quarta-feira, novembro 30, 2011

"A pele que há em mim" Márcia com JP Simões



Quando o dia entardeceu
E o teu corpo tocou
Num recanto do meu
Uma dança acordou
E o sol apareceu
De gigante ficou
Num instante apagou
O sereno do céu

E a calma a aguardar lugar em mim
O desejo a contar segundo o fim.
Foi num ar que te deu
E o teu canto mudou
E o teu corpo do meu
Uma trança arrancou
O sangue arrefeceu
E o meu pé aterrou
Minha voz sussurrou
O meu sonho morreu

Dá-me o mar, o meu rio, minha calçada.
Dá-me o quarto vazio da minha casa
Vou deixar-te no fio da tua fala.
Sobre a pele que há em mim
Tu não sabes nada.

Quando o amor se acabou
E o meu corpo esqueceu o caminho onde andou
Nos recantos do teu
E o luar se apagou
E a noite emudeceu
O frio fundo do céu
Foi descendo e ficou

Mas a mágoa não mora mais em mim
Já passou, desgastei, p’ra lá do fim
É preciso partir
É o preço do amor
P’ra voltar a viver
Já nem sinto o sabor
A suor e pavor
Do teu colo a ferver
Do teu sangue de flor
Já não quero saber…

Dá-me o mar, o meu rio, a minha estrada,
O meu barco vazio na madrugada
Vou-te deixar-te no frio da tua fala
Na vertigem da voz quando enfim se cala.

domingo, novembro 27, 2011

TEDx Viseu - City R-Evolution



Viseu acolheu pela 1ª vez o evento TEDx, o qual decorreu nos magníficos claustros da Pousada de Viseu, outrora Hospital S. Teotónio, a 26 de Novembro, das 09:00 às 18:30.
Os eventos TED - Ideas Worth Spreading nasceram nos Estados Unidos e o seu formato - apresentações de 20 minutos, muito concisas e directas ao cerne da questão abordada e, por norma, muito apelativas - foi rapidamente importado para outros países.
Foi a primeira vez que a cidade de Viseu acolheu este evento, pelo que se tratou de uma oportunidade única para assistir a intervenções interessantíssimas e à partilha de ideias que, tal como a designação original das TED Talks indica, merecem ser divulgadas.
O tema basilar do TEDx Viseu era "City R-Evolution" e cada um dos diversos oradores versou este mesmo tema sob o seu próprio ângulo de análise. O leque de intervenções era muito diversificado, cobrindo as mais variadas áreas do saber e do conhecimento: desde a cultura à informática, da psicologia à economia, da ficção humorística ao empreendedorismo, do teatro ao planeamento territorial, da gastronomia à informação.
Foi um autêntico prazer poder assistir a este verdadeiro manancial de ideias fervilhantes na minha cidade que, de facto, cresceu imenso nas duas últimas décadas, mas que apresenta ainda um profundo atavismo cultural e intelectual. Falta massa crítica nesta cidade, pessoas interessantes e interessadas que gerem discussões, que convoquem a inteligência e o espírito crítico. O progresso de um país não se pode medir unica e exclusivamente pelos tapetes de alcatrão que cobrem o país de norte a sul, mas pelo incremento intelectual, cultural e civilizacional do povo.
Ora, ter a possibilidade verdadeiramente única de ver, ao vivo e a cores, os actores de profundas transformações, nas áreas mais díspares, foi, para além de um prazer, um verdadeiro privilégio, acalentando a esperança de que Viseu possa vir a acolher mais eventos do género.
Parecerá sempre ingrato salientar uma intervenção em detrimento de tantas outras , igualmente estimulantes, mas retive a interessante apresentação do economista e comentador televisivo Pedro Guerreiro, que colocou a seguinte questão na abertura da sua intervenção: "Quanto tempo é preciso para uma revolução? 27 segundos. " Deu como exemplo da oportuna onda da Nazaré que pôs Portugal na boca do mundo e, neste caso, por um bom motivo! No entanto, e contrariamente ao que se possa julgar, esta maior onda do mundo não foi obra do acaso, mas de uma estratégia sustentada que envolveu o município local e que levou àquele resultado que o planeta viu. Nada vem sem trabalho, sem sacrifício, sem empenho. E só assim conseguiremos apanhar a onda da retoma e, sobretudo, do optimismo!:)

sábado, novembro 26, 2011

autocarro 147


Para mim, o cinema brasileiro tem o grande condão de nos despertar para a realidade e de nos interpelar constantemente, fazendo-nos estremecer do conforto do sofá.
Assisti ontem ao filme "Autocarro 147" que, na senda de filmes como "Carandirú" (filme que nos revolve as entranhas), "Cidade de Deus" ou "Tropa de Elite", mostra a dura realidade da vida nas favelas do Rio de Janeiro, a cidade que só é maravilhosa para alguns.
O filme "Autocarro 147 - A última parada" , baseado numa relativamente recente história verídica, desenha os conturbados percursos de vida dos protagonistas Alessandro e Sandro que a dada altura, se entre-cruzam, com resultados sempre explosivos. Em comum têm negros destinos de miséria, vagueando pelas ruas do Rio de Janeiro, cheirando cola, roubando e traficando droga e, o que é ainda mais confrangedor, partilhando a solidão com outros meninos que aprenderam a ser homens (maus) com bons corações. E também eles se apaixonam, como o prova uma tirada brilhante do filme: "amor que não se paga com dinheiro, se paga com o coração"!
No entanto, a realidade não perdoa, é dura demais e de vítimas, estes meninos/homens cedo passam a algozes, deixando atrás de si um rasto de pânico e de morte pela cidade.
O que sucedeu no tristemente célebre Autocarro 147 mais não foi do que o triste corolário deste mosaico de histórias de vida destroçadas para as quais não há qualquer vislumbre de esperança ou de redenção.
Neste cinema brasileiro da actualidade, comprometido com as complexas (e aparentemente insolúveis) questões sociais, não há espaço para "happy endings". A realidade atinge-nos como um soco. Duro e seco.

