sexta-feira, outubro 22, 2010

It took forever to find you and now that I've found you I can't find myself.

terça-feira, outubro 19, 2010

Poderemos falar sem nada dizer? Poderemos obter as respostas nos maiores silêncios? Poderão as palavras ser completamente desnecessárias e vazias? Poderá o chão abrir-se de um instante para o outro e o mundo desabar num sopro? Poderão os passos encaminhar-nos num sentido para logo nos desviarem numa direcção que queremos muito e que não queremos com a mesma força alucinada? Poderemos sempre renascer a cada sorriso que irrompe como um raio de sol que nos acaricia a pele?

segunda-feira, outubro 11, 2010

nesse abraço


Nesse abraço cabe o mundo inteiro: o mundo dos sonhos que se entreteceram de esperança e desilusão, o mundo das memórias que se partilharam na doce loucura de que seria eterno, o mundo das ilusões que se fizeram de castelos altaneiros e que logo se converteram em pó. Há um momento, um breve, porém intenso, momento em que alguém faz "pause" e o tempo fica suspenso, etéreo, e toda a realidade parece acontecer somente ali e os olhos, incrédulos, fitam a impossibilidade de um passado que não se cumpriu, de promessas que não se concretizaram.

Nesse abraço cabe o mundo inteiro. E nessa redoma improvável cabe o passado e o presente, mas já sem lugar para o futuro. Esse abraço é a negação absoluta do futuro. Mais não será do que o selar de um pacto de afecto que se firmou ontem e que se confirmou hoje, num doce círculo que já nada anuncia, apenas revela. Não há amanhãs que cantam. Os amanhãs emudeceram, os trilhos que se calcorreiam serão sempre os mesmos. Não foi um abraço que fez mudar o destino. Os olhos fitam o passado e desvenda-se a magia inebriante de outrora. Os mesmos tiques, os mesmos gestos, tudo se mantém como sempre fora. E tantos caminhos de terra batida, pejados de rochas e de espinhos, se percorreram nesse tempo que pareceu ter durado não mais do que um suspiro.

Nesse abraço cabe o mundo inteiro. Soltam-se as mãos e as ilusões. Ficam as sombras de uma luz outrora radiante. Fica a certeza de um abraço onde cabe o mundo inteiro.

domingo, outubro 03, 2010

(um) ponto de luz

As palavras pareciam já ter secado e por elas não passava qualquer torrente ou réstia de vida. Tudo parecia já devidamente etiquetado e resolvido, condenado a uma solidão de séculos. A vida vai moldando coisas e pessoas e assim se ouve até à exaustão: "o mesmo rio não passa duas vezes pelo mesmo sítio." Por mais que se tente resgatar a essência ou a pureza dos sentimentos de outrora, o frenético fluir do tempo encarrega-se de destruir essas mesmas ilusões e tudo se torna levemente turvo, embaciado pelas certezas passadas que cedo se desmoronaram. De repente, os ecos de uma magia que se acreditava já extinta emergem com uma força alucinada e devoradora. Um certo medo de balbuciar palavras improváveis, sorrisos trémulos de surpresa. "Um ponto de luz que me seduz, aceso na alma."

domingo, setembro 26, 2010

Hino à (doce) nostalgia


A rubrica "Caderneta de Cromos" da autoria de Nuno Markl que passa de segunda a sexta, às 08:45 e 09:45, na Rádio Comercial, além de ser uma ideia absolutamente iluminada, é responsável pelo bom humor diário de milhares de Portugueses que, de manhã a caminho do trabalho, nos seus carros ou a pé com os seus auscultadores, se podem deliciar com descrições deliciosas e hilariantes de tantos e tantos cromos que completam as cadernetas de memórias de todos aqueles que viveram a infância/adolescência nos saudosos anos 80/90.

Os "cromos" passaram do domínio do éter para livro, o qual reúne 100 cromos memoráveis desta rubrica que nos transporta directamente para tempos dourados em que podíamos ser livres, construir laços indestrutíveis, viver experiências marcantes, tão longe dos incontáveis fantasmas que nos assolam na idade adulta, como se não houvesse sequer amanhã e cada dia fosse (mais) uma aventura entusiasmante. Estas crónicas são descrições minuciosas, muito cómicas e, sobretudo, têm o condão de deter um pendor quase "universal", porque, independentemente do lugar onde tenhamos vivido estes anos dourados, as experiências são tão deliciosamente idênticas que chega a ser comovente!...

