domingo, abril 27, 2008

Nem só as rosas têm espinhos

Mais um ano se assinalou sobre o 25 de Abril e sobre a instauração da liberdade e do regime democrático em Portugal, após a eternidade de ditadura e de opressão.
Já muita tinta correu sobre o 25 de Abril, mas não poderia deixar de tecer algumas considerações a este respeito.
A cada ano que passa se reforça a crença do afastamento dos cidadãos em relação à política, demitindo-se permanentemente dos seus deveres de cidadania. Como não poderia deixar de ser, o Presidente da República, no seu discurso deste ano aludiu, em concreto, à flagrante ignorância dos jovens nesta matéria. O estudo da Universidade Católica, encomendado pelo PR, poderá ser consultado neste link.
O 25 de Abril converteu-se assim em mais um feriado cujo significado passa despercebido aos jovens (e não só), uma espécie de longínquo 01 de Dezembro de 1640, que também ninguém conhece.
No entanto, a grande quota parte da culpa tem de se imputar à classe política e, sobretudo, aos partidos que desde 1974 governaram o país. Há um divórcio claro entre governantes e governados, sendo que estes últimos já desacreditaram a possibilidade de algum dia Portugal vir a ser liderado por classes políticas capazes, idóneas, com espírito de missão e, acima de tudo, com horizontes abrangentes e com audácia, que operem as reformas necessárias e estruturais de que o país tanto necessita. E não por uma sucessão de políticos que colocam, sistematicamente, os interesses pessoais à frente dos interesses de Estado.
Nos domínios vitais, ou seja, Saúde, Educação, Economia, Finanças, Segurança-Social, o país está completamente dilacerado e não se perspectivam cenários de mudança profunda, nem tão pouco se vislumbram dirigentes de grande estirpe moral e intelectual que façam essa mesma mudança de fundo. Aqui, tal como nos EUA, o mote deveria ser mesmo "to change", como se pode ler na campanha de Barak Obama.
Outro ponto muito preocupante prende-se com o facto de o exercício da democracia se ter resumido ao ritual do voto. Não nos pedem o nosso parecer sobre o Tratado de Lisboa, com medo de que a "populaça" acabasse por chumbá-lo. Este fenómeno, infelizmente, é extensível aos restantes países europeus que optaram por ratificar um Tratado à margem dos próprios cidadãos que os elegeram. É um exemplo tristemente eloquente que diz muito da alegada democracia em que vivemos.
Terá sido por esta noção de liberdade e por esta democracia por que tantas e tantas pessoas se bateram, sujeitando-se às maiores torturas físicas e psicológicas e chegando mesmo a pagar para tal com a vida?
A educação para a liberdade e para a democracia deveria começar na escola. No meu tempo de liceu, nem o Estado Novo, nem o 25 de Abril eram leccionados, com a clássica desculpa de que essa matéria "já não calhava no exame final". Se os formadores insistissem mais neste ponto, talvez o tom do discurso mudasse e nos pudéssemos congratular com os frutos dessa revolução pacífica que destronou a opressão e deu voz a todos, sem excepção.
34 anos volvidos sobre o 25 de Abril e já ninguém se lembra?!Um país sem memória não terá certamente um futuro risonho pela frente...
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