quarta-feira, junho 29, 2011


Eras tu que habitavas os meus sonhos mais profundos e que, com a tua mão firme, me conduzias por trilhos infindos. Eras tu que apaziguavas o meu espírito em sobressalto e me envolvias num abraço (e)terno. Eras tu que me habitavas. Por fim acordei desse sonho e vi-te. Enleei-te em mim para não mais te largar. És tu que fazes desse sonho de sempre a mais bela realidade! Já não preciso de sonhar!
As I walk along the crowded streets, I always see your smile blessing me on my way and no matter where I go, it always feels like home...

na quietude

na quietude de um abraço prometido desde há muito, ecoaram de novo as certezas que se julgavam perdidas para sempre, irremediavelmente confinadas a uma realidade demasiado estática para sequer se pensar diferente.

na quietude desse abraço, na doce ternura de uma promessa que se cumpriu, tão deliciosamente improvável, soltou-se uma torrente de emoções e de palavras que emprestaram novas tonalidades à existência.

na quietude desse abraço, a certeza de um sorriso que nos espera e nos toma por completo, doces reféns de um laço inabalável.

na quietude desse abraço, um sentimento avassalador que se fez ETERNO!...

"Se me comovesse o amor", Francisco José Viegas



Se me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
as figueiras, a sombra dos muros, o jasmineiro
em que ficou gravada a tua mão, e deixo o dia
caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.

Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reconhecer
o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.

Por isso não me procures, não me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.

Da interioridade


Não sei se esta imagem será exclusiva do interior do país,ainda refém de um certo conservadorismo e cioso da manutenção de determinados pergaminhos que,de tão desajustados nos tempos actuais, chegam a ser enternecedores:as mulheres vestem os seus vestidinhos de gala que poderiam envergar num qualquer casamento de uma prima e os homens foram pescar os seus fatos de cores questionáveis às profundezas do armário.Tudo a postos para prestar vassalagem ao senhor bem-falante que vem dissertar sobre temas tão corriqueiros(mas não menos interessantes,porque envoltos numa irresistível camada de ironia) que não seria necessário tamanho formalismo quase medieval.O povo português pouco mudou desde os tempos de Eça e isso é comovente!

sábado, janeiro 29, 2011

Da (des)ilusão eleitoral


Há, de facto, um divórcio entre os eleitores e a classe política, no seu todo. E este afastamento não se aplica somente às classes dirigentes que, ao longo dos anos contribuíram para um manifesto desgoverno do país e, sobretudo, para o agudizar desse desencanto que se sente e se pressente no país profundo, nas conversas de café, na rua, no pulsar do país real que se debate com as questões verdadeiramente cruciais!
Durante décadas, assistimos, mais ou menos revoltados, mais ou menos desencantados a um desnorte absoluto por parte das classes dirigentes que colocavam os seus próprios interesses na linha da frente; que malbaratavam o erário público; que depressa se esqueciam dos problemas do país real em função da sua ambição desmedida e que criaram exércitos de "boys" e carreiristas, que se vão alternando nas cadeiras do poder.
Esta última campanha das Presidenciais foi absolutamente confrangedora e despertou mais bocejos do que interesse. Os intervenientes principais destas eleições envolveram-se numa espécie de "bate-boca" deploravelmente terceiro-mundista e os dias de campanham sucediam-se ao sabor de mais um escândalo, de mais uma revelação que só serviam para alimentar uma imprensa cada vez mais voraz de sensacionalismo e de folhetins do que propriamente de conteúdos edificantes e que interessam aos cidadãos e ao país real, asfixiado por uma crise que parece eterna.
Adivinhava-se, assim, uma taxa de abstenção muito elevada que desta vez acabou mesmo por bater um recorde histórico!
Há um alheamento cada vez maior dos eleitores e creio que, em contexto de crise e de recessão, este fosso entre eleitores e classe política (no seu todo) será cada vez mais denso, podendo mesmo criar-se um abismo imenso. É necessário discutir as razões que levam a esta total indiferença, mais grave ainda, a esta tremenda desilusão que assiste a 53% do eleitorado aquando do "dia D"!
Há uma obra de Saramago - Ensaio sobre a Lucidez - que trata precisamente deste divórcio entre o indivíduo e o poder, entre governados e governantes. Num acto eleitoral, houve 70% de votos em branco, reconhecidamente o voto de protesto por excelência e o governo desse país imaginário (ou não) recorreu à subjugação pela força. Será este o último recurso, o verdadeiro acto de lucidez? Andarão os políticos completamente cegos às reais preocupações dos indivíduos que os elegem?
E se um dia a ficção se tornasse realidade? Como se sabe, a vida, por vezes, imita a arte...
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