terça-feira, abril 22, 2008

Dia Mundial do Livro


Li uma vez numa das geniais crónicas de Miguel Esteves Cardoso que uma das maiores vantagens da leitura era a possibilidade de poder mandar os outros à fava e de nos podermos enclausurar num mundo só nosso. Admito que seja uma posição algo extremista e não menos hilariante, mas também não posso de reconhecer um fundo de verdade nessas palavras, perpassadas por uma fina ironia.
Através do livro, esse instrumento mágico dotado de verdadeiros poderes sobrenaturais, passamos a habitar múltiplos cenários, a viver inúmeras vidas, egoisticamente desfasados da nossa realidade. Há livros que nos marcam para a vida. Ainda hoje me sinto a calcorrear as ruas da Praga de Kundera ou a percorrer as ruas de Salvador da Bahia magnificamente retratadas por Jorge Amado, um escritor que me leva sempre às lágrimas. E se fechar bem os olhos, sinto o vento a bater-me no rosto e acompanho a viagem de Fermina Daza e de Florentino Ariza no barco a vapor do Amor nos Tempos de Cólera que languidamente segue o seu rumo ao sabor das águas cálidas e tranquilas de lá para cá, de lá para cá até à eternidade...
Não acredito no fim do livro, como muitos vaticinam. Por mais tecnologias que coloquem ao nosso alcance, nada se compara ao cheiro do papel, à envolvência das páginas, ao contacto íntimo que criamos com o livro e que nos propicia momentos de evasão voluntária, em que literalmente mandamos o mundo...à fava!
E amanhã é Dia Mundial do Livro!
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