Há episódios, memórias, momentos e experiências que, pura e simplesmente, já não voltam a acontecer. Ontem lembrei-me do barulho das máquinas fotográficas antigas a rebobinar o rolo (bem sei que há pessoas que ainda se munem destas máquinas, mas na voracidade dos tempos actuais, as máquinas digitais acabam por ser a solução mais recorrente) ou da imagem do leiteiro que trazia o leite a casa naqueles pacotes que tinham quase vida própria e se escapavam dos dedos. Ou a imagem da fita das cassetes presa na aparelhagem, num autêntico novelo desesperante. Ou o prazer que era comer um Calipo quando os pais nos suplicavam para comer gelados à base de leite!...

Há nesta geração dos "trintões" e "quarentões" uma doce nostalgia que percorre a memória comum, uma memória aveludada feita de algodão doce e de todas aquelas coisas boas que comíamos, à revelia dos adultos, e que se hoje ainda existem, simplesmente já não têm o mesmo sabor! E esse saudosismo saudável estende-se a tudo, sobretudo à música e àqueles "hits" que ainda nos fazem as pernas bambas só de relembrar os seus acordes e letras marcantes (alguns até nos fazem corar de vergonha!).

Estou a ler este livro com sofreguidão, enquanto colo os inevitáveis "cromos" com a também eterna Cola Cisne. Tenho pena desta geração que tem como ícone a Lady Gaga que enverga repulsivos vestidos de carne, sem se perceber sequer a mensagem que, supostamente, pretendia veicular. Continuo a preferir o Boy George!

sábado, setembro 11, 2010

O Portugal de Miguel Esteves Cardoso



Uma análise muito irónica, cómica e inteligente da complexa (e não menos risível) identidade portuguesa, com tudo o que tem de nobre e de inconfessável!

domingo, maio 23, 2010

Eu fui!:)





Órfãos


Em tempos profundamente conturbados, em que a luz ao fundo do túnel insiste em não despontar, é difícil ser-se optimista e acreditar que iremos vencer (mais) uma crise.
Como se de um jogo de dominó se tratasse, tudo começou na Grécia e a partir daí, as peças continuarão a cair sucessivamente, implacáveis e impiedosas, rumo a um fim incerto. Nesse sentido, é, no mínimo, revoltante assistir ao triste espectáculo das nações poderosas da Europa a tratar a Grécia como lixo, nação que foi berço da civilização ocidental, detentora de um passado dourado e inspirador e de uma riqueza histórica avassaladora.
Hoje em dia, não destoando, de resto, da forma como o Norte da Europa vê o Sul da Europa, como um mero destino de férias solarengo, súmula de países absolutamente desgovernados e ingovernáveis, nações como Portugal, Espanha, Grécia e Itália, que nada de bom auspiciam para o futuro de um projecto europeu liderado por alemães e franceses, completamente avessos e indiferentes à memória histórica colectiva.
É mesmo da "luta da memória contra o esquecimento", como dizia Kundera, que se trata e, sobretudo, do respeito que merecem todas as nações que serviram de modelo a tantas outras civilizações e que se destacaram nos mais diversos planos do conhecimento, da cultura e do saber e que ajudaram a moldar a "identidade europeia". No entanto, a crise grega veio provar que o tão aclamado "projecto europeu" não passa de um tremendo gigante com pés de barro, assente unica e exclusivamente na economia, fazendo tábua rasa do legado histórico que deveria unir as nações e contribuir para o fortalecimento de uma identidade colectiva.
Mais uma vez, a velha máxima "it's the economy, stupid" dita as regras de um jogo, no mínimo, obscuro e de desenlace sempre imprevisível. O capitalismo selvagem que governa o mundo, com os seus inúmeros telhados de vidro, fez com as nações, as existências individuais se tornassem completamente permeáveis às forças dos mercados, agudizando as clivagens entre ricos e pobres, entre detentores do poder e marginalizados.
O futuro assume contornos indefinidos e, à mistura, um sentimento de orfandade perante sucessivos governos que só desgovernam, que adiam reformas cruciais e que deixam para amanhã o que poderiam fazer ainda hoje.
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