Apesar da dilacerante constatação de que uma vida só não seria suficiente para ler todos os livros que habitam as minhas estantes, gosto de senti-los bem perto, de afagá-los, de adivinhar-lhes os cheiros e as histórias múltiplas. Porque cada um deles tem um enredo próprio, não apenas o que foi criado pelo autor, mas aquele que eu mesma delineei.
Este livro foi comprado numa feira do livro, ou numa livraria emblemática, ou num alfarrabista e, ao reconstruir a história que cada um deles me revela, sou enleada na minha própria teia de memórias, num ritual mágico que insisto em perpetuar.
Eles vão-se apoderando dos espaços vazios e a ordem inicial dá lugar a um caos inevitável: pilhas de livros que se erguem e desafiam os céus ou a lei da gravidade, numa visão de pura beleza...
"Encher de vãs palavras muitas páginas e de mais confusão as prateleiras
Tropeçavas nos astros desastrada,
Mas para mim foste a estrela entre as estrelas"
"Livros", Caetano Veloso
