívoca mais-valia.
O que é realmente trágico nesta questão é o facto de a esmagadora maioria desses mesmos licenciados não poder vir a exercer sequer a profissão que esteja consonante com a sua formação, acabando por ingressar na fileira de trabalhos precários, temporários e francamente desmotivadores e pouco estimulantes para o intelecto.
Obviamente, nestas matérias é fácil cair em generalizações e tomar por uniforme uma questão que tem muitas, e por vezes, insondáveis nuances.
Não podemos partir do pressuposto de que todos os estabelecimentos de ensino universitário estão ao mesmo nível, em termos de qualidade de ensino e de formação, daí que a frequência da universidade x possa marcar a diferença, em termos de perspectivas de futuro e de materialização de projectos, em relação à universidade y.
Porém, parece-me que há certos denominadores comuns: por um lado, a dificuldade que as universidades manifestam de implementarem uma complementariedade entre teoria e prática e, por outro lado, a desconfiança com que (ainda) se olha para o ensino de cariz profissional e de vertente mais especializada, que também é absolutamente imprescindível em qualquer sociedade avançada.
Num mundo perfeito, todos nós estaríamos completamente realizados e, sobretudo, completamente estimulados do ponto de vista intelectual.
Olho à minha volta e só vejo desilusão, um amplo e crescente exército de desiludidos que tem de suportar as profissões mais medíocres e lidar com pessoas ainda mais medíocres e vazias, em prol de uma sobrevivência necessária. Uma geração suspensa que adia permanentemente os seus planos e projectos.
Olho à minha volta e só vejo os mais incapazes a serem favorecidos por saberem jogar como ninguém o jogo das cunhas em que só a menoridade é premiada.
Num mundo perfeito, não nos questionaríamos permanentemente: e agora o que faço de Marx, de Freud e de Kafka que tanto gozo me deram?...

8 comentários:

Anónimo disse...

pois, exactamente... o que faço eu com eles?! o que faço eu com todo o conhecimento adquirido? nada, absolutamente nada. não precisamos dele quando o unico trabalho que nos dão é a dobrar roupa! e isso mesmo assim ainda precisa de cunha, porque já não é qualquer um que vai dobrar roupa! Parabéns. adoro os teus textos. Beijinho grande.
Patricia seixo-mira

Anónimo disse...

Para este exército de desiludidos só uma arma é possível: a força interior. O grande problema (uma frustração legítima) é que uma grande parte dos "soldados" assenta a sua identidade na profissão que tem. Porque o que fazemos molda o que somos.

raquel disse...

Para este exército de desiludidos só uma arma é possível: a força interior. O grande problema (uma frustração legítima) é que uma grande parte dos "soldados" assenta a sua identidade na profissão que tem. Porque o que fazemos molda o que somos.

Jaymz disse...

As suas palavras são um rigoroso espelho da realidade. Eu passei/passo por aquilo que tão bem descreve, e é sem dúvida alguma uma situação triste e angustiante.
Durante 5 anos lutou-se para atingir o tão almejado objectivo, e no fim, depois de tanta ilusão criada, vai-se caindo lentamente numa realidade fria e crua.
Todos aqueles projectos idealizados vão-se esfumando, e vai-se vivendo o dia-a-dia na esperança de que finalmente se encontre aquilo que tão desesperadamente se procura.
Mas quanto às cunhas que falou, dou-lhe um pequeníssimo exemplo de uma situação que eu vivenciei. À cerca de um ano atrás o Hospital de Viseu abriu concurso para admissão de 1 Administrativo, a pessoa que entrou era filha de um dos elementos do júri que estava a seleccionar. Para mim, de concursos públicos já chega, e de estágios PEPAL (estágios profissionais para autarquias) nem me falem.

Ana M Abrantes disse...

Ana, essas leituras fizeram de si o que é hoje. Já ninguém faz nada delas que marque uma diferença no mundo (o que no caso de Freud até é uma bênção!)Quanto ao resto, acrescento aos cinco anos outros tanto e meio mestrado e doutoramento, e estou hoje em maior insegurança do que no 1º emprego. Arrependida? Nunca!
Agora que ao fim de 5 anos a nossa vida esteja determinada, é algo que me recuso a aceitar! E nos dias de hoje já não há amanhãs certinhos! Quem vai começar hoje a estudar tem de procurar saber o que o mercado vai precisar em 5 anos e ajustar essa informação a preferências pessoais. Mas mais do que isso, o grande desafio de hoje é uma coisa que os americanos já aprenderam há muito: a mudança faz parte da vida. À velocidade do progresso, estaremos sempre a formar-nos para exercer profissões que não existem ainda. A chave está em mudar ideias e expandir os horizontes - de saber como geográficos - para fazer crescer oportunidades.
A desilusão não erradica as nossas invirtudes de cunhismo e afins. A solução não está em desejar que tudo fosse ideal; é antes abandoná-lo e começar a viver!
Beijinhos!

Mário disse...

Foi o nome pechisbeque que me trouxe até aqui e que embriaguez eu apanhei! Era suposto ter começado a trabalhar às nove, mas acho que me perdi nas tuas palavras. Perdi-me da realidade, mas encontrei-me no espirito.
As duas coisas são tão diferentes, mas penso que sim...podem-se alimentar uma à outra. A realidade não é o emprego, é muito mais que isso, não é... A realidade também é a forma como vais cuidar de um filho, a aducação que lhe vais dar... Isso é que é vida!
Compreendo perfeitamente essa frustração, mas está errado pensar que o Marx, Kafka e outros, não serviram nem servirão para nada. :)
Olha, és linda ;) e eu tinha de te dizer isso. Devem ser influências Wertherianas :)
Sou do Porto e hoje acordamos com o céu completamente fechado por nuvens carregadas de chuva. É um tempo que apela à melancolia mas também é um tempo que me deixa mais susceptível a qualquer forma de beleza.
Bjs.

Ana Cota disse...

Obrigada pelo seu amável comentário!
Não quero, contudo, que fique a ideia de que todas essas leituras foram em vão. De todo! Foram precisamente essas leituras, tão abrangentes e heterogéneas, que definiram a minha essência e que continuam a dar-lhe forma e corpo.
Tenho pena, porém, de, mercê do ritmo avassalador e frenético do dia-a-dia, já não ter fôlego para me concentrar, com toda a profundidade desejada, nessas leituras que evocam, a todo o instante, o que sou e que acabaram por alicerçar a minha própria identidade!

Um abraço,
ana cota

P.S. Ontem à noite, por exemplo, comecei a ler um livro que a priori me parece extremamente interessante: Free World - A América, a Europa e o Futuro do Ocidente e, fatalmente, acabei por cair nas asas de Morfeu...:(

sá morais disse...

Este blog ganhou um link no meu IdeiasFixas2.

Tudo de bom!

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