domingo, março 30, 2008

A cor da esperança


Nunca como agora se discutiu tanto a questão racial nos Estados Unidos. A candidatura de Barak Obama está na génese do relançamento de um tema que continua a ser tabú, dando, por outro lado, um impulso muito positivo ao aprofundar das relações inter-raciais. Não se trata de uma simples candidatura, mas de um sinal de esperança a toda uma comunidade ou quiçá a outras comunidades ostracizadas e discriminadas, mostrando que é possível torná-la mais visível e tomando nas suas mãos o destino de uma nação.
Importa colocar a questão (em jeito de Carmen Miranda): "O que é que Obama tem?". E, de facto, há toda uma aura de carisma em torno de Obama que lhe granjeia toda a corrente de apoio, admiração e quase veneração, a par das suas qualidades intelectuais. Obama é herdeiro e porta-voz da comunidade negra que sofreu imensamente ao longo da história dos EUA e que, pela primeira vez, vislumbra a possibilidade de um dos seus poder ascender a presidente, o que constitui um feito notável!
Parece muito redutor reduzir as eleições presidenciais norte-americanas à questão da pigmentação da pele. Não nos podemos esquecer ainda que do outro lado (ainda que ideologicamente do mesmo lado da barricada), temos uma mulher a correr à presidência, o que levanta a questão do género e da importância da do determinante papel da mulher. No entanto, e não querendo entrar numa perigosa lógica de endeusamento de um político (como sucedeu, por exemplo, com a esperança tremenda que se colocou em Lula da Silva), acredito que a candidatura de Barak Obama se faz da cor da esperança!E espero mesmo que ele seja o próximo presidente dos EUA!

Conversa de cabeleireiro (ou uma mui duvidosa incursão pela ficção)


Toda a sua vida girara em torno de frascos de acetona, de verniz de cores múltiplas, de limas já desgastadas pelo tempo e pelo desencanto, de tesourinhas minúsculas e de toda a parafernália de instrumentos que transformam umas mãos rudes em mãos encantadoras, dignas da mais ilustre princesa.
(Nem mesmo ela percebia como se operavam esses milagres....)
Agora já não havia escapatória possível. Cansara-se daquelas conversas fúteis do salão, dos mexericos de sábado de manhã, das senhoras já quase autênticos dinoussauros que insistiam em pintar o cabelo de cores ridículas de fazer corar o próprio Picasso, do facto de não esperarem nada mais dela que não as tiradas corriqueiras:
"Vai arranjar a mão ou só pintar?"
"Vai ser manicure francesa?"
"Também vai arranjar o pézinho?"
Se ela abrisse a boca para discutir a crise petrolífera mundial ou a questão israelo-palestiniana (os temas que mais lhe interessavam...pensava até estudar Relações Internacionais um dia), o desfecho mais provável seria duvidarem da sua sanidade mental, abrirem a boca de estupefacção e, passado o choque inicial, continuarem a falar da prole das monarquias europeias e da condição muito duvidosa das plebeias.
Ainda lançou um último olhar sobre todo o kitsch em que se transformara a sua vida e deitou ao lixo todos os vestígios desse destino que queria por força esquecer, passando quiçá uma espécie de acetona milagrosa que eliminasse qualquer vínculo ao passado.
Iria partir - ainda sem rumo definido - mas com a convicção de que poderia ser muito mais do que um rótulo que insistiram em colocar-lhe.
Enquanto descia a rua não pôde deixar de sentir aquele calafrio da expectativa perante o desconhecido e, esquecendo-se de tudo o que aprendera até então, começou a roer as unhas.